Ambientalismo e Desenvolvimento (3)

Artigo 23, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Abr 2008

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Capítulo Seis, agora para complementar esta reflexão sobre Ambientalismo e Desenvolvimento.

Na primeira parte deste capítulo tratamos da mudança no olhar e usamos a metáfora da Terra e a fruta; na segunda, vimos relações possíveis entre organismos e sistemas e a estratégia resumida na simbiose (“vida em comum”).

Tratemos agora do que nós, humanos, precisamos que seja transformado em nós mesmos.

Há uma frase circulando intensamente e atribuída a um certo Henry Brown (ainda não consegui, infelizmente, detectar-lhe a origem).  É um pensamento poderoso:

"Nós não herdamos a terra de nossos pais, mas a pegamos de empréstimo de nossos filhos."

Decerto, eu tenho 4,6 bilhões de anos, você tem. Talvez até mesmo 13,5 bilhões de anos; todas as partículas (átomos) que nos formam existem há tanto tempo... algumas desde a formação do universo.  Em uma forma reduzida de se ver, trata-se apenas de uma questão de arranjo e combinação, a diferença entre nós e tudo o que existe ou já existiu sobre a face da Terra ou talvez mesmo em outras partes do universo.  O ar que respiramos já foi respirado ou fez parte de muitos outros organismos vezes sem conta ao longo de milhões de anos.

Lembro-me que não tinha ainda 4 anos de idade quando comecei a ir à escola.  Naquela época, cerca de 20% da população brasileira morava em cidades, 80% era rural; hoje dá-se o contrário.  Éramos 50 milhões; hoje estamos perto dos 190 milhões.  A população mundial era de 2,5 bilhões enquanto que hoje aproxima-se rapidamente dos 7 bilhões de humanos.

Desenvolvemo-nos ou apenas crescemos?

Uma lembrança recorrente em minha vida está ligada ao sentimento de gratidão.  Minha família tinha o hábito de visitar os parentes.  Éramos a parte urbana e viajar de São Paulo até Salto e Itu tinha sabor de aventura.  Quando chegamos ao sítio do ‘Tio Beppe’ (tio de um tio) e fui a ele apresentado, minha pergunta imediata foi “Tio, o que são aquelas árvores com fruta amarela grande que vi lá na entrada?”.  Ele me sorriu e disse apenas, tirando um canivete do bolso, “Vá lá descobrir...”.

Conseguiram tirar-me de cima dos pés de lima só no final da tarde, hora de ir embora.  Perguntei-lhe então quanto tempo levava para aquelas árvores chegarem a aquele ponto.  “Uns 10 ou 15 anos...”, respondeu, deixando-me espantado, pois eu tinha 11.

Voltei pensando naquilo, no esforço de alguém que planta, cuida e espera, em meu esboço de reflexão adolescente.  E vi-me agradecido por esse ato

generoso que propiciou-me uma das melhores tardes e lembranças de minha vida.

Jovem, depois adulto e hoje na maturidade, fui e sou sempre revisitado por esta preciosa lembrança, ampliada em minha experiência de vida pelo reconhecimento a todos os esforços de incontáveis pessoas que oferecem sua energia e coragem, muitas vezes sacrifício, para que o mundo recebido seja deixado um pouco melhor para os que virão.  São momentos que fazem sentir-me plenamente vivo, comovido e emocionado em minha profunda gratidão.

Aziz Nacib Ab’Sáber (1924), geomorfologista e um dos maiores geógrafos contemporâneos, professor emérito da FFLCH e honorário do Instituto de Estudos Avançados, USP, presidente de honra da SBPC - Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, e de quem tive a imensa sorte e felicidade de ser aluno, escreveu na edição brasileira de Março/2008 da Scientific American, revista de divulgação científica:

Estou convencido de que escritos com alto nível de interdisciplinaridade devem se tornar leitura obrigatória para jovens (universitários) e toda uma legião de técnicos, políticos e administradores.  Em um país onde os representantes do povo não têm tempo nem o hábito da leitura, essa mensagem irá reorientar a cabeça dos tontos pelo poder.  Talvez um dia seja possível abater a ignorância e exigir uma verdadeira democracia, conduzida com inteligência vinculada a bons e amplos conhecimentos e a uma ética permanente com o social e o futuro.

Citando o arquiteto, paisagista e planejador americano Garret Eckbo, ‘quando as árvores não estiverem se dando bem numa cidade, com certeza as pessoas não estarão melhor’, este alerta é mais que válido para algumas cidades; mais que isso, porém, vale para o assassinato progressivo e incontrolável dos espaços florestados e biodiversos perante os olhos embasbacados de todos.  Tudo denota o desconhecimento de espaços ecológicos, da biodiversidade total e regional e das necessidades de fazer o máximo esforço protetor, incluindo o desenvolvimento com o máximo de floresta em pé.

Amplio o alerta aos jovens (geógrafos) brasileiros que salientam que ‘agora todos os espaços viraram mercadoria’, um dos fatos mais importantes [e nefastos] derivados do neo-capitalismo em relação ao destino da vida no planeta Terra.

Será possível conciliar desenvolvimento (crescimento?) e sustentabilidade?  Em outras palavras: será possível a humanidade continuar a crescer (desenvolver-se?) sem com isso criar as condições que poderão tornar sua existência insuportável ou talvez, em breve, extinguí-la?

Nos próximos artigos abordaremos a relação entre desenvolvimento e sustentabilidade, o que promete esquentar um tanto mais o ambiente.