Ambiente e Ecologia (2)

Artigo 11, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Out 2006

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Capítulo Três: prossigamos na compreensão de Ambiente e Ecologia.

Em 1866, o biólogo alemão Ernst Haeckel, que viveu de 1834 a 1919, propôs a criação de uma nova palavra visando resumir e expressar um novo campo de estudos a que ele e outros pesquisadores vinham se dedicando.

Sugeriu a junção de dois radicais gregos, “oíkos” (casa, bens) e “lógos” (linguagem, ciência), criando então o termo “ecologia” para representar “o estudo do lugar onde se vive”.

Uma forma mais precisa de descrever esta abordagem da realidade foi sugerida por Charles J. Krebs em 1972.

Ele definiu ecologia como “o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos”, ou seja, estudo das interações dos organismos com seu meio ambiente, que por sua vez determina a distribuição e abundância, no espaço e no tempo, destes mesmos organismos.

Numa conversa de botequim, poderíamos simplesmente dizer: “É claro, se não cuidarmos da casa, ela acabará caindo em nossas cabeças”.

Esse estudo dá trabalho, não é simples, exige paciência, dedicação, olho e mente abertos.  Temos que considerar clima, solo, água, flora (as plantas), fauna (os animais), minerais e nutrientes, energia, resíduos de toda ordem, a dependência ou a indiferença entre espécies, os organismos e populações de uma mesma espécie, as comunidades de espécies diversas etc e o tempo, sempre o tempo, como vimos nas edições de Março e Abril.

Falamos antes em como este estudo pode parecer quase impossível para o pensamento cartesiano: ele tentaria recortar esta realidade em pedaços e analisá-los em particular, buscando depois somá-los.  Como resultado, nada mais seria ou funcionaria como antes, pois essa abordagem é insuficiente como ferramenta para o conhecimento.

O biólogo austríaco Karl Ludwig von Bertalanffy propôs em 1937 uma mudança radical:  que se passasse a olhar o meio ambiente como um sistema.  Ele combatia fervorosamente o reducionismo cartesiano e desenvolveu uma nova abordagem para o (re)conhecimento da realidade, que veio a ser conhecida como Teoria Geral dos Sistemas.

Temos uma noção intuitiva do que venha a ser um sistema, pois freqüentemente nos referimos aos sistemas solar, nervoso, econômico, ecossistema (eu costumo mencionar o sistema de crenças de cada um de nós em minhas conversas, como no artigo de Abril).

Nas palavras do próprio Bertalanffy, em 1973:

"Essa idéia, a Teoria Geral dos Sistemas, remonta a muito tempo atrás.  Apresentei-a pela primeira vez em 1937... entretanto, nessa ocasião a teoria tinha má reputação em Biologia e tive medo. 

Por isso deixei meus rascunhos na gaveta e foi só depois da guerra que apareceram minhas primeiras publicações sobre o assunto... (com surpresa) verificou‑se ter havido uma mudança no clima intelectual.  Mais ainda, um grande número de cientistas tinha seguido linhas semelhantes de pensamento...  Assim, a Teoria Geral dos Sistemas não estava isolada, mas correspondia a uma tendência do pensamento moderno...

A inclusão das ciências biológicas, sociais e do comportamento junto à moderna tecnologia exige generalizações de conceitos básicos da ciência.  Isto implica novas categorias do pensamento científico, em comparação com as exigências da física tradicional (reducionista), e os modelos introduzidos com esta finalidade são de natureza interdisciplinar."

A teoria dos sistemas é regida pelos conceitos de:

- interação, a ação recíproca entre os elementos, que pode modificá-los (por exemplo, ensino e aprendizado, pois quando ensinamos também aprendemos e vice-versa);

- totalidade, que está longe de ser apenas a soma das partes, pois há qualidades que só existem no todo e não nas partes (p.e., o gato de Douglas Adams, mencionado no artigo de Fevereiro);

- organização, o arranjo das relações entre os componentes que produz, com certo grau de estabilidade, nova unidade e novas qualidades (p.e., o time do meu glorioso São Paulo que, com os mesmos jogadores, resolveu voltar a jogar bem depois que o técnico Muricy, quase tardiamente, alterou o esquema tático, ou seja, a organização da turma em campo);

- e complexidade, que depende do número de elementos e da capacidade de auto-organização e mudança, caracterizando a originalidade do sistema e a riqueza de informações (p.e., quando o time perde um jogador e até mesmo melhora, superando-se).

Como disse o físico Fritjof Capra em 1996, “o conhecimento de toda a organização biológica exige a compreensão das suas interações com o seu ecossistema.  Em termos práticos, a complexidade dos ecossistemas é uma característica positiva, especialmente quando se trata da questão da diversidade.  Por exemplo, quando uma espécie desaparece em determinado ecossistema, devido a uma perturbação qualquer, se a comunidade for diversificada ela terá condições de se organizar, visto que outros organismos da rede podem vir a desenvolver a função da espécie desaparecida, pelo menos parcialmente.  Isso mostra que quanto mais complexa for a rede de interações, quanto mais complexas forem as relações de interdependência, maior será a capacidade de adaptação desta comunidade diversificada”.

Um tanto longo, mas a vida não é mesmo simples, não é?  Na próxima edição avançaremos na compreensão do que vem, afinal, a ser a Ecologia.