Cidadania e Democracia (2)

Artigo 30, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Nov 2008

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Capítulo Nove: avancemos para concluir esta reflexão sobre Cidadania e Democracia.

Desde criança vejo-me a observar algo que bem pode ser resumido pelo pensamento do escritor, dramaturgo e poeta Oscar Wilde (1854-1900, irlandês):

Viver é a coisa mais rara do mundo.  A maioria da gente apenas existe.”

A professora Dulce Critelli, da PUC de São Paulo, diz em uma de suas obras: “Todos somos atores de nossa[s] vida[s], mas nem sempre podemos [conseguimos] ter sua autoria.  O pensar [e o escrever] favorece[m] a autoria da existência.”  Em outras palavras, abre as portas para o viver.

Hannah Arendt, citada no artigo anterior, escreveu dois trabalhos fundamentais como pensadora política e filósofa ativa: As Origens do Totalitarismo, em 1951, e A Condição Humana, em 1958.

Hannah não era uma pesquisadora acadêmica típica, de linguagem difícil e distante do cotidiano do cidadão comum; ao contrário, tratava de atividades que estão ao alcance de todo ser humano: refletir, “o pensar, o querer, o julgar”, o labor, o trabalho e, principalmente, a ação.  Sua indagação essencial era: o que estamos fazendo?

Nela, “o essencial é compreender... um processo complexo, uma incessante atividade, criadora de sentido, sempre variada e em permanente mudança, por meio da qual nos ajustamos ao real, conciliamo-nos com nossas ações e nossas paixões”.

Hannah procurava, como nota o professor e ex-ministro Celso Lafer, ali “compreender as origens do isolamento e do desenraizamento, sem os quais não se instaura o totalitarismo, aí entendido como uma forma de governo e dominação baseado na organização burocrática de massas, no terror e na ideologia”.

Ele lembra que “o isolamento destrói a capacidade política, a faculdade de agir”.  No dizer de Hannah, é aquele “impasse no qual os homens se vêem quando a esfera política de suas vidas, onde agem em conjunto na realização de um interesse comum, é destruída.”

O isolamento é a base de toda tirania e o totalitarismo exige também o desenraizamento, que desagrega a vida privada e destrói as ramificações sociais.  Para Hannah, “não ter raízes significa não ter no mundo um lugar reconhecido e garantido pelos outros; ser supérfluo significa não pertencer ao mundo de forma alguma."

Ainda para Lafer, esta conjugação de isolamento (destruidor das capacidades políticas) e desenraizamento (destruidor das capacidades de relacionamento social), permitindo a dominação totalitária, se produz quando, na palavras de Hannah, “o homem isolado, que perdeu seu lugar no terreno político da ação, é também abandonado pelo mundo

das coisas, quando já não é reconhecido como homo faber [trabalhador ativo], mas tratado como animal laborans [sobrevivente], cujo necessário ‘metabolismo com a natureza’ não é do interesse de ninguém”.

Na lembrança de há 120 anos de Oscar Wilde, "hoje em dia conhecemos o preço de tudo e o valor de nada."

As comunidades humanas são tão mais saudáveis e fortes quanto mais desenvolvidos são os seus laços sociais, o sentimento de pertença (o fazer parte de), a solidariedade, o bem-estar individual e o bem-estar público, enfim, a cidadania.

No centro da ação de Hannah está a preocupação com a criação do espaço da res publica, o bem comum, a coisa pública (a república).

Como vimos, democracia (“poder exercido pelo povo”) tem a ver com liberdade (do Latim “libertas”, “condição de pessoa livre”), que tem a ver com responsabilidade (do Latim “respondere”, “responder”, e anteriormente do Indo-europeu “spend”, “firmar um compromisso”), que tem a ver com alteridade (“o Outro”).

Theodore Parker (1810-1860, estadunidense), pensador, escritor e conferencista cujas idéias encontraram eco em líderes como Abraham Lincoln e Martin Luther King Jr, logo, também no recém-eleito presidente dos EUA, Barack Obama, dizia isto de outra forma: "A democracia não significa ‘sou tão bom como você’, mas sim ‘tu és tão bom como eu’."

No artigo anterior mencionamos Atenas, a cidade-estado grega conhecida como o berço da democracia há mais de 2 mil anos.  “Pólis”, em Grego, “cidade”, depois passou a “reunião de cidadãos” ou ainda “Estado livre”.  “Politeía”, que em Grego é “qualidade e direitos dos cidadãos”, passou em Latim a “política”, que é “sistema governativo”.  Ao voltar aos gregos, deu “politiké”, que tornou-se “ciência dos negócios do Estado”.

Platão, tantas vezes aqui citado, assim resumia sua visão a respeito: “Uma das desvantagens em nos recusarmos a participar da política é que acabamos sendo governados por nossos inferiores."

o nosso divertido Barão de Itararé (Aparício Torelly, 1895-1971, gaúcho), jornalista, escritor e pioneiro do humorismo político dizia: “É preciso combater sempre.  Discordo da teoria de que os povos empenhados na luta pela democracia devam esperar o seu desfecho para concretizar suas aspirações.  É no próprio curso do conflito que se afirmam os valores dos que prezam a liberdade.  Por isso, não compreendo um combatente dependendo de um relógio de pulso, embora seja verdade que todo combatente deva ter pulso para lutar, mesmo que não tenha relógio.”

No próximo artigo, para atingir o ponto de fervura, abordaremos a relação entre democracia e utopia.