Ciência, Educação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável

Artigo 5, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Fev 2006

© 2005-2017 Fabio Ortiz Jr

 

O divertidíssimo escritor inglês Douglas Adams, autor, entre outras coisas, da série O Mochileiro das Galáxias, foi certa vez convidado por um professor amigo a dar uma palestra para formandos numa universidade.

Sua educada irreverência e uma tremenda preguiça fizeram com que ele não preparasse o texto.  Na hora, improvisou.  Ele entendia de Ciências e em sua fala começou a criticar a maneira como se ensina nas escolas e universidades em geral.

Sapecou algo mais ou menos assim:

É muito curiosa a maneira como vejo fazerem Ciência.  Por exemplo, quando se quer descobrir como é que um gato funciona, logo divide-se o gato em umas tantas partes, procurando saber como é que cada uma delas trabalha e o que faz.  E a primeira que coisa que se obtém é um gato que não funciona mais...

O agudo talento de Douglas nos fará falta, pois ele se foi precocemente e seu olhar perspicaz e bem-humorado era uma bênção nesta época de grandes e dramáticas transformações.

Sua lembrança me acudiu quando eu refletia sobre os objetivos desta coluna:  tratar de forma condensada, mas clara, os assuntos da Educação Ambiental e do Desenvolvimento Sustentável.

Lembrei-me das dificuldades vividas por todos nós quando nas escolas (ou no trabalho, ou em casa) nos dispomos a aprender.

O conhecimento que nos é apresentado vem geralmente em caixas.  Quando somos pequenos, elas chamam-se Aritmética, Português, História, Geografia, Ciências etc.  Quando crescemos um pouco, elas se chamam Matemática, Literatura, Filosofia, Física, Química, Biologia, Língua Estrangeira etc.  Depois, quando somos maiores, podem bem ser Cálculo Numérico, Mecânica de Solos ou ainda Direito Internacional ou Fisiologia etc etc.  Mas vêm em caixas, sempre em caixinhas.

Quero com isto dizer que todos aqueles que um dia se perguntaram “afinal, para quê isto serve?  Para quê tenho que estudar isto?”, sentindo-se desta forma solitários e miseráveis ou até mesmo estúpidos, na verdade não estavam sós.  Quase todos que conheço e eu mesmo fizemos um dia estas perguntas.

O problema, em geral, não está em nós.  Ele está na maneira com que o aprendizado nos é imposto.

Tudo que está em uma das tais caixinhas é visto e nos é ensinado como um bem em si mesmo, como se nada tivesse a ver com as outras caixinhas.  Isto é antigo, teve seu momento de glória e sua validade.  Porém, está com o prazo de validade vencido, está ultrapassado, não mais é adequado para o momento e a época que vivemos.

Imagine os cerca de 150 mil anos da humanidade, de nossa espécie.  Na quase totalidade deste tempo, quase nada sabíamos explicar da natureza senão por meio da magia ou da religião.  Apenas nos últimos séculos é que aprendemos a fazer o que chamamos de ciência (em Latim, "scio" é "saber", "notar", "reconhecer"); e não foi fácil fazê-lo.

Uma das formas empregadas consistiu em tomar o problema a resolver dividindo-o em partes menores, ou então isolando o fenômeno a observar de seu contexto, de sua totalidade.  Já que não se compreendia o todo, talvez fosse possível resolver a questão pelo exame das partes, juntando-se tudo depois.  O filósofo francês René Descartes foi quem sistematizou esta abordagem, depois chamada de método cartesiano.

No mundo ocidental de então, o cartesianismo foi um passo adiante na busca por compreender a realidade, embora existissem outros caminhos.  Benéfico inicialmente, hoje entretanto considero-o nefasto.  É necessário e urgente desaprendê-lo.

Por exemplo, muito fala-se hoje em ecologia, educação ambiental, desenvolvimento sustentável.  Tende a virar moda e, como em todas as modas, ficar o dito pelo não-dito, o aprendido pelo não-explicado, o compreendido pelo subentendido.

Com estas considerações, dou início a uma série de artigos que aqui procurarão, nos limites deste espaço e de meus conhecimentos, lançar alguma luz sobre noções e conceitos necessários à compreensão do que queremos dizer com ecologia, educação, ambientalismo, desenvolvimento e sustentabilidade.

Construiremos aqui juntos estes conhecimentos, como capítulos de uma proposta de desenho de um futuro promissor para nossa cidade, que vive um momento único e imperdível, e talvez também para nossa região.

Poderemos desta forma falar de educação ambiental para o desenvolvimento sustentável.

Para isto e para uma ampla troca de idéias entre nós, as eventuais mensagens que queiram me enviar poderão ser encaminhadas para este jornal ou então para meu endereço na Internet.