Conclusões (1): O Olhar

Artigo 35, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Abr 2009

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Undécimo Capítulo: para então construir algumas conclusões nesta nossa jornada de reflexões.

André Gide, escritor já aqui mencionado, descortinando os caminhos e descaminhos da humanidade, um dia declarou:

Todas as coisas já foram ditas.  Mas, como ninguém escuta, é preciso sempre recomeçar."

Uma das observações possíveis a esta afirmação é: sorte a nossa!  Outra seria: azar o nosso!

Quando criei para mim (e para os que abraçaram esta idéia) o desafio de constituir o centro de educação e pesquisas ambientais a que tenho me dedicado desde 2000, moveu-me esta inquietude: como conseguir que esta atividade conhecida por “educação ambiental” alcance modificar o comportamento das pessoas para que a vida se sustente?  Por que é tão difícil fazê-lo?

Passei os anos seguintes refletindo a respeito, buscando em minha memória, lendo, estudando, pesquisando, observando e conversando muito.  Emergiu assim a percepção de que nosso atual comportamento, predador e inconseqüente, é fruto sobretudo de nosso desconhecimento, não nos damos conta do que realmente está a acontecer o tempo todo diante de nós e conosco.

Compreendi isto, num vôo rápido ao que entendo como origem deste problema, ao verificar a dificuldade que temos em nos darmos conta da interdependência (que temos uns com os outros e com todos os aspectos e formas de vida) e também com a percepção da impermanência de tudo.  Falta-nos perceber processo.  Vi que não compreendemos isto porque não percebemos a dinâmica, o movimento, tendemos a olhar para a vida como quem olha para uma foto e não para um filme; e compreendi que não vemos a dinâmica porque não nos damos conta do tempo, nossa habitual percepção do tempo (o tal do senso comum) é chapada, sem relevo, sem profundidade, é precária.  Nossos sentidos estão anestesiados ou mesmo obstruídos, não nos desenvolvemos, não procuramos um ponto de observação mais amplo.

Assim, minha primeira conclusão diz respeito ao Olhar.

Por onde você quer olhar o mundo, qual o seu ponto de observação neste momento, qual a abrangência do seu olhar?

Você vê o mundo pelo buraco de uma fechadura?  Prefere vê-lo por uma janela, observá-lo a partir da porta?  Ou vai à varanda, ou mesmo desce a rua, percorre uma estrada, sobe numa colina, escala uma montanha?  Quem sabe atreve-se a um avião, uma estação espacial, a Lua?

Para você o que é “o mundo”?

No mundo humano, a idéia de uma grande explosão (que nunca vem) é bastante ingênua e tola.  Minha geração e eu passamos muitos anos olhando temerosa e diariamente para os céus (aguardando as

bombas atômicas ou nucleares que felizmente jamais caíram) e para o entorno (na busca de uma súbita e drástica mudança, a revolução, que nunca veio ou conseguimos fazer).  Parte da armadilha consistia em nos vermos “no fundo do poço”, onde “ninguém aguentava mais”; logo, “pior não poderia ficar”.  Porém, teimosa e surpreendentemente, ficava; donde depois de alguns anos concluí que a frase famosa (“pior não pode ficar”) apenas denotava falta de imaginação, inexperiência ou desconhecimento.

Continuei a elaborar esta reflexão por muitos anos e minha compreensão, durante a minha formação como geólogo, foi sendo iluminada por uma mudança radical na percepção do tempo.

Na verdade, compreendi, estamos há décadas ou mesmo séculos em plena explosão, mas tão completamente nela imersos que mal a conseguimos perceber.  Dela só nos damos conta ao ampliarmos nossa percepção, nossa escala, pois ela é descomunal no espaço e no tempo: é a mais grave de todas as crises civilizatórias de nossa humanidade até o presente (em minha opinião superando até mesmo os dois momentos conhecidos de há 40 mil e 80 mil anos atrás, quando estivemos por um fio).  No entanto, assim também pode ser a mudança súbita, a revolução.  Os apocalípticos gostam muito de anunciar o “fim do mundo, fim dos tempos”.  Ora, seguramente um mundo está se acabando; e em seu lugar outro emerge.  É o fim do mundo; mas de que mundo estamos falando?

Há alguns anos li os diários das quatro viagens que Cristóvão Colombo fez em direção ao desconhecido, na busca de uma nova rota marítima para as Índias, um relato precioso e saboroso da descoberta, para os europeus de então, de um “novo mundo” que veio a ser injustamente denominado América.

Encontrei ali, na apresentação, a menção a um fato surpreendente: alguns dos povos indígenas encontrados não foram capazes de dar-se conta da aproximação das naus com os visitantes, mesmo estando nas praias para onde estes se dirigiram e aportaram.  As caravelas e seus ocupantes simplesmente não faziam parte do mundo conhecido pelos indígenas, não cabiam em sua cultura, não existiam em seu imaginário.  Logo, não existiam ao seu olhar.

Como vimos nos artigos A Percepção do Tempo, de Março e Abril de 2006, a nossa percepção do tempo, o tempo psicológico, é o que estrutura nosso sistema de crenças e a maneira como percebemos a realidade e com ela interagimos.

Vemos o que queremos ou o que estamos preparados para ver.  Todos nós.

O que nos traz problemas não é o que desconhecemos; é o que presumimos, damos por certo, que não pode ser.

Talvez assim seja pelo que nos aponta William R. Inge (1860-1954, inglês), padre, teólogo anglicano e escritor: “aquele que come do fruto da árvore do conhecimento sempre é expulso de algum paraíso."