Democracia e Utopia (1)

Artigo 31, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Dez 2008

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Capítulo Dez: abordemos enfim, como clímax desta jornada, a relação entre Democracia e Utopia, assuntos que fazem tremer a muita gente.

Alguns de nós desde cedo na vida dispomo-nos a carregar um pesado fardo, a idéia e a ação de “ajudar”.

Intenção e gesto nem sempre caminham juntos, pois há, mesmo entre os de aparente boa-vontade, uma certa confusão entre o que venha a ser realmente “ajudar” (em geral “ajudar a alguém”) e a mera extensão de suas próprias necessidades ou mesmo irreconhecidas carências pessoais (a sua, digamos, “agenda secreta”).

A construção do discernimento necessário para se distinguir entre uma coisa e outra não é simples e não é fácil.  Para todos nós, a primeira tarefa reside em, antes de mais nada, ajudar-se a si próprio, reconhecendo-se.  Do ponto de vista psicanalítico, “conhecer” é “nascer novamente”, com uma ampliada e nova mente.

Qual o seu sonho?  O que você mais deseja realizar?  Que sentido você procura dar à sua existência?

Estas são perguntas essenciais e valem para todos, são universais no mundo humano; já as respostas que valem para você só poderão ser dadas por você mesmo.

No entanto, ao olharmos para o conjunto destas respostas humanas e ao lhes extrairmos o sentido geral, espécie de óleo essencial, veremos que elas de alguma forma expressam o mesmo desejo.

O divertidíssimo Quino (Joaquín Salvador Lavado, 1932, argentino), genial humorista gráfico e arguto observador do cotidiano, assim expressou este pasmo essencial (à Fernando Pessoa, um dos maiores poetas em língua portuguesa) pela voz de sua personagem Mafalda:

“Justo a mim me coube ser eu!”

Eduardo Galeano (1940, uruguaio), combativo jornalista e escritor, grande apreciador do Brasil e da brasilidade, assim nos lembra:

“Somos o que fazemos, principalmente o que fazemos para mudar o que somos...  A primeira condição para modificar a realidade consiste em conhecê-la.”

São as respostas e as ações (conscientes ou não, saudáveis ou doentias) decorrentes daquelas perguntas essenciais acima que fazem do mundo humano aquilo que ele é.

A maneira como vemos a nós mesmos e aos outros, a maneira como estabelecemos nossas relações e nos apropriamos dos espaços vitais, podem ser conhecidas pelos aspectos do conhecimento (pontos de vista sobre a realidade) a que chamamos de filosofia, psicologia, geologia, ecologia, economia, política.

Desde que diferenciou-se das outras humanidades e tornou-se Homo sapiens, há mais de 150 mil anos, a

nossa humanidade experimentou diversas formas de agrupamento e associação, passando pelos clãs familiares, pelas tribos, reinos, impérios e agora enfim pela república.

Bem ou mal, emergimos do século XX, onde duas guerras planetárias foram travadas ao lado de inúmeras guerras localizadas, para iniciarmos o século XXI imersos na maior crise civilizatória que poderemos jamais ter enfrentado, onde o único e real inimigo visível somos nós mesmos e nossa até aqui incurável estupidez.

Não bastante, esta crise longamente gestada produziu, ou agravou, uma até aqui imensamente desconhecida crise ambiental.  Namoramos nossa extinção ou, numa hipótese amena, nossa drástica redução, acompanhada da real extinção de inúmeras espécies de que dependemos e da redução dos espaços vitais que vêm constituindo, há muitos milênios, o nosso maravilhoso habitat proporcionado por uma trégua geológica da Terra.

Nossas possibilidades dependem em larga medida de nós mesmos; não como se fôssemos o centro do universo, não como se Deus tivesse criado o universo e a Terra apenas para nos servirem, não como se tivéssemos que lutar contra a natureza para subjugá-la (o que de resto cria o campo fértil para o isolamento e o desenraizamento que produzem o totalitarismo mencionado nos artigos anteriores).  Mas sim revelando e valorizando aquilo que emergirá daquele conjunto de respostas às questões essenciais mencionadas: o profundo e básico desejo de realizar-se e de fazer parte, o sentimento de pertença.

Isto depende de nosso sistema de crenças, da forma como nos vemos e ao outro, da forma como estabelecemos nossas relações e nos apropriamos dos espaços, sejam físicos, sejam temporais, sejam sociais.

Disse Winston Churchill (1874-1965, inglês), militar, estadista, historiador, que conseguiu unir e mobilizar a Inglaterra na resistência ao nazismo:

“Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito.  Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos...”

Em uma versão menos publicável para a época, teria dito: “Democracia... é uma m*, dá trabalho, não é mesmo?  Mas, infelizmente, ainda não inventamos nada melhor”.

Frank Herbert (1920-1986, estadunidense), escritor, autodidata, criador da saga “Duna”, uma das obras mais completas e profundas já vistas, nos lembra:

“A vida não encontrará razões para se manter, não será uma fonte de respeito mútuo, a não ser que cada um de nós resolva emprestar-lhe tais qualidades.”

No próximo artigo avançaremos nesta reflexão.

Feliz Natal a todos e um Ano Novo pleno de sonhos e realizações, na paz, na saúde e na pertença.