Desenvolvimento e Sustentabilidade (3)

Artigo 26, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jul 2008

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Capítulo Sete: agora para concluir esta reflexão sobre Desenvolvimento e Sustentabilidade.

Como vimos nos últimos artigos, devemos receber com cautela os discursos daqueles que propõem desenvolvimento e com redobrada prudência crítica quando falam de desenvolvimento sustentável, a moda da vez.

Tudo o que viemos discutindo aqui há meses (tempo, espaço, ambiente, ecologia, educação, ambientalismo, desenvolvimento, sustentabilidade) trata de movimento, o que pressupõe energia: a energia que faz viver aos organismos, à coletividade, aos sistemas.

A energia necessita fluir para que a vida exista, é uma lei da Física ou, se quiserem, da Biofísica, da Bioquímica.  É obtida pela transformação de elementos básicos, substâncias, nutrientes.

Nos sistemas as transformações e as trocas fazem a energia fluir (lembre-se, um indivíduo pode ser visto como um sistema; da mesma forma podemos ver uma comunidade ou um conjunto de relações).  No caso dos viventes é necessária alguma acumulação, alguma reserva (energia potencial), mas a energia deve fluir.  A acumulação excessiva estagna o fluxo e o processo de trocas, é nociva, rompe equilíbrios e conduz à decadência até a falência.

Assim como nas trocas com o entorno, o princípio vale para as trocas sociais: no âmbito humano, esta é a Economia estritamente dita.  Mas se formos falar de economia no sentido amplo, usemos então o seu nome próprio: Ecologia.

Como já vimos, “oikos” significa “casa”, o que define Ecologia como “o estudo do lugar onde se vive”.  Assim, Economia (“Oikonomia”) significa “administração de uma casa, a organização do lugar onde se vive”.

Somos uma espécie que administra muito mal a própria casa (e tenhamos bem claro que ela não é apenas nossa).  O modo como nos apropriamos dos espaços e estabelecemos relações com o entorno e a maneira como realizamos nossa produção e as nossas trocas permitem que parcelas ínfimas da população acumulem para si grande parte das variadas riquezas que, de um modo ou de outro, são produzidas por todos os engajados no processo.

Esta “gordura” ou “obesidade social”, fruto de uma atitude egocêntrica (doentia seja por que motivo for) daqueles que acumulam para si mais do que na realidade necessitam, é a grande geradora do desequilíbrio social em seus inúmeros aspectos: carências alimentares, logo, carências na saúde, falta de escolaridade, falta de capacitação, excesso populacional, descarte precoce de mão-de-obra, exclusão, delinqüência, criminalidade etc.  Um séquito

de horrores, quer do ponto de vista social, quer do ponto de vista ecológico ou ambiental.

Riqueza (energia) estagnada gera carência e pobreza.  Estas, por sua vez, são usadas para a geração de mais acúmulo.

Romper este ciclo vicioso não será fácil, pois uma superestrutura (um modo de organizar e controlar a sociedade, já de há muito um sistema) trabalha incessantemente para condicionar a todos segundo os interesses desse sistema perverso e suicida (v. o caso das infecções, artigo de Março, Ambientalismo e Desenvolvimento).  E, como bem sabemos, qualquer sistema lutará com tenacidade para perpetuar-se.

Penso que o caminho para a superação da “infância da humanidade” passa pela quebra do ciclo vicioso em dois pontos, para que ele não se restabeleça (pois, historicamente, toda vez que foi quebrado em apenas um ponto, ele recompôs-se):

- no universo interior de cada indivíduo, pela educação (conhecimento, sistema de crenças) e

- no universo exterior das relações estabelecidas com o entorno (laços e relações sociais, modo de apropriação, regime político e econômico).

Nada há de surpreendente nesta visão que já  não tenha sido formulado há milênios: Sócrates (“conhece-te a ti mesmo”) e Jesus de Nazaré (“amem-se uns aos outros”).

Talvez algum detrator a considere ingênua.  Eu diria que a ele falta coragem para ver as coisas como realmente são:  já há muito tempo que ruiu o mito do “espaço na Terra intocado pelo homem”.  Todos vivem rio abaixo e a natureza não leva nossas cercas em consideração.

Vale aqui lembrar o luminoso Joseph Campbell (1904-1987, estadunidense, antropólogo e profundo conhecedor das mitologias humanas) em seu livro Sukhavati:

"Estamos em queda livre em direção ao futuro. Não sabemos aonde estamos indo, tudo está mudando tão rapidamente; e sempre que vamos por um longo túnel, a ansiedade surge.  Mas tudo que você tem que fazer para mudar seu inferno em paraíso é transformar sua queda em um ato voluntário.  É um muito interessante câmbio de perspectiva...  Participe dos sofrimentos do mundo jovialmente, com alegria, e tudo mudará.”

O porto seguro não é um lugar: é antes um caminho.

No próximo artigo, seguindo a tendência ao aquecimento, abordaremos a relação entre sustentabilidade e cidadania.