Educação e Ambientalismo (3)

Artigo 20, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jan 2008

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Capítulo Cinco:  agora para complementar o tema Educação e Ambientalismo.

Nos artigos anteriores tratamos da urgente necessidade de uma profunda transformação na Educação.

Entendemos aqui por educação não apenas o que se passa nos bancos escolares: o processo começa assim que somos dados à luz e se estende por todo nosso tempo de vida, em casa, na escola, no trabalho, em todas nossas interações e relações (sociais, culturais, políticas, econômicas etc).

Trata-se de um sistema de crenças e de uma forma de ver e de se relacionar com o entorno.

Para a desgraça de todos nós, o que temos visto no processo educativo é a crescente dissociação dos saberes divididos em disciplinas e, pior, a colocação do processo educacional a serviço dos interesses elitistas de uma ínfima parcela das comunidades.  Temos cada vez mais a Educação a serviço de valores baseados em egocentrismo e competição, quando o que necessitamos todos é que esses princípios sejam alteridade e colaboração (v. Espaço e Ambiente, Jun/2006).

Concebo a educação não como um processo à parte do todo, mas justamente exercendo o papel central na integração dos saberes a serviço da vida.

É luminoso o pensamento de Edgar Morin (francês, 1921, formado em Economia Política, História, Geografia e Direito) a respeito:

O papel da educação é de nos ensinar a enfrentar a incerteza da vida, é de nos ensinar o que é o conhecimento; porque nos passam o(s) conhecimento(s), mas jamais dizem o que é o conhecimento. E o conhecimento (também) pode nos induzir ao erro...

Conhecimentos estes que as disciplinas não só separam como tampouco comunicam. Nós aprendemos a analisar, a separar, mas não aprendemos a relacionar, a fazer com que as coisas se comuniquem (e façam sentido); ou seja, o tecido comum que une os diferentes aspectos dos conhecimentos em cada disciplina se torna completamente invisível. Ora, existe um tecido comum, mesmo que você estude economia...

O papel da escola passa pela porta do conhecimento: é ajudar o ser que está em formação a viver, a encarar a vida. O papel da escola é nos ensinar quem somos nós, nos situar como seres humanos, nos situar na condição humana diante do mundo, diante da vida, nos situar na sociedade. É fazer conhecermos a nós mesmos...

Logo, é preciso saber estudar o problema do conhecimento. Em outras palavras, o papel da educação é de instruir o espírito a viver e a enfrentar as dificuldades do mundo”.

Sabemos que essa transformação não será fácil e por diversos motivos.

É notória a resistência aos novos conhecimentos que desafiam padrões estabelecidos e interesses contrariados.

Além disto, mesmo entre os que buscam as mudanças há uma imensa falta de clareza de conceitos e princípios.  Por exemplo, quando se fala em Educação Ambiental como agente de uma transformação nos usos e costumes.

Com uma alarmante freqüência essas propostas repousam apenas em ações comportamentais: o lixo-vidro na cesta verde, o papel na azul, fechar a torneira ao escovar os dentes etc.

Vejo a raiz deste equívoco quando ouço falar em transversalidade de temas na Educação e em pluri, inter, multidisciplinaridade, aí convertidas num mero jogo de juntar cacos.

Entendo que o erro está no ponto de partida: segmenta-se o conhecimento em disciplinas estanques, depois tenta-se juntar tudo... e o gato continua morto (v. artigo de Fev/2006).  Desta maneira, os conhecimentos e a educação ambiental (que, para mim, abarca todas as demais) não servem nem mesmo como convergência.

Penso que a via saudável é tratar as realidades, os conhecimentos, como aspectos do mesmo problema, pontos de vista a desenvolver e exercitar para observação e abordagem.

Enquanto fragmentado, o saber não oferece nem sentido, nem interesse, ao passo que, respondendo a indagações e curiosidades, ele se realiza.  Educar e educar-se é organizar conhecimentos, estabelecer correlações, recriar e criar conhecimentos, senão nosso aprendizado e diplomação serão desprovidos de significado.

Trata-se, no dizer de Morin, de “ensinar a condição humana” em nossa jornada pelo universo.  Com ele concordo, “o ensinamento da incerteza que caracteriza o mundo deve partir das ciências”.  Urge alcançar o que ele define como “cabeça bem-feita: a arte de organizar seu próprio pensamento, de religar e, ao mesmo tempo, diferenciar; ligar o saber à dúvida, integrar o saber a um contexto global e também à sua própria vida”.

Como testemunho pessoal, digo que escrevo porque tenho o que dizer; digo-o porque vi e compreendi; alcancei-o porque tive coragem e esperança.  Sem curiosidade e esforço não há conhecimento, sem conhecimento não há critério, sem critério não há escolha, sem escolha não há liberdade, não há cidadania; o motor de tudo, a coragem.

Impõe-se para a nossa salvação, em resumo, a visão ambientalista como transformadora do modelo educacional e de nossas vidas.