Eleições Recentes e Catástrofes Climáticas (2)

Artigo 57, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Fev 2011

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O incessante bombardeio midiático que vimos não apenas nestas eleições, mas ao longo dos últimos 10 anos, revela a importância do que está em jogo e o empenho ininterrupto que o PIG (e todos os interesses que representa) lhe dedica.

A história recente não dá margem a dúvidas: Dilma (ou outra pessoa, mas sobretudo o projeto de Brasil que ela representa) continuará a ser bombardeada e testada ao limite em seu mandato; Lula o foi à exaustão.  Dialeticamente, entretanto, o resultado obtido foi com frequência o oposto do desejado: como apontou a jornalista Inês Nassif (Valor, 21-10-2010) sob o título ‘Indignação Mobiliza Inteligência Brasileira’, "a agressividade da campanha do adversário tem produzido movimentos sólidos de unidade em torno da candidatura Dilma por parte de uma esquerda que estava dispersa desde 2002" (o que simbolicamente nos remete à reflexão sobre o papel do predador na natureza).

O caso não se restringe ao Brasil, é claro, pois nos EUA o fragilizado governo de Barack Obama tem passado por maus bocados.  Todas estas evidências vieram a ser confirmadas pelo surpreendente e estranho fenômeno do WikiLeaks, onde desponta o australiano Julian Assange.

Como sabem os íntimos da Internet, o termo “wiki” tornou-se sinônimo de “livre”, “de domínio público”, a exemplo do projeto de enciclopédia on-line Wikipedia, uma construção permanente e coletiva à disposição de todos.  O verbo “leak” em Inglês é “vazar, urinar”; WikiLeaks é então “vazamento, dispersão de documentos secretos”, embora não seja um “wiki” autêntico, já que os leitores não têm participação no conteúdo.

Pois bem, entre inúmeras outras ocorrências que demonstram como operam certas forças neste mundo, documentos revelados pelo WikiLeaks dão conta de conversa entre o candidato das oposições e o embaixador dos EUA onde Serra promete, se eleito, subordinar o nosso Pré-sal aos interesses americanos.  A rigor, um crime de lesa-pátria, como tantos outros já perpetrados.

Ao mesmo tempo, nos EUA o chamado Tea Party (onde pontifica a derrotada Sarah Palin) faz barulho e estragos, como os abertos incentivos à perseguição política e mesmo à violência física, que já produziram, como resultado temporário, um atentado com vários mortos e uma deputada democrata baleada na cabeça.

Curiosamente, em Inglês, “tea” é “chá”, mas também pode ser “arbusto”, que lá é “bush”; já “party” pode ser “partido, facção”, mas também “festa”.  Como sabem, George W. Bush, a exemplo do pai, foi presidente, apontado como o mais inculto, despreparado e inútil presidente da história dos EUA – eleito por um golpe que impingiu a maior fraude de que os americanos se envergonharão por muitas décadas (a não ser, é claro, que finalmente venha à tona a verdade sobre o escabroso atentado à Torres Gêmeas).  O Tea Party ou “Partido do Bush” e suas ramificações, a nata dos reacionários da ultra-direita mundial, querem prosseguir destruindo os EUA e o ‘resto do mundo’ (para eles, aquela ‘terra incognita’ que fica além do Texas).

Nada disto o PIG revela por inteiro, nada comenta; apenas banaliza os fatos e vende sua publicidade enquanto garimpa diligentemente as oportunidades de torpedear qualquer iniciativa que busque emancipar o Brasil e seus cidadãos.  Assim, a “neutralidade da imprensa” é um mito ou mesmo uma falácia (neutralidade, como já afirmei, não existe sequer na Ciência, tema a que dedicarei um artigo futuro).

Podemos observá-la quando a grande mídia dedica-se a nos “informar” sobre as mudanças climáticas, catástrofes, enchentes, soterramentos.

O termo “catástrofes climáticas” é por ela utilizado para escamotear responsabilidades e simular conhecimento, numa suposta prestação de serviços à sociedade; ela até mesmo estabelece um ranking para as tragédias, atribuindo-as às “forças inevitáveis da natureza” quando lhe interessa acobertar as suas faltas e atribuir irresponsabilidades aos adversários.

A realidade aponta para direção diferente e o mecanismo é bem conhecido: é necessário um encontro de equívocos para se produzir um desastre; para se produzir uma catástrofe, então, é necessário certo empenho.

No caso das chuvas intensas dos últimos meses que, ao se concentrarem na serra fluminense, produziram cerca de mil mortos por afogamento, deslizamento ou soterramento, este empenho desdobra-se num prolongado processo a combinar pobreza, desconhecimento, mudança climática, acaso, negligência, prevaricação.  Não é pouco.

O que leva as pessoas a ocuparem os espaços que ocupam?  Será que escolhem morar onde é sabido que haverá enchentes ou ocorrerão deslizamentos e soterramentos?  É sabido por quem?  Morar ali é uma escolha que elas fazem, sim, mas quais são as alternativas?

Nosso planeta não é uma ‘esfera plana’ (se cabe a expressão), igual por todas as partes; felizmente, pelo fato de ser um planeta geologicamente ativo e não um planeta morto, há topografias de todos os tipos, rios, lagos, mares, planícies, planaltos, montanhas e abismos.  Dado nosso modo primitivo e perverso de nos organizarmos, a riqueza produzida é muito mal distribuída, é concentrada; logo, há um oceano de despossuídos ao lado de uns poucos ricos ou muito ricos.  A ocupação dos territórios e espaços reflete exatamente essa disparidade: áreas consideradas “nobres”, valorizadas, são ocupadas pelos poucos abastados; áreas desvalorizadas ou de risco são ocupadas pelos muitos empobrecidos.

Na tentativa de se prevenir a tragédia, não faltou aviso, traduzido por um correto mapeamento geológico e geotécnico e um levantamento das potenciais áreas de risco, cujos laudos, elaborados por geólogos (como eu), tanto quanto me foi informado, estavam há tempos nas mãos de autoridades competentes.

No entanto, mesmo por parte da população potencialmente em risco (e afinal efetivamente atingida), sua atitude é tão surpreendente que traz-me à lembrança o que costumo denominar de ‘síndrome do Gueto de Varsóvia’.