Espaço e Ambiente (1)

Artigo 8, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jul 2006

© 2005-2017 Fabio Ortiz Jr

 

Capítulo Dois: falemos de Espaço e Ambiente.

O astrônomo Edwin Hubble, que viveu de 1889 a 1953, criou uma das melhores frases que conheço.

Entre outras coisas, descobriu que o Universo está em expansão, o que serviu de base para a Teoria do Big-Bang (numa justíssima homenagem, o melhor telescópio espacial em órbita tem o seu nome).  Disse ele:

Munido de seus cinco sentidos, o Homem explora o Universo ao seu redor e chama a esta aventura Ciência”.

Freqüentemente, são as perguntas inteligentes e corajosas que abrem os caminhos para as respostas corajosas e inteligentes.

Tive a felicidade de nascer em uma geração, logo após a II Guerra Mundial, que se permitia indagar-se sobre temas hoje pouco cogitados: “quem somos, de onde viemos, para onde estamos indo?”  Saíamos de um pesadelo, o mundo humano estava sendo reconstruído, perguntas como estas faziam todo o sentido.

Hoje, infelizmente, nutre-se ainda a idéia de que Ciência é para os cientistas, coisa para “doutores”, a isto associando a idéia de laboratórios, aventais brancos, gente esquisita.  Bastaria alguma reflexão sobre a famosa foto de Einstein de malha larga, cabelos compridos e língua de fora para que esta falsa idéia desaparecesse.

Einstein usava lápis e papel, seus conhecimentos e sua imaginação.  E seus cinco sentidos, além de seu bom-humor e irreverência.

Façamos um exercício.

Pare.  Dê-se um tempo.  Respire, relaxe.  Relaxe mais ainda e observe ao redor.

O que você vê?  O que você percebe?

Antes de mais nada, espaço, não importa onde você esteja.  Espaço ao seu redor, espaço próximo, um pouco mais longe e um espaço distante, intangível.

Agora feche os olhos.

O que você percebe?

Antes de mais nada, dá-se conta de você mesmo, a sua existência.  Depois, talvez de alguns sons, algum aroma, inicialmente tudo condensado numa percepção chapada daquilo que não é você.

Com isto, você está refazendo uma trajetória que todos fazemos a partir do nascer:  um recém-nascido começa por ter a percepção do Eu.  Só que então, para ele, simplesmente tudo que existe é o Eu, nada há além, é o estado mental que podemos chamar de Eu-indiviso.

Somos aí completamente dependentes, alimento, abrigo e asseio, tudo surge, apenas de uma forma um tanto diferente dos cerca de 9 meses anteriores.

Lentamente as experiências vividas nos levam então a perceber a existência de algo mais, algo que não é Eu.  É quando passamos a admitir (somos levados a isto) a existência do Não-Eu.

O mundo passa a existir, agora partido em dois: Eu e Não-Eu.  Pode ser o primeiro choque, o complemento ao parto.

Passamos desde então, os recém-nascidos de qualquer idade, a descobrir nossos sensores, nossos sentidos, e a exercitá-los.  Nós, os afortunados, temos cinco deles conhecidos.

As experiências em nosso desenvolvimento a seguir vão nos conduzindo às portas de uma nova e surpreendente percepção: aquele Não–Eu tem muitos aspectos, é na verdade composto de vários não-eus.

Penso que este é um momento-chave, seja para nós individualmente, seja coletivamente ou mesmo como espécie.

Há um passo à frente decisivo para a maneira como conduziremos nossas vidas: é quando podemos desenvolver em nós a percepção do Outro.  Não simplesmente algo difuso e desprovido de alma, de anima, como um nebuloso Não-Eu, mas sim o Outro.

Ele tem existência, necessidades, desejos, alma em tudo semelhante a nós mesmos, ao Eu.  Não iguais, mas semelhantes.

Diante deste portal muitos tremem, alguns se amedrontam.  Penso que na verdade são poucos os que ousam dar o passo adiante e atravessá-lo.

Tenho observado cotidianamente há décadas multidões que vacilam nesta escolha, falta-lhes coragem, não importa a posição social ou o grau de estudo.  Estão presas, temem o Outro, apegadas em demasia ao Eu (“ego“, em Latim).

Este passo é a noção de Alteridade (“alter“, em Latim, é “outro”, "outrem", "diferente").

Os que buscam sua coragem e dão o passo adiante, libertando-se, encontrarão a felicidade de melhor compreender os outros seres (e a si mesmos) e terem talvez bons relacionamentos.  Nessa direção, encontrarão os Outros.

Podemos ver no dia-a-dia o resultado desta falta de coragem, deste Ego-ismo: invasão do espaço alheio, acumulação doentia, consumismo, miséria, apropriação do público pelo privado, degradação ambiental acelerada, insustentabilidade.

Para o indivíduo, para a sociedade, para a espécie e para o conjunto da Vida na Terra, esta proposta está equivocada e tem lentamente (já agora com rapidez) gestado a crise que nos colherá a todos.

Temos nossos sentidos, nossa inteligência, nossos conhecimentos, temos enfim os instrumentos para refletir e agir e temos, sobretudo, a imperiosa necessidade e urgência de encontrar uma nova proposta, um novo e saudável arranjo, uma nova forma de viver neste espaço que ocupamos.

Como sugere Hubble, fazer Ciência é antes buscar ver a realidade e compreendê-la, para o bem geral.  Com paciência, dedicação, talento e mente aberta, está ao alcance de quase todos nós.  A escolha é nossa.

Na próxima edição avançaremos neste capítulo.