A Nova Roupa do Rei: o Rei Está Nu

Artigo 59, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Abr 2011

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A sabedoria popular, ao menos a de minha época de infância e juventude, afirma que as pessoas são fruto de seu meio.

Ao longo de minha formação científica vi este conceito ingênuo ser validado numa escala inesperada, pois não se referia apenas a aspectos sociais dos seres humanos: os conhecimentos a sustentar esta afirmação poderiam ser estendidos em direção a vários aspectos da vida como um todo, não só à psique humana e suas relações sociais, mas também em relação à sua evolução biológica enquanto espécie e ainda a todas as demais relações entre as espécies e o meio em que se desenvolvem, no espaço e no tempo.

Por mais difícil que tenha sido a trajetória de minha vida individual, sempre reitero que tive a fortuna de nascer na época em que nasci, viver na família e no meio em que vivi, usufruir das oportunidades que me foram ofertadas e ter me defrontado com os obstáculos que encarei.

O discernimento e esforço de minha avó paterna deu-me a oportunidade de cursar desde os 3 anos uma escola pública, uma das melhores à época, antes que o ensino público fosse perversamente destruído nas décadas seguintes; ela também religiosamente me presenteava e a meu irmão, a partir de meus 5 anos, aniversário e Natal, com livros de Monteiro Lobato e literatura universal resumida, que fui aprendendo a amar entre as minhas estrepolias.  No lado materno, o carinho amoroso oferecido pelos avós, tios e tias supriu em grande medida as energias para a superação das vicissitudes.

Os livros de Lobato levaram minha imaginação e domínio sobre a língua a uma viagem ao céu e ao redor do mundo e dos tempos.  Nunca percebi que dedicava uma leitura ainda mais atenta a seu livro de fábulas, assim como em outros eu atentava para as fábulas do grego Esopo (circa 600 a.C.).

Uma dentre minhas favoritas, de Hans Christian Andersen (1805-1875, dinamarquês), contava a respeito de um rei, seus seguidores, seu povo e um certo menino.  Não tenho a certeza de lembrá-la por completo e nem caberia aqui; mas, como diz mestre Ariano Suassuna (1927, brasileiro), “como foi não sei, só sei que foi assim”:

“... Era uma vez um rei e seu reino, com seus cortesãos, nobres, religiosos, militares e povo; não era bom, nem mau, não se preocupava muito com educação, cultura e bem-estar geral, a não ser como oportunidades para exibir suas roupas novas, sempre exuberantes, em que gastava quase todos os recursos e tempo, pois era muito vaidoso e presunçoso.  Em seu séquito todos sempre concordavam com ele em tudo, pois haviam se tornado aduladores acovardados, e até mesmo o povo, tornado míope, fazia de conta que tudo estava sempre bem.  Visitantes do reino iam e vinham e a vida parecia divertida para todos.

Um dia dois visitantes ali se apresentaram como tecelões garbosos e fizeram chegar ao rei a notícia de que eram capazes de criar os mais lindos tecidos, reconhecidos em todo o mundo por seus padrões e cores tão incomuns que sua beleza só seria visível às pessoas de alta inteligência; aquelas destituídas de inteligência ou que não eram aptas aos cargos que ocupavam não seriam capazes de vê-los e desfrutar deste êxtase.

O rei quis de imediato conhecer esta maravilha para seu uso, pensando assim também descobrir os incapazes de sua corte.  Pagou então aos ditos tecelões uma régia quantia e ordenou-lhes que logo produzissem certa quantidade destas esplêndidas fazendas.  Assim, os dois visitantes trouxeram seus teares, exigiram a mais fina seda e fios de ouro, escolheram uma oficina na vila e ali puseram-se a tecer com suas lançadeiras onde nada havia.

Semanas depois, o rei andava muito curioso por saber do andamento dos trabalhos.  Pensou em fazer uma real visita, mas a idéia de que apenas os capazes poderiam ver os maravilhosos tecidos o inquietava; não que duvidasse de si, pensou que seria melhor enviar alguém antes.  Na cidade, todos ansiavam pelos tecidos para enfim saber quão estúpidos eram seus vizinhos.  O rei decidiu-se por enviar seu velho ministro, a seus olhos um homem muito inteligente e experiente.  Relutante, lá se foi o ministro, atormentado pela dúvida de ser ou não capaz de ver, e na oficina o terror afinal assaltou-o, pois nada via nos teares, por mais que os tecelões descrevessem as belezas apontadas.  Apenas concordava, atônito com sua incapacidade, chegando mesmo a elogiá-los e às combinações das fazendas produzidas.  Tratou de decorar o que lhe diziam para reproduzi-lo ao rei.  Agradecidos pelos elogios, pediram os tecelões mais ouro e seda para melhor produzirem.

O rei, satisfeito com o que o ministro lhe relatou, enviou à oficina, duas semanas após, um fiel oficial para verificar a conclusão dos trabalhos.  A história repetiu-se, por mais que o oficial se esforçasse por ver alguma coisa; preocupado em manter-se no cargo, teceu largos elogios aos lindos tecidos que pensava ali estarem.  Assim foi que, em pouco tempo, não se falava na cidade noutra coisa senão nas maravilhosas fazendas que em breve todos veriam.  Resolveu-se o rei afinal por visitar, acompanhado por ministro, oficial e cortesãos, os magníficos tecelões.  Encontrou-os ocupadíssimos diante dos teares vazios; para seu horror, nada via.  Socorrido de imediato pelos elogios com que seus dois enviados passaram a enaltecer os desenhos, os padrões e cores dos trabalhos, salvou-se de sua aflição declarando que jamais vira tal maravilha enfim digna de sua aprovação e pessoa, no que foi seguido pelas exclamações de deslumbre de todos os presentes, que concordaram que o rei já deveria providenciar nova roupa, confeccionada naqueles prodigiosos tecidos, para o grande desfile seguinte. E assim, na véspera da festa do reino, iluminaram os tecelões a oficina madrugada adentro, a agir como se cortassem os panos retirados dos teares, cosessem e ajustassem tudo numa magnífica nova roupa real até a darem como pronta.

Na manhã seguinte, sempre acompanhado, veio o rei vestir-se com os tecelões para o desfile, todos a elogiarem a vestimenta e caimento, calça, casaco, manto, tudo levíssimo e lindíssimo.  Declarou-se enfim pronto o rei e, tomando sua carruagem, dela desceu ao chegar à praça, tomando-lhe a frente para logo iniciar o desfile.  E assim caminharam o rei, sua nova roupa e seu séquito enquanto o povo, nas calçadas e janelas, cada qual espantado com as maravilhas que deveria ver, mas aflito em não passar por estúpido, aclamava o sucesso e a perfeição da linda e nova roupagem real.

Havia, entretanto, imersa na multidão, uma criança que estivera todo esse tempo, como é dado às crianças, a brincar com outras que exercitavam inocentemente suas observações, suas experiências, sua imaginação.  Ao ver o pavoneante rei passar, estranhou o que via e exclamou: ‘Ó, coitado, o rei está nu!

A pessoas ao redor entreolharam-se e logo começou um burburinho crescente sobre a nudez real.  O rei enfureceu-se ao perceber o vozerio e o seu ridículo; mas, como rei é rei, e os vaidosos ou presunçosos não voltam atrás, o desfile devia, imperturbável, prosseguir com suas vaidades, adulações, futilidades e inconsequências, enquanto os espertos e pretensos tecelões sumiam...”

Ao aqui refletir sobre a nossa crise civilizatória e assim abordar temas como conhecimento, tempo, método científico, economia, ecologia, educação, cidadania, política, ambientalismo etc, evidencia-se (e detalharemos nos próximos artigos) como, diante dos desafios destes vertiginosos tempos, estamos todos nus.