O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (4)

Artigo 68, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jan 2012

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Em brevíssimo resumo, à altura do século 15 a humanidade atual, nos cerca de 150 mil anos de jornada do H. sapiens, já havia explorado à exaustão duas maneiras de suprir sua existência.

A primeira delas, a caça-coleta, caracterizada pelo deslocamento constante de forma a colher, como único recurso, os frutos que espontaneamente a terra oferecia, tomou a quase totalidade deste tempo. Registros fósseis indicam que isto começou a mudar há 12 mil anos, quando alguém percebeu que enterrar sementes e cuidar de seu desenvolvimento era mais proveitoso no decorrer do tempo. O nomadismo (em Grego, “nomádos” é “o que muda de pasto, vai de um lugar para outro”) passou a ceder lugar ao cultivo dos grãos e ao pastoreio de animais então domesticados, um processo que foi chamado por Vere Gordon Childe (1892-1957, arqueólogo australiano) de revolução neolítica, a última etapa da Idade da Pedra.

Os cerca de seis mil anos seguintes viram famílias, clãs e tribos nômades passarem a criar a agricultura, fixando-se territorialmente, e a erigir construções, transformadas em povoados, aldeias e vilas; ao final, surgiram as primeiras cidades. Este processo criou novas necessidades e outras soluções, as relações sociais alteraram-se: uma primitiva divisão do trabalho entre homens e mulheres foi transformada pela criação de novas funções e especializações, estabelecendo agora uma ‘divisão social’ do trabalho. Uma população relativamente estável, condição imposta pelo nomadismo, apontava agora para um crescimento explosivo: mais alimento disponível, mais população; então, mais administração, embrião de um futuro Estado. O alimento excedente possibilitava as trocas, o comércio. O que antes era de domínio comum transformava-se agora em propriedade privada; a cooperação baseada em necessidade e liderança natural passou a dar lugar à servidão, em seu ventre, a escravatura. Ao final destes seis mil anos, coroava-se um processo que Gordon Childe denominou revolução urbana.

A segunda maneira, lentamente gestada por estas mudanças, veio a tomar forma apenas ao final dos quatro mil anos seguintes, período em geral nomeado por historiadores como Antiguidade.

Reinos e impérios haviam surgido e se esboroado, gregos e romanos haviam até experimentado formas de governo como a república (o que não os impedia de terem escravos), chegava-se ao início da era cristã. Necessidades administrativas haviam inventado a escrita cerca de 4.000 a.C., mil anos depois disto já se fazia uso dos metais, com mais mil anos os chineses haviam inventado a bússola e depois o papel. O domínio romano no território europeu, estendendo-se ao norte da África e ao Oriente Próximo e partido em dois impérios que se complementavam, começava a declinar em razão de sua então má administração e das pressões exercidas pelas migrações e depois invasões de povos germânicos ao norte e, afinal, pelos hunos vindos da Ásia. A sua fragmentação em pequenos reinos, já nos séculos 3 e 4 da era cristã, promoveu a necessidade destes se defenderem uns dos outros e de outros mais; iniciou-se a implementação de um novo arranjo social, ou seja, político e econômico, com mudanças no sistema de propriedade e no modo de produção.

Havia os reis, que cediam terras (feudos) aos chamados nobres; estes, que exerciam grande poder político, eram guerreiros que em troca lhes deveriam jurar amparo militar incondicional, estabelecendo assim relações de suserania (domínio sobre terras) e vassalagem (servidão e tributos).

Estes senhores feudais (a nobreza) por sua vez estabeleciam relações com a maior parte da população camponesa, os servos da gleba que, presos à terra, juravam-lhes fidelidade e trabalho, eram obrigados a prestar serviços e a pagar diversos tributos pela permissão de uso da terra e proteção militar.

Em sociedades onde a distinção entre os aspectos físicos e espirituais da vida não eram claros, os reis com frequência acumulavam estes dois poderes. Havia ainda, é claro, o clero, que embora tivesse como função oficial cuidar do mundo espiritual, na prática também exercia grande poder político sobre uma sociedade religiosa por meio da persuasão e justificativas religiosas, criando certa ordem sobre revoltas e contratações camponesas.

Esta cadeia de vassalagem a um senhor ou suserano supremo, com fidelidade e trabalho em troca de proteção e um lugar no sistema de produção, veio constituir um sistema histórico de relações servis (servo-contratuais), o feudalismo.

Na sociedade feudal praticamente não havia mudança de classe social, o que determinava o status social era o nascimento; a Igreja era uma rara possibilidade de promoção, pois um servo às vezes conseguia fazer parte do baixo clero, não mais. Os camponeses eram destinados a cuidar da agropecuária dos feudos para em troca receber o direito a uma gleba de terra para morar, além da proteção contra os ataques bárbaros; todo o excedente produzido era tomado pelo senhor. O poder descentralizado, uma economia baseada na agricultura de subsistência, sem moeda ou comércio, apenas troca (escambo), e trabalho servil eram as características do feudalismo.

Iniciado no século 4 como resposta às migrações e invasões que aceleravam a decomposição do Império Romano do Ocidente (cuja economia se assentava na mão de obra escrava), o feudalismo viu o fim deste império no século 5, no ano de 476 d.C., marcado como o fim da Antiguidade e início da Idade Média.

O seu desenvolvimento em terras europeias, com as disputas entre os reinos, trouxe, mais de 300 anos depois, em 711 e já no século 8, uma grande oportunidade a um outro povo que ocupava o norte da África e o Oriente Próximo. Buscando aliança para uma de suas disputas, um dos senhores germânicos europeus convidou e facilitou uma incursão muçulmana no território.

Como resultado, a primeira invasão muçulmana na península (711-756), por eles conhecida como Al-Andalus (“a terra dos bárbaros”), estabeleceu um emirado dependente do Califado de Damasco.

Nos séculos seguintes estas conquistas foram se ampliando na península, assim governada pelos muçulmanos por quase oitocentos anos até o século 15. Mais tolerantes, admitiam uma população heterogênea, formada por árabes e berberes, hispano-godos (que puderam conservar sua religião, adotando as formas de vida exterior dos muçulmanos), cristãos arabizados e judeus.

Trouxeram sua cultura, capacidade de comércio e deslocamento, sua ciência, conhecimentos e invenções do Extremo Oriente, como a bússola, o papel, a pólvora e até a imprensa dos chineses. Mesclaram-se, modificaram e foram modificados, como veremos a seguir.