O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (6)

Artigo 70, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mar 2012

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Roger Bacon (1214-1294, frade franciscano) foi um filósofo inglês que priorizou o empirismo (observação e experimentação) e o uso da matemática no estudo e compreensão da natureza.

Contemporâneo de Tomás de Aquino (1225-1274), Bacon realizou seus estudos nas universidades de Oxford e de Paris, tendo feito contribuições em áreas de importância então crescente, como a Geografia e a Física (nesta, principalmente em Mecânica e Óptica – aqui sua contribuição para a invenção dos óculos e a posterior criação de instrumentos como o telescópio e o microscópio).  Em Filosofia, foi um dos primeiros à época a ensinar a filosofia de Aristóteles.

Como vimos, o conhecimento trazido pelo mundo árabe então revolucionava a vida intelectual do ocidente europeu, tendo grande influência sobre o pensamento e os trabalhos de Bacon.  Ele chegou a descrever o método científico como a sucessão perene de observação, hipótese, experimentação e necessidade de verificação independente, para que outros investigadores pudessem reproduzir seus experimentos e testar os resultados.

É natural, assim, que Bacon tenha sustentado que a autoridade religiosa não deveria ser seguida cegamente, sem visão crítica; em 1272 escreveu um trabalho em que criticava a metodologia do clero de sua época e defendia o Livro Sagrado como a principal fonte de conhecimento, e não as vertentes da ocasião, que eram então valorizadas.

Em meio a uma época de constantes alterações no pensamento filosófico e na filosofia da natureza, ele foi importante na propagação do conceito de leis da natureza.

Na visão de Colin A. Ronan (1920-1995, inglês), historiador e filósofo da ciência, Bacon e "seus escritos, na verdade, mostram as virtudes e não os vícios da escolástica – a mistura do dogma religioso com a filosofia, que era a marca registrada do pensamento da intelectualidade ocidental entre os séculos IX e XV".

Entretanto, veremos em outros artigos como essa primitiva e maliciosa mistura resiste até nossos dias, não só buscando imbricar dogma e filosofia da natureza, mas hoje procurando se valer até mesmo do conhecimento duramente conquistado pela ciência (é o caso dos atuais criacionistas ou cientologistas, defensores de um dogmático e obscuro ‘desenho inteligente’).

Este embate entre o pensamento criador de ciência e o pensamento mantenedor de uma conveniente ignorância contou com o talento e a coragem de outro expoente na pessoa de Nicole d'Oresme (1323-1382), nascido no que hoje é o norte da França.

Cerca de um século depois de Roger Bacon e um século e meio antes de Nicolau Copérnico, o matemático, físico, astrônomo, filósofo, psicólogo, economista e musicólogo Nicole d'Oresme foi talvez o pensador mais original do século 14.  Considerado hoje um dos principais fundadores e divulgadores das ciências modernas, foi teólogo dedicado e bispo de Lisieux, servindo ainda como tradutor e conselheiro do rei Carlos V da França.

Oresme identificou a curvatura da luz através da atmosfera (refração), estudou os movimentos uniforme e uniformemente variado, deduziu o teorema da velocidade média e a lei da queda dos corpos. 

Curiosamente, estas descobertas são até hoje mais frequentemente atribuídas a Robert Hooke (luz) e Galileu Galilei (gravidade).

Confrontando um forte pensamento estabelecido, ele demonstrou que as propostas da física de Aristóteles acerca do movimento da Terra não eram válidas; para ele, a Terra é que se movia e não os outros ‘corpos celestiais’.

Oresme aí invocou o relativamente recente argumento da simplicidade, conhecido como a ‘navalha de Ockham’, argumento lógico criado por William de Ockham (1285-1347, inglês), frade franciscano, filósofo, lógico e teólogo.  Segundo Ockham, "se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenômeno, a mais simples é a melhor", conceito que se tornaria um dos pilares do método científico moderno.

A argumentação de Oresme a favor do movimento terrestre, além de original, é considerada mais clara e rigorosa do que a que seria dada por Copérnico cerca de 150 anos depois (o que talvez possa ser compreendido pelo recrudescimento do ambiente repressivo nesta época, como veremos).

Ele foi o último pensador europeu importante formado antes do surgimento da peste negra (a peste bubônica), que desde meados do século 14 devastou o continente e retardou a inovação intelectual no final da Idade Média; cerca de 75 milhões de pessoas morreram (um terço da população), entre elas William de Ockham.

O longo e insepulto embate aqui resumidamente mencionado desdobra-se, porém, até nossos dias.

No desenvolver do pensamento filosófico medieval, a questão central repousava na busca por harmonizar duas maneiras de pensar e agir: a fé e a razão.  No mundo cristão e católico, Santo Agostinho de Hipona, mesmo reconhecendo importância no conhecimento, defendia uma subordinação da razão em relação à fé, acreditando que a fé viria restaurar a ‘condição decaída’ da razão humana.  Já São Tomás de Aquino, quase nove séculos depois, ainda que não negasse essa subordinação, defendia maior autonomia da razão na busca por conhecimento.

Já nos tempos modernos, a partir da substituição gradual do feudalismo por outro poder emergente, como já mencionamos, esta contenda, embora presente e persistente, passou a ser ofuscada por uma outra.

Os oitocentos anos de interações com a civilização islâmica produziram profundas e importantes transformações na Península Ibérica não apenas quanto ao conhecimento e a cultura, mas sobretudo no âmbito das relações econômicas.  Uma economia essencialmente rural e de pouco mais do que subsistência foi se transformando em uma economia crescentemente urbana.

Na cultura muçulmana de então (e ainda hoje), um dos locais mais importantes da cidade é o mercado (em Árabe, “suq”, que em Português é grafado como “zoco”, costuma designar “mercado” ou “feira” e refere-se ainda a “zona comercial”).

O ressurgimento dos mercados na península durante o período islâmico foi possível não só pela cultura muçulmana, mas também pela relativa estabilidade proporcionada por seu domínio.  As consequências, como veremos, seriam profundas.