O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (7)

Artigo 71, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Abr 2012

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A gradual transformação da cultura e da economia na Península Ibérica medieval teve sua mais visível expressão, produzida durante o domínio muçulmano, na retomada do processo de urbanização da população e na afirmação da “praça do mercado” como ponto de referência.  Como já dito, uma economia essencialmente rural e de subsistência foi se transformando em uma economia crescentemente urbana.

Ali na feira, ou mercado, dava-se o comércio dos produtos, principalmente os de metal e de outros artesanatos, além de sedas, algodão e tecidos de lã.  As oficinas que os produziam no Al-Andalus eram de propriedade do Estado e alguns artigos de luxo eram exportados para o resto da Europa cristã, para o Magrebe (região que abrange todo o noroeste da África) e até para o Oriente.

A nova agricultura trouxe ao conhecer europeu o cultivo de trigo, cevada, ervilhas, favas e grãos que, quando insuficientes, eram complementados com a importação de cereais do norte da África, o que introduziu o cultivo de arroz, berinjela, alcachofra e cana de açúcar; prosperaram os pomares de peras, maçãs, figos e uvas, além da produção de mel e a criação de gado bovino e caprino, de coelhos e de galinhas.  Novos métodos favoreceram a pesca (principalmente de atum e sardinha) e a extração de sal.  Os sistemas hidráulicos foram melhorados pela combinação das técnicas dos muçulmanos com as dos romanos e dos bárbaros germânicos; as madeiras, então abundantes, foram empregadas em peças de mobiliário e na construção naval.

Esta prosperidade teve suas consequências: pouco depois da invasão muçulmana, acerca do ano 800, a população desta parte europeia somava algo como 18 milhões; nos trezentos anos seguintes aumentou em mais 8 milhões e por volta do ano de 1200 já era de cerca de 34 milhões de pessoas.

Isto, para os senhores feudais, constituía um indesejável excedente populacional que, a seu ver, poderia crescer em poder de contestação. Tornou-se então prática corrente pela nobreza o uso de pretextos para a expulsão de servos de suas terras, sob a alegação de terem quebrado alguma regra qualquer.  Assim, muitos servos passaram a mendigar ou a saquear nas estradas.

Fruto do mesmo raciocínio, grande parte dos filhos da nobreza viu-se na contingência de abandonar as terras paternas, pois, para não dividirem suas posses e para garantir a supremacia dos feudos, os senhores feudais começaram a tornar seu filho primogênito o seu único herdeiro.  Os demais filhos, na prática excluídos das terras, precisavam encontrar outros meios de sobrevivência.

O movimento de concentração, de várias maneiras desencadeado, passou a alimentar um processo de desagregação (numa clara ironia dialética).

Uma fatalidade assim cultivada veio a abater-se sobre o continente: em meados do século 14, entre 1346 e 1352, ratos contaminados pela bactéria Pasteurella pestis chegaram em navios vindos do Oriente.  As pulgas que parasitavam estes ratos agiram como transmissores da doença aos humanos; não havia imunidade humana para a peste bubônica, conhecida

como Peste Negra.  A Europa de então oferecia um ambiente favorável à disseminação da doença, pois o esgoto corria a céu aberto e o lixo acumulava-se nas ruas, o que propiciava a proliferação dos ratos.

Calcula-se que cerca de um terço da população europeia morreu nesta época.  Não se conhecia a origem da doença e nem uma cura possível; com frequência a doença era atribuída a fatores como comportamento, ambiente ou religião.  Apenas ao final do século 14 a epidemia foi controlada graças à adoção de medidas sanitárias nas cidades.

Com a morte de grande parte dos servos, muitos senhores feudais ampliaram as obrigações dos sobreviventes, submetendo-os a trabalho e impostos pelos que haviam morrido, fazendo surgir assim as revoltas camponesas. Os senhores feudais restantes criaram exércitos fortes e reprimiram violentamente estas revoltas; neste embate, porém, camponeses obtiveram algumas conquistas significativas em várias regiões, assim alcançando reduzir muitas obrigações servis.

Houve entre os camponeses até mesmo homens livres, com propriedades menores independentes; eles chegaram a constituir pequenas vilas, sendo assim denominados vilões.  A monarquia feudal vigente, comparada à que viria a sucedê-la, não apresentava a rigidez que a caracterizaria depois.

Mas havia, em lenta gestação, um particular aspecto destas mudanças em curso...

No processo de retomada da urbanização da população, de desenvolvimento crescente do comércio, das ciências e das técnicas propiciadas pela civilização islâmica, várias cidades europeias da Idade Média foram se tornando livres das relações servis e do domínio dos nobres.

A Peste Negra, ao não fazer distinção entre pobres e ricos, reduziu em muito a disponibilidade de mão de obra de qualquer natureza; o pagamento por trabalho começou então a ser valorizado.  A apropriação extensiva do solo para a agricultura havia atingido um limite técnico de produtividade, enquanto que as florestas, antes abundantes, eram dilapidadas pela exploração predatória e as jazidas de metais, destinadas a armamento e cunhagem de moedas, começavam a mostrar-se exauridas.

As constantes disputas e guerras entre os reinos demandavam recursos cada vez mais escassos; as cidades mais prósperas buscaram fortificar-se ao se cercarem de muros e controles de acesso.  Elas tornaram-se conhecidas como burgos (em Latim, “burgus” significa “pequena fortaleza, povoado”, termo que vem do germânico “burgs”, que é “cidadela, cidade pequena, forte”).

Os habitantes dos burgos, então conhecidos como burgueses, com frequência recebiam apoio dos reis quando estes, muitas vezes e agora mais assiduamente, entravam em conflito com os nobres, os senhores feudais.  Esta é a origem de um antigo ditado na cultura alemã, que diz que "o ar da cidade liberta".

Como veremos, a roda da fortuna girava mais uma vez e um novo poder começava a surgir.