O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (8)

Artigo 72, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mai 2012

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Os historiadores ocidentais tradicionais muito raramente levam em conta um aspecto essencial do desenvolvimento das civilizações humanas: o papel desempenhado pelas condições ambientais.

Como veremos em futuros artigos, a Terra passou por vários ciclos de aquecimento e resfriamento; e continuará a passar, queiramos ou não.

Já mencionamos aqui, em outros artigos (ver Desenvolvimento e Sustentabilidade, Jun 2008 e Democracia e Utopia, Dez 2008), que a espécie humana (H. sapiens) existe como tal há cerca de 150 mil anos e que desenvolveu suas civilizações atuais nestes últimos 10 mil anos após a quarta e última glaciação conhecida e vivenciada. Assim, já atravessamos períodos dificílimos antes e, por uma espécie de trégua geológica, este tem sido um período relativamente ameno.

Na Idade Média, nosso cenário em questão, houve um período de anomalia climática, hoje provisória e precariamente conhecido como Período de Aquecimento Medieval. O nome foi dado há mais de cinco décadas pelo pesquisador Hubert Lamb (1913-1997, inglês), meteorologista e historiador climático; mas alguns pesquisadores preferem nomear o período como Anomalia Climática Medieval.

O importante é que vários tipos de registros históricos e paleoclimáticos indicam que as temperaturas médias na região norte do Oceano Atlântico haviam subido, propiciando um clima favorável entre os anos de 800 a 1300, com o pico a partir de 1100. No continente europeu ele foi sucedido por outro período, de resfriamento, entre 1300 e 1860, chamado de Pequena Idade do Gelo.

Se estes séculos mais quentes para a Europa trouxeram possibilidades de boas colheitas, crescimento populacional e florescimento da cultura (etapa hoje nomeada Alta Idade Média), a alteração dos padrões climáticos e das chuvas levaram, entretanto, a outras partes da Terra tanto oportunidades como catástrofes históricas.

O arqueólogo, antropólogo e escritor Brian Fagan (1938, inglês), em sua obra “O Aquecimento Global: a influência do clima no apogeu e declínio das civilizações” nos traz um resumo precioso destes eventos.

Fagan nos relata o aumento do intercâmbio entre sociedades muito distantes:

- habitantes da península escandinava, ao norte europeu, por volta do ano 1000 puderam viajar até a Islândia, depois Groelândia e até mesmo visitaram os caçadores inuítes na Ilha de Baffin (hoje Canadá);

- a atividade do El Niño (aumento da temperatura das águas superficiais no Oceano Pacífico) reduziu a força dos ventos predominantes de nordeste e viajantes polinésios assim colonizaram as ilhas mais remotas ao norte e a leste em 1200;

- saindo do Mar Vermelho, da Arábia e da África Oriental, viagens sem escala pelo Oceano Índico puderam ser feitas para a Índia e mais além, entre os séculos 10 e 13, impulsionadas pelas monções em direção ao sudoeste;

- nesta mesma época, o ouro da Europa cruzou o deserto do Saara em caravanas de camelos da África Ocidental.

Tanto o continente europeu como o norte da África puderam desfrutar deste favorecimento climático por vários séculos. As contrapartidas em outras regiões da Terra, porém, foram dramáticas.

Ciclos de secas e chuvas aleatórias fizeram a diferença entre a vida e a morte para muitos outros povos. O calor e as secas prolongadas afligiam e devastavam outras civilizações em partes bem distintas do planeta.

Uma vasta área global, abrangendo as hoje Américas do norte, centro e sul e atravessando o Pacífico até o norte da China, sofria com longos períodos de seca e aridez. A civilização dos maias foi prostrada e a chegada dos espanhóis na transição entre os séculos 15 e 16 os liquidou.

Na África, os ciclos de seca prolongada arrasavam a parte sul do Saara conhecida como Sahel (região de estepes secas do Norte da África próxima ao Lago Chade) e tomavam desde o Vale do Rio Nilo até a África Ocidental, levando à fome e ao desaparecimento de cidades.

Mesmo o continente europeu não foi poupado de eventos extremos. Os trabalhos de Hubert Lamb reconstituíram a ocorrência de quatro grandes ciclones ao norte que custaram as vidas de mais de cem mil pessoas entre os anos 1200 e 1382; a destruição da poderosa Armada Espanhola em 1588 é atribuída a uma tempestade deste tipo.

No caso humano, não se pode, em sã consciência, atribuir o surgimento, desenvolvimento ou desaparecimento de uma civilização tão somente às condicionantes ambientais. Nossa espécie é bem mais complexa do que as demais: em nossa evolução, desenvolvemos uma intrincada rede de interesses, atividades, conhecimentos e relações, temos aquilo que denominamos cultura.

Como vimos, os europeus divididos, eternos guerreadores auto-aniquilantes, foram invadidos e dominados na Península Ibérica por oito séculos pelos mouros vindos do norte da África.

Os europeus e os asiáticos conheciam e usavam o gado e seus cavalos. Após a queda do Império Romano, os reinos fragmentados guerreavam perenemente e a antiga escravidão era substituída por uma mescla de nova escravidão e servilismo. As migrações e invasões bárbaras germânicas, que minaram o poderio imperial romano, também trouxeram como resultado a destruição e perda dos tratados científicos da antiguidade clássica grega, principalmente, e romana, restando poucas traduções feitas para o Latim, mantidas a duras penas pela vida monástica da Igreja Católica.

Os mouros tinham a seu favor seus camelos, sua vivência do deserto em condições extremas, sua cultura de trocas e hábitos então mais gregários, sua capacidade de viajar, criar rotas e, sobretudo, sua ciência, seu conhecimento.

Suas contribuições foram essenciais para consolidar os fundamentos e a prática daquilo que temos abordado aqui nesta dezena de artigos: o desenvolvimento de um método confiável para criação de conhecimento, o método científico.