O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (13)

Artigo 77, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Out 2012

© 2005-2017 Fabio Ortiz Jr

 

Vimos até aqui como a evolução em direção a uma metodologia mais confiável para a produção de conhecimento refletiu as transformações econômicas, filosóficas e sociais da humanidade.

Antes de mergulharmos na história do desenvolvimento conceitual do método científico, façamos um breve resumo do que abordamos nesta última dúzia de artigos (já por si bastante abreviados) para então finalizarmos esta etapa desta nossa nova jornada.

Centramos aqui nossa atenção nos grandes embates entre o novo e o velho (termos aqui empregados sem qualquer valoração ou conotação moralista) nos últimos cem séculos:

a agricultura superando a caça-coleta,

a fixação e o aldeamento em contraposição ao nomadismo,

a propriedade particular em objeção ao compartilhamento,

a divisão da comunidade em classes sociais,

a razão em contraste à fé,

os métodos indutivo e dedutivo (e o incipiente método científico) contrapondo-se ao método da autoridade,

o heliocentrismo refutando o geocentrismo,

o antropocentrismo divergindo do teocentrismo,

o capitalismo sobrepujando o feudalismo,

o individualismo rivalizando o coletivismo

e uma novidade histórica recente, o socialismo e a hipótese comunista, remetendo a valores e princípios da primitiva comunidade cristã, em oposição ao capitalismo.

Como já enunciamos aqui, no início de nossa primeira jornada, em 2005, procuramos tratar de tudo isto sob a óptica da educação ambiental e do desenvolvimento sustentável, ou seja, segundo uma visão ambientalista.

É assim que torna-se inescapável constatar que, em termos de organização social, vivemos em um mundo que, longe de erradicá-las, convive com as estruturas e as práticas dos caçadores-coletores, da escravidão, do feudalismo, do capitalismo e do socialismo, seja em maior ou menor grau, seja em maior ou menor escala geopolítica.

Todas elas, à sua época, foram hegemônicas e depois suplantadas, exceção feita às duas últimas: enquanto o capitalismo assumiu no último século as rédeas plenas de nossos cotidianos e destinos, já mal disfarçando seu aspecto de resultados nefastos (uma elaborada nova semiescravidão), o socialismo incipiente padece de um aparente e brutal refluxo histórico.

Focamo-nos nos últimos artigos em um particular período onde o feudalismo firmou-se até começar a ser superado pelo emergente capitalismo.  Vimos como, condicionada pelo entorno econômico, político e cultural, a apropriação do conhecimento científico e da tecnologia foi sempre operada pela classe social dominante.

O jornalista Mauro Santayana, reconhecido por sua longa experiência e erudição, assim se expressou em artigo recente a respeito dos últimos acontecimentos políticos no Brasil:

Os pensadores da véspera do Renascimento preferiam duas imagens para definir o Estado: a do

relógio e a da balança. O Estado pode ser como a maquinaria de um relógio, com suas engrenagens bem lubrificadas, o pêndulo oscilando corretamente para marcar o tempo, e alguém, é claro, para suprir a corda com a energia necessária. Esse é o estado da ordem. A ordem pode ser imposta pelo despotismo manhoso, por um estado teocrático, pelo terror policial ou pela legitimidade das leis – como deveria ser o estado democrático. Ainda que a etimologia seja a mesma, as leis nunca são absolutamente legítimas ou se fundam no espírito da justiça. Elas jamais são iguais para todos: conforme a denúncia do Abade Seiyès [1748-1836], elas são cúmplices dos privilégios.

Ao mesmo tempo, em outro artigo o combativo jornalista econômico Luis Nassif nos diz:

As primeiras economias hegemônicas do mundo se constituíram através do comércio. Especializaram-se em produtos de valor agregado, dominaram a navegação, criaram empresas, dominaram conceitos de contabilidade e puseram-se à conquista do mundo.

Constituíram colônias para fornecer matérias primas e tentaram incrementar suas próprias manufaturas. Holandeses, espanhóis, franceses, ingleses, em todos esses casos as estratégias econômicas e políticas eram montadas por  Estados nacionais. Era o chamado ‘mercantilismo’ que, com o tempo, adquiriu novas facetas e novas denominações: desenvolvimentismo, economia política etc.

Antes do longo período de predominância da Inglaterra, alguns centros econômicos se consolidaram. E formou-se uma nova classe global, a do grande capital, responsável pelas primeiras experiências de articulação econômica global, acima dos países-Estado.

A economia, como ciência e como ferramenta política, forma-se em torno desses dois polos:

- os internacionalistas, do grande capital, em cima dos ensinamentos de Adam Smith [1723-1790] e de Ricardo [1772-1823] - economista que defendia as vantagens comparativas, segundo as quais cada país deveria se conformar em desenvolver apenas os produtos em que fossem competitivos, em um modelo de especialização do trabalho em nível global;

- o segundo grupo, o da economia política, foi moldado pelos ensinamentos do economista Friedrick List [1789-1846] que, na primeira metade do século 19, demonstrou que os países passam por estágios de desenvolvimento que exigem, cada qual, políticas próprias. Nos primeiros estágios, há a necessidade da proteção do Estado, do estímulo às exportações, da proteção da indústria. Só depois de completado o ciclo, com indústrias competitivas internacionalmente, o Estado pode prescindir da proteção comercial e defender a liberalização. Ao defender a liberalização comercial para países fracos - ensinava List - o que se pretendia era a perpetuação das diferenças entre ricos e pobres.

No fundo, a formação capitalista se deu em torno desses modelos. Numa ponta, a chamada economia real, as redes econômicas ligadas à produção, à indústria ou aos serviços. Nas outra, o grande capital, trabalhando fundamentalmente em cima da diferença de preços, quase como uma reedição do espírito do comerciante pré-revolução industrial. Na junção de ambos, as grandes multinacionais combinando o poder de produção com o poder financeiro.

Para o especulador clássico, seu ofício consiste em comprar barato e vender caro.