O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (15)

Artigo 79, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Dez 2012

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Na viagem que deu a volta ao mundo, entre o Natal de 1831 e Outubro de 1836, a expedição cartográfica e científica do navio HMS Beagle realizou inúmeras coletas de dados e informações, fatos registrados detalhadamente pelo jovem Darwin.

Curioso e interessado pelo enigma da origem das ilhas atóis encontradas no Oceano Pacífico, ele formulou o problema da seguinte maneira: por que elas têm a forma aproximada de um anel e contêm uma laguna em seu interior?

Na coleta de dados realizada pela expedição, as medidas de profundidade feitas nas bordas dos atóis indicavam que o fundo oceânico declinava rapidamente na direção do mar aberto.  A cerca de 18m de profundidade o chão examinado era constituído apenas por rochas coralíneas; já aos 54m havia uma mistura de coral e areia; abaixo disto não era mais encontrado coral.

Para Darwin, estes fatos davam uma sinalização clara de que o coral não havia se desenvolvido e crescido desde o fundo.  Ele fez então sua primeira suposição, a de que estes animais não poderiam viver senão em águas rasas e calmas.

Baseado nisto, desenvolveu outras suposições para explicar alguns dos fatos observados.  Resumidamente, elas eram as seguintes:

- uma montanha vulcânica teria emergido;

- corais teriam se fixado em suas bordas, numa faixa próxima à superfície, iniciando assim a deposição de rocha coralínea;

- a montanha teria gradualmente submergido, ficando abaixo da superfície marinha;

- os corais teriam continuado a se desenvolver junto ao nível do mar, principalmente no lado externo da ilha, voltado ao mar aberto, enquanto a montanha submergia.

Este conjunto de suposições formava a hipótese com que Darwin procurava explicar a origem e a formação das ilhas atóis: sua forma exterior, a laguna central e a ausência de corais nas regiões mais profundas.

Mesmo não sendo aceito por unanimidade, este trabalho teve o condão de despertar o interesse científico em muitos outros pesquisadores, para satisfação de Darwin, que pode verificar como a controvérsia ajuda no surgimento de novas ideias e descobertas científicas.

Darwin disse então: “Se eu estiver errado, quanto mais cedo levar na cabeça e for arrasado, tanto melhor. Faço votos para que algum milionário se interesse pelo problema e decida fazer perfurações em alguns atóis do Pacífico e do Índico e traga, para serem analisadas, amostras retiradas de profundidades de 150m ou 200m.

Isto constituía um teste proposto por ele para verificar ou não a consistência de sua hipótese, pois, além de indicar um meio para reforçá-la ou refutá-la, fazia com que sua hipótese, ao explicar todos os fatos observados, também contivesse um elemento importante, uma previsão: perfurações feitas em profundidades adequadas trariam amostras de rocha vulcânica.

Darwin não chegou a desfrutar desta confirmação, pois apenas a partir de 1900 foram organizadas expedições que fizeram algumas sondagens em atóis.

Uma delas, realizada na Ilha de Eniwetok, notabilizou-se: só alcançou rocha vulcânica depois de ultrapassar cerca de 1.200m de rocha calcária, um fato surpreendente que deu origem a um novo problema.

De toda forma, reforçava-se assim a hipótese formulada por Darwin a respeito da gênese das ilhas.

O ceticismo parcial, alimentado pelo fato novo, os 1.200m de calcário, expressava-se num espanto: como seria possível uma montanha deslocar-se verticalmente tanto?  A resolução deste novo enigma só veio a esboçar-se muitos anos depois.

A atividade científica e a abordagem científica da realidade, que podem ser estendidas e aplicadas para todas as manifestações humanas, implicam em, antes de mais nada, observar e anotar fatos.

Como vimos, fatos são observações que podem ser confirmadas por muitas pessoas; estas observações podem ser feitas diretamente, pelos nossos sentidos, ou de forma indireta, por meio de instrumentos.  Logo, alguém movido pela atitude científica deve ser capaz de repetir suas observações e experiências, que também devem ter a propriedade de poderem ser repetidas por outros pesquisadores.

Darwin tinha como dados estes fatos:

- os atóis tinham a forma de anel;

- em sua porção central havia uma laguna;

- medições revelaram uma queda abrupta nas encostas submersas voltadas para o mar aberto;

- até certa profundidade, recolhiam-se apenas amostras de calcário; depois disto, uma mistura de calcário e areia; mais abaixo, nenhum calcário.

A sua suposição inicial, a de que os corais só conseguiam viver em águas rasas, desencadeou a sequência de suposições explicativas que vieram a constituir sua hipótese, que viria a interpretar o processo de formação das ilhas atóis.  Para alcançá-lo, esta hipótese não só deveria explicar todos os fatos observados, mas ainda compor um processo e assim fazer uma previsão, apontando um ou mais fatos ainda não observados.

A verificação destes novos fatos a descobrir constituía o melhor teste possível para a hipótese.

Os cientistas, de maneira geral, não alimentam controvérsias com relação aos fatos, em especial quando se trata das ciências ditas exatas (quanto mais “matemática” for uma ciência, menores as chances de uma polêmica).

Já o mesmo não pode ser afirmado quanto às interpretações dos fatos, o que é sempre feito à luz de uma determinada hipótese.

Muitas vezes, porém, isto acontece até mesmo com relação aos próprios fatos, mormente no campo das ciências ditas humanas e com especial ênfase no Direito, como nos demonstrou o espetaculoso e excepcional (nas piores acepções destes termos) principal julgamento de 2012 no país.

A todos que me acompanham, um feliz Natal e que o novo ano possa ser preenchido com os nossos melhores e mais lúcidos esforços na edificação de um mundo mais justo.

Nas palavras do grande brasileiro Oscar Niemeyer, “a gente tem que sonhar, senão as coisas não acontecem.”