O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (17)

Artigo 81, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Fev 2013

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Mencionamos no artigo anterior a importância fundamental que têm os testes na verificação de uma hipótese que busca compreender e explicar um problema.

Neles, é central o papel do procedimento conhecido como experiência controlada, que consiste basicamente no isolamento e no teste de variáveis que podem condicionar os eventos.  Faz parte do desafio ao pesquisador identificar quais são estas variáveis.

Se você tem alguma experiência com cozinha, então sabe do que se trata: os ingredientes daquilo que você prepara não são escolhidos ao acaso, bem como suas proporções e quantidades.

Se você deseja pesquisar o efeito que será produzido pelo aumento ou diminuição de certo ingrediente, o melhor a fazer é manter todas as demais condições e ingredientes sem alteração e variar apenas o componente cujo efeito se quer testar.

Este conhecimento e esta prática, advindos da experimentação (empirismo), são intuitivos, rudimentares e antigos, com origem talvez já em nosso tempo de caçadores-coletores.

Se mais de um componente for alterado ao mesmo tempo, dificilmente conseguiremos saber qual deles é o causador dos efeitos observados.  Variá-los ao acaso e sem controle é uma prática de empirismo conhecida por ‘método da tentativa-e-erro’; é, em geral, pura perda de tempo.

Mesmo sendo este um conhecimento antigo, nada impediu que pesquisadores medievais, conhecidos como alquimistas, o praticassem na busca mítica por criar ouro a partir de outras substâncias ou até mesmo uma “pedra filosofal”.  Aliás, oriundo do árabe “al-kimia” (talvez conexo ao anterior grego “khumeia”, que significa “mistura de vários sucos”), o termo ‘alquimia’ tem precisamente o significado de “pedra filosofal”, que teria a propriedade de transformar qualquer outro metal em ouro.

Embora desprovidos de um método que mostrasse algum rigor científico (inexistente à época), alguns de seus esforços resultaram em conhecimentos úteis para os futuros pesquisadores.

Ao se fazer Ciência, nem sempre é possível criar uma experiência controlada em pesquisa de campo aberto, como em geologia; ela é mais facilmente conduzida em laboratórios.  Voltando ao exemplo culinário, os chefs de cozinha têm grande prática em realizar experiências mais próximas a um experimento controlado, isolando e testando os ingredientes desejados na busca por novos efeitos.  Neste caso, o objetivo é diverso: o chef não procura saber o porquê de um fenômeno e sim obter certo efeito, o novo prato.

Um exemplo de experiência controlada poderia ser dado por um pesquisador que busca compreender o papel do açúcar na dieta de suas cobaias em laboratório.  Ele observou que alguns animais, que são alimentados com carne, cereais, vitaminas e açúcar, apresentam um distúrbio que afeta sua capacidade de aproveitar o açúcar (desde a antiguidade pode-se detectar isto pela presença de açúcar na urina).  Para observar o efeito do açúcar na doença, ele varia então a quantidade fornecida ao mesmo tempo em que procura manter constantes os demais fatores (o que pode incluir água, umidade, temperatura etc).

Outro exemplo, mais elaborado, remete-nos à história das cervejas e dos pães e outras massas.

Suponha que um jovem tenha observado que sua mãe havia preparado dois frascos contendo água, açúcar e mais uma espécie de pó úmido, que foram deixados em repouso.  Um frasco ficou perto do fogão e o outro, esquecido, restou fora da casa por toda uma noite de inverno.

No dia seguinte, ao juntarem os frascos, notaram que no frasco esquecido do lado de fora havia muito menos bolhas do que no primeiro.

Curioso, o jovem quis descobrir porque havia mais bolhas num do que no outro; perguntou que pó era aquele e o que mais havia ali.  Soube então que a mãe havia apenas colocado algo chamado levedura nos frascos com uma solução de água e açúcar; e que aquela mistura era usada há muito tempo para a produção de pães.  Mas o jovem queria saber mais.

Sabemos hoje que o fungo Saccharomyces cerevisae, conhecido como levedura de cerveja, é capaz de fermentar os carboidratos do trigo (para a produção de massas) e do arroz ou cevada (estes para a de bebidas alcoólicas).

A fermentação (assunto a que voltaremos em artigo futuro) foi um dos primeiros processos utilizados pela vida, no início da Terra, para a obtenção da energia necessária.

Além de álcool, ela produz gás carbônico (CO2), responsável pelo ‘crescimento’ das massas.

Assim, as leveduras são usadas há milênios por suas qualidades terapêuticas, como no caso dos gregos, e desde os egípcios (c. 5.500 anos atrás) na produção de pão fermentado.  Mas foi só a partir do século 17 — com os trabalhos de A. van Leeuwenhoek (1632-1723, holandês), que para suas pesquisas montou os primeiros microscópios, e depois com Louis Pasteur (1822-1895, francês), microbiologista — que se abriram os caminhos para o conhecimento da existência e importância dos microorganismos nos ciclos da vida.  A partir de 1887 iniciou-se a produção da levedura fresca prensada, conhecida como ‘fermento biológico’.

Isto sabemos hoje, mas o jovem em questão não o sabia ainda.  Sua curiosidade o impeliu a procurar descobrir o que ali acontecia, sua imaginação procurou criar maneiras e experimentos para conseguir uma resposta.

Os poucos fatos estavam ali:

- nos frascos havia uma mistura de água e açúcar, idêntica nos dois;

- aos frascos foram acrescentadas quantidades semelhantes de algo chamado levedura;

- em ambos os frascos foram observadas bolhas, depois de algum tempo;

- no frasco que havia permanecido ao lado do fogão havia muito mais bolhas do que no frasco que havia sido esquecido no frio da noite de inverno;

- os conteúdos destes frascos destinavam-se à produção de pães.

Que problema formulou o jovem?  Que fatos ele considerou relevantes?  Que informações adicionais obteve?  Que suposições e hipótese elaborou?  Que testes criou em sua pesquisa?