O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (20)

Artigo 84, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mai 2013

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Na manhã seguinte, ao se dirigir ao colégio, nosso jovem procurou reelaborar seu experimento.

Refletiu sobre o problema que havia formulado para si: “a velocidade com que o lêvedo produz o gás é influenciada pela temperatura?

Era evidente que esta formulação se assentava na suposição de que o lêvedo seria o responsável pela produção do gás.  Ele então necessitara se assegurar disto; e havia procedido de maneira a obter evidências consistentes a este respeito.

O esquema montado para o experimento isolava as soluções nos tubos de ensaio (com e sem lêvedo) do ambiente externo; e assim a única diferença perceptível entre os conteúdos dos tubos era a presença ou a ausência do lêvedo.

Isto era um fato relevante.  Outro fato era a observação (e registro) da produção de gás no Tubo A, com lêvedo, já que o líquido com corante no manômetro era empurrado na direção do Tubo B (sem lêvedo).

Outros fatos importantes eram suas observações (e suas medições) registradas: a temperaturas mais baixas, a produção do gás diminuíra; com as mais altas, aumentara.

Sentia-se estimulado por uma nova curiosidade: o que era, afinal, o lêvedo?  Que informações adicionais poderia obter?

Deixou-se levar por alguns instantes pela curiosidade e a imaginação em direção a novas indagações, novas suposições e muitas dúvidas.

Experimentava então um fato e sensações muito comuns e decorrentes da pesquisa científica: a jornada para a solução de um problema, ao buscar resolvê-lo, traz em seu ventre novas e múltiplas indagações que dão origem a muitos novos problemas.

Problemas, bem entendido, como os definimos no artigo O Processo do Conhecimento – Método Científico (2), Nov 2011, são situações que nos despertam a curiosidade e levantam questões.

Sendo assim, nosso jovem pesquisador sentia-se agora bastante seguro quanto à sua primeira suposição, a de que o lêvedo produzia o gás.

Sua segunda suposição, que era sua hipótese a ser testada, parecia reforçada com as observações feitas: a temperatura aparentemente influenciava a produção do gás pelo lêvedo.

Desta forma, vendo suas suposições fortalecidas pela experiência, os testes criados haviam dado um novo estado à sua hipótese.

Animado, redesenhou o esboço recebido na caixa e mais tarde foi visitar o professor.  Queria falar, mostrar o que fizera e os resultados alcançados.

No caminho de volta para casa sentia-se um tanto atordoado.  Espantava-se por não saber melhor definir o que sentia: contentamento, assombro, frustração, tudo se misturara durante e após a longa conversa com o mestre.

O professor o recebera bem, como sempre; mas agora com um olhar de curiosa expectativa.

Mostrou-lhe o novo desenho do esquema do manômetro enquanto relatava com riqueza de detalhes tudo o que havia pensado e realizado.

Sei, sei...” era tudo o que o mestre murmurava enquanto examinava as anotações recebidas e ouvia com atenção o empolgado jovem.

Ao concluir seu relato, nosso pesquisador olhou com pretensa seriedade o professor e disse:

Bem, tendo provado que o lêvedo é o que produz o gás, eu agora gostaria que o Sr. me explicasse em detalhes o que vem a ser o lêvedo...”

A rápida resposta do mestre pegou-o de surpresa:

“... então você pensa que é assim, meu jovem?  Pedir, que lhe darão?  Pegar, porque quer?  Um objeto de prateleira para consumo?  O conhecimento tem que ser construído, rapaz, conquistado, ano após ano, mês após mês, dia após dia; cada segundo só existe pelo instante que o precedeu.”

Aturdido, o jovem continuou a ouvir:

Provou?  Você tem certeza?  É possível ter certeza em Ciência?  Penso que os tempos de medição, por exemplo, foram muito curtos.

Sua experiência parece bem elaborada, mas...

Imagine um procedimento mais simples, mas ao alcance de sua mãe ou de um padeiro a qualquer momento: prepare um pouco de massa para pão, como sabe fazer sua mãe.

Uma porção recebe tudo, menos a levedura; a outra contém o lêvedo.

Use 3 copos grandes cheios de água onde:

- copo A tem água gelada, em torno de 10ºC;

- copo B tem água na temperatura ambiente;

- copo C tem água morna, entre 30-35ºC.

Faça 9 bolinhas de cada massa, menos de 1 cm de diâmetro, e marque as sem levedura com um risco de caneta para diferenciá-las.

Coloque 3 de cada tipo nos copos marcados. Meça quanto tempo toma, em cada copo, para que as bolinhas comecem a subir até a superfície.

Este monitoramento lhe dará duas noções: quanto tempo mínimo de observação sua experiência vai demandar (recomendo que você vá refazê-la); e que talvez, eu disse talvez, o lêvedo seja o produtor do gás.

Meu caro rapaz, há um longo caminho a percorrer entre fatos, hipóteses, previsão, testes, falseabilidade, verificação, teoria, lei.  Espero que você se interesse por isto.”

Voltou a pé para casa, para demorar-se mais.

Queria refletir sobre esta conversa surpreendente; e também trazia outro bilhete do mestre com a recomendação de só abri-lo mais tarde, não quando tivesse respostas, mas sim quando percebesse que havia encontrado outras perguntas interessantes.

Afinal, decidiu-se por abrir e ler o bilhete.  Sorriu, enquanto suas emoções encontravam o seu lugar:

Quando eu era jovem como você, a curiosidade levou-me a viver algo parecido. Você fez melhor do que eu então! Parabéns! Prossiga e terá um grande futuro. Torço por você e conte comigo. Só não fique envaidecido (ou aborrecido) com o que eu disse; será perda de tempo.”

(ET: agradeço a valiosa colaboração do médico e pesquisador Prof. Dr. Francisco G. da Nóbrega)