O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (23)

Artigo 87, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Ago 2013

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A revolução científica iniciada pelos pesquisadores do século 16 foi, como vimos, aprofundada e consolidada no século 17, agora suportada pelo liberalismo (capitalismo) crescente.

O movimento iluminista foi essencial no papel de ganhar amparo ideológico e teórico para as forças sociais, políticas e econômicas que emergiam.

O sucesso dos trabalhos de Isaac Newton em suas pesquisas em Física e Matemática, na esteira preparada por Bacon, Galileu, Kepler e Descartes, estabeleceram em definitivo um novo paradigma (do grego “parádeigma”, que significa “modelo, exemplo”), que veio a ser conhecido como mecanicismo.

Publicada em 1687, sua obra-prima Philosophiae Naturalis Principia Mathematica (em que descreve a lei da gravitação universal e as três "leis de Newton", fundamentos do que tornou-se conhecido como "mecânica clássica") é hoje reconhecida como uma das mais influentes na história da ciência.

Apesar de seu temperamento crescentemente reservado ao longo da vida, o genial Newton teve humildade suficiente para declarar que “se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes”.

No entendimento do novo modelo, o mundo, o universo, funcionavam como as precisas engrenagens de um relógio.  Logo, tudo o mais operava à base de uma causa e um efeito; assim, por decorrência, todos os fenômenos seriam “reversíveis” (uma longa discussão que ficará para outros artigos).

No interesse da burguesia e do liberalismo (capitalismo) emergentes, a tradução prática desta evolução científica em curso foi acelerada.

Há milênios as forças produtivas dependiam do esforço humano e da tração animal.  Nos últimos séculos empregava-se também a força dos ventos e das águas, além de carvão vegetal e mineral; mas a produção em si dependia ainda de um trabalho artesanal, manual (donde o termo manufatura), em que o artesão dominava todo o processo.

Um invento do mecânico e ferreiro Thomas Newcomen (1663-1729, inglês) havia iniciado em 1712 um importante trabalho nas minas de carvão: a drenagem das galerias, para remoção das águas que naturalmente as inundavam.  Era a primeira máquina a vapor: o carvão fervia a água e a pressão do vapor movia as engrenagens (deve-se aqui observar que Leonardo da Vinci já havia cogitado de uma máquina a vapor).

Ao criar uma nova força motriz para máquinas, talvez ainda sem o saber, Newcomen não apenas liberava em grande parte a força humana mas deflagrava uma transformação produtiva.  Ela logo se tornou utilizada nas tecelagens para o aumento da produção e do lucro dos proprietários.

O que veio a ser conhecido como Revolução Industrial, propiciada pela máquina a vapor, tomou impulso definitivo quando James Watt (1736-1819, escocês), matemático e engenheiro construtor de instrumentos científicos, aperfeiçoou a máquina de Newcomen: a introdução de um condensador em 1765 elevou o rendimento da máquina em cerca de 75%.

Sua contribuição, ao lado de outras que se lhe somaram, tornou estas máquinas tão eficientes que elas foram reproduzidas aos milhares por toda a Inglaterra.

As pesquisas de Watt tiveram tanta influência no desenvolvimento prático das forças produtivas que o Sistema Internacional de Unidades (SI, que define os padrões internacionais de unidades de medidas) atribui o termo “watt” ao padrão unitário de “potência” (kg*m²/s³), assim como dá o nome de “newton” ao de “força” (kg*m/s²).

Motor a vapor do tipo Watt, Espanha

Se a Inglaterra já era um dos principais países industrializados, sua Revolução Industrial (que o grande historiador Eric Hobsbawm situa entre 1780 e 1840) e seu acelerado enriquecimento vieram a torná-la a potência então hegemônica.

Uma das principais consequências sociais (além da perda de controle dos artesãos sobre sua produção) foi o deslocamento da população rural para as cidades; em cem anos (1780 a 1880) a população de Londres passou de 800 mil para mais de 5 milhões de pessoas.

Passava-se assim de um liberalismo mercantil para um capitalismo industrial.

Esta transformação (que dava origem a muitas dúvidas e temores) não se daria sem o respaldo de uma concepção ideológica, sintetizada numa teoria, numa ética e numa moral que justificassem o liberalismo ascendente.

Quem melhor os sistematizou foi o pensamento liberal (capitalista) de Adam Smith, (1723-1790, escocês).

Semeada por Descartes, enraizada por Newton e alavancada por Watt, a lógica mecanicista era o esteio para que a racionalidade de Adam Smith justificasse o pensamento liberal (em que pese algumas luzes humanistas em todos eles).

Sua obra mais famosa, A Riqueza das Nações (Uma Investigação Sobre a Natureza e a Causa da Riqueza das Nações), publicada em 1776, buscava responder às dúvidas ora discutidas e demonstrar, de seu ponto de vista, que esta riqueza decorria da ação de indivíduos que, movidos por seu interesse pessoal (mas não apenas), promoviam a inovação tecnológica e o crescimento econômico.

Era sobretudo um estudo contra o mercantilismo, como já propusera o movimento iluminista, e que afirmava que os agentes econômicos, em livre atuação, atingiriam uma situação de eficiência, dispensando a ação do Estado nesse campo.  Daí a ideia de uma espécie de ”mão invisível, que regularia automaticamente o mercado” (conceito este que os anos sequentes, até hoje, não se cansam de desmentir).

Em pouco tempo, todas as principais nações europeias (maioria católica) viram-se obrigadas a correr nestes trilhos do desenvolvimento.  E com a invenção da locomotiva a vapor (1814) de George Stephenson (1781-1848, inglês), a velocidade do mundo jamais voltaria a ser a mesma.

O método científico nesta etapa de sua maturação afirmava-se como uma tentativa de se chegar ao meio mais adequado de “conhecer a natureza e de controlá-la”.