O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - sinal, dado

Artigo 61, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jun 2011

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Digo que estamos todos nus diante dos desafios destes tempos a começar pelo fato de que mal estamos nos dando conta de sua natureza e dimensão.  Talvez nossa principal fragilidade esteja no ato de conhecer.  Como sabemos?

Levantar as perguntas relevantes é sempre mais complexo e importante do que as respostas; tratei disto em várias palestras que dei em congressos e seminários de tecnologia da informação (TI).  De imediato, podemos indagar:

- o que é conhecimento?

- como se gera conhecimento?

- como se codifica conhecimento?

- como se organiza conhecimento?

- como se “transfere” conhecimento?

Depois, pensando nas relações sociais e nas questões práticas do cotidiano, podemos refletir:

- está surgindo uma economia do conhecimento?

- informação é poder?  E conhecimento então?

- há funções de trabalho e qualificações na área do conhecimento?

- o que é gestão do conhecimento?

- há tecnologias para gestão do conhecimento?

- o que é um projeto para gestão do conhecimento?

- há exemplos de gestão na prática?

Na antiguidade ninguém tratou a questão do conhecimento mais profunda e intensamente do que os filósofos (v. artigos Ecologia e Educação, Mar/Abr 2007, e Conclusões: O Compreender, Mai 2009).  Sócrates o fez com seus alunos, em seus discursos jamais registrados pela escrita.  Platão em seus diálogos, como por exemplo Fedra, há cerca de 2.400 anos tratava profundamente do conhecimento.

Aristóteles e Descartes também avançaram neste campo, sucedidos por uma legião de pensadores como Pascal, Rousseau, Chefe Seattle, Freud, Russel, lista tão extensa que o pequeno espaço aqui nos obriga à injustiça de não citar a todos.

Todos nós certamente concordamos com a idéia de que o conhecimento é importante para nós, para nossa vida, para nossas atividades, para nossa sobrevivência, para as organizações e os empreendimentos, quer coletivos, quer pessoais.

na apresentação de seu livro Conhecimento Empresarial, Thomas Davenport e Laurence Prusak vão ao ponto: “entender o conhecimento é fundamental para o sucesso das organizações”.

Antes de enveredarmos por este caminho, façamos uma viagem mais abrangente, que melhor nos preparará para observarmos a paisagem na jornada.  Façamos uma grande viagem olhando para fora e para dentro.

Vamos examinar o que é um sinal.

O Universo está repleto, inundado de sinais.  Há quanto tempoBem, há uma “quantidade” de tempo que a maioria de nós tem dificuldade em aquilatar, pois avaliações desta ordem de grandeza não fazem

parte de nosso cotidiano.  É preciso um bocado de treino para que nos acostumemos a estimativas tão incomuns como centenas, milhares, milhões ou bilhões de anos (v. A Percepção do Tempo, Mar/Abr 2006).

O fato é que nosso planeta é bombardeado ininterruptamente por sinais dos mais variados tipos e intensidades, visíveis ou invisíveis aos nossos sentidos.  Nós, cada um de nós, somos expostos cotidiana e constantemente a sinais, queiramos ou não, sejamos ou não capazes de nos apercebermos deles.

Na forma de luz, som, calor, aromas ou gostos, os sinais estão continuamente disponíveis.  Podemos percebê-los ou não (v. Espaço e Ambiente, Jul/Ago 2006); mas eles estão ali e aqui, em todo lugar, independentes de nossa percepção, independentes mesmo de nossa existência.

Um sinal em si apenas reflete a existência de alguma coisa (se é que podemos dizer apenas)!

Um sinal é o testemunho de que algo existe, ou existiu, como fonte emissorapor exemplo, as luzes que nos chegam das estrelas, o calor que nos aquece vindo de nosso Sol, um registro fóssil, o som da voz de uma pessoa querida, o perfume de uma bela flor, o sabor de um gnocchi.

O conceito de sinal é exaustivamente tratado pela Teoria da Informação, ciência fundada por Claude Shannon.  Sem os rigores desta Teoria, podemos dizer que, em resumo, um sinal é o representante de uma fonte emissora e independe de nossa percepção, ou seja, independe de um receptor.

Se um sinal emitido encontra em seu caminho um receptor e este o percebe, bem, então eis o que podemos chamar de dado.

Em outras palavras, podemos dizer que um dado não tem existência independente, pois depende não de um emissor mas também, e agora principalmente, de um receptorO sinal passa a dado na presença de um receptor atento.

Dados nada dizem sobre si mesmos, sua própria relevância ou desimportância.

Como nos lembra Davenport, as organizações modernas geralmente armazenam dados em algum tipo de sistema tecnológico, por exemplo, dados sobre transações de compra ou venda.  Quantitativamente, as empresas costumam avaliar a gestão de dados em termos de custo, velocidade e capacidade.  Qualitativamente, preocupam-se com indicadores como prontidão, relevância e clareza.  Porém, esses dados em si nada dizem sobre se a organização é bem ou mal administrada, se prospera ou fracassa.

Às vezes, as organizações (as pessoas) acumulam muitos dados e criam a ilusão de exatidão científica, o que é falso em dois aspectosem primeiro lugar, dados em demasia podem dificultar ou mesmo impedir a identificação e extração de significado de dados que realmente importam; em segundo, é fundamental compreender que dados não têm significado inerente.

Dados descrevem apenas parte dos acontecimentos, não fornecem interpretação, nem julgamento, nem qualquer base sustentável para a tomada de decisão e ação.

Embora dados nada informem sobre si mesmos, eles são importantes pelo fato de serem a matéria-prima para a criação de informação, o que veremos a seguir.