O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (25)

Artigo 89, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Out 2013

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A dúvida não é uma condição confortável, mas a certeza é absurda, simplesmente ridícula”, dizia François-Marie Arouet (1694-1778, francês), mais conhecido como Voltaire, filósofo, ensaísta, poeta, dramaturgo e historiador iluminista.

Esta instigante reflexão não o impedia, entretanto, de expressar sua profunda – e cartesiana – admiração pelas transformações de sua época ao afirmar: O mundo me intriga. Não posso imaginar que este relógio exista e não haja relojoeiro.”

Crítico arguto, progressista à sua época e um dos líderes do Iluminismo, Voltaire resumia nestes pensamentos sua inquietante amálgama de idéias em choque: a crença em um Criador, a concepção mecanicista e determinista do Universo e de seus fenômenos e ainda – um estado de espírito fundamental para a investigação científica – uma porta aberta para a dúvida e o questionamento.

Como vimos nestes artigos, as sementes filosóficas do embate entre a fé e a razão estavam plantadas desde há muito no tempo, muito antes dos pensadores iluministas.

Em síntese, podemos dizer que as dissonâncias entre os modelos (paradigmas) de conhecimento, com seus desdobramentos sociais, econômicos, políticos e culturais, contrapuseram, na jornada humana, fé e razão, escravismo e feudalismo, feudalismo e capitalismo; e mais recentemente, como veremos adiante, capitalismo e socialismo.

Fruto de seus resultados materiais, o sucesso do modo mecanicista de pensar e do capitalismo havia dado a estes, por volta do século 19, com suas “certezas”, a hegemonia absoluta sobre a forma de idealização e organização da sociedade.

O ideário mecanicista resultante dos trabalhos revolucionários de Galileu, Descartes e Newton, principalmente, concebia a natureza a operar “como máquina, a obedecer relações de causalidade necessárias, automáticas e previsíveis, constituídas pelo movimento e interação de corpos materiais no espaço”.  Assim, considerava todos os fenômenos naturais passíveis de quantificação e geometrização, em decorrência de sua organização em leis universais de causalidade mecânica”.

Esta concepção, embora cientificamente superada, ainda resiste ferozmente na sociedade globalizada atual, especialmente na esfera político-econômica, e até mesmo em campos da ciência, como em uma área da biologia que considera os seres vivos explicáveis por meio de uma série de causas e efeitos de origem estritamente físico-química, dando continuidade à hipótese cartesiana do animal-máquina”.

Já na Antiguidade o grego Demócrito (460-370 a.C.) atribuía “o surgimento de almas e mundos ao choque, agregação e desagregação mecânica dos átomos, sem qualquer intervenção divina”.

No entanto, Aristóteles (384-322 a.C.), em sua doutrina “caracterizada pela diversidade e complexidade temática (a sistematização e o aperfeiçoamento de todos os saberes de seu tempo), de profunda influência posterior sobre a cultura ocidental”, já ensinava que “a dúvida é o princípio da sabedoria”.

Não obstante, uma das “certezas” deixadas por Aristóteles referia-se à origem dos seres vivos.  Segundo sua crença, estes poderiam ser criados a partir da matéria inanimada como, por exemplo, larvas de moscas nascidas de carne em decomposição; ou mesmo ratos a partir do lixo.

Esta idéia aristotélica de “geração espontânea” foi contestada (quase 20 séculos depois) pelo biólogo italiano Francesco Redi (1626-1698), que numa experiência primitiva demonstrou que em frascos selados o surgimento de larvas não acontecia, logo, só a vida poderia gerar outra vida.  Todavia, apenas os trabalhos do químico e biólogo francês Louis Pasteur (1822-1895) alcançaram derrubar a “geração espontânea” e ainda provar a existência de microorganismos como causa de doenças.

O modelo mecanicista tinha respostas muito boas para grande parte dos fenômenos observados; mas não para tudo.  Mesmo Isaac Newton já dizia que, como pesquisador, “podia ter descoberto certas relações, mas que não poderia sustentar que estas relações não pudessem ser outras”.

A validade da física mecanicista era uma questão de escala e de fronteiras.

O jovem francês Nicolas Sadi Carnot (1796-1832), físico, matemático e engenheiro, em sua breve vida havia iniciado pesquisas em um novo campo, a termodinâmica, de que é considerado fundador, onde analisava máquinas térmicas, gases, pressão, temperatura e a conversão de calor em trabalho. Carnot afirmava que a energia não desaparecia, apenas mudava de forma.

Seus trabalhos pioneiros foram retomados por Rudolf Clausius (1822-1888, alemão), físico e matemático, que aprofundou as descobertas em termodinâmica e criou o conceito de entropia (uma grandeza termodinâmica que mensura o grau de irreversibilidade – em oposição frontal ao mecanicismo – de um sistema).

Outro abalo nas “certezas” mecanicistas viria das pesquisas de Gregor Johann Mendel (1822-1884), austríaco da Silésia (ora República Checa), monge agostiniano, botânico e meteorologista. Mendel, hoje conhecido como “pai da genética clássica”, estudou as teorias da evolução dos seres vivos e formulou as leis básicas da hereditariedade em seus trabalhos com plantas e abelhas, reconhecidos como um modelo de método científico.

No âmbito da filosofia os gérmens da quebra do paradigma mecanicista também desenvolviam-se há tempos.

Considerado maior filósofo alemão do Iluminismo e último grande filósofo do início da Era Moderna, Immanuel Kant (1724-1804), prussiano de Kaliningrado (hoje Rússia), sugeriu que a formação do sistema solar se dera a partir de uma vasta nuvem de gás e poeira (a teoria nebular).  Esta formulação foi depois desenvolvida em 1796 pelo genial matemático Pierre-Simon Laplace (1749-1827, francês).

A teoria do conhecimento em Kant (conhecida como filosofia ou idealismo transcendentais), que tencionava justificar a possibilidade do conhecimento científico dos séculos 17 e 18, "partia da constatação de que nem o empirismo britânico, nem o racionalismo continental europeu explicavam satisfatoriamente a ciência": apesar de o conhecimento fundamentar-se na experiência, esta não se daria de maneira neutra porque lhe seriam impostas as formas a priori da sensibilidade e do entendimento, características da cognição humana.

O também filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831, alemão), tendo em vista referir a relação entre mente e natureza, sujeito e objeto do conhecimento (mediante um modo integrado e desenvolvido em que abordava psicologia, arte, religião, estado, história e filosofia), desenvolveu uma estrutura filosófica (ou "sistema") abrangente conhecida por Idealismo Absoluto.  Elaborou a idéia de que a mente (ou espírito, "Geist") manifesta-se em “um conjunto de contradições e oposições que, no final, integram-se e se unem, sem eliminar qualquer dos pólos ou reduzir um ao outro”, contradições que incluem “aquelas entre natureza e liberdade e entre imanência e transcendência”.

Hegel já afirmava que “o verdadeiro é o todo.

A idéia mecanicista da determinação de um todo como o resultado da mera justaposição (ou soma) de suas partes não obtinha resposta para muitos dos "novos" fenômenos observados.  Havia algo mais e além.

Como entendia Albert Einstein, “existe uma coisa que uma longa existência me ensinou: toda a nossa ciência, comparada à realidade, é primitiva e inocente; e, portanto, é o que temos de mais valioso.”