O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (26)

Artigo 90, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Nov 2013

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O que havia de “algo mais e para além” do modo mecanicista de pensar e ver o mundo?

A partir do que discutimos nos artigos A Percepção do Tempo (Mar-Abr 2006), pode-se compreender que a mera observação (empirismo) está inarredavelmente limitada pela escala dos processos envolvidos: nossa vida dura apenas algumas décadas, em que fazemos nossas observações, ao passo que os processos naturais se dão em centenas, milhares, milhões e bilhões de anos.

Torna-se necessário, portanto, além da observação, um ato até aqui tipicamente humano: imaginar, fazer suposições, propor e realizar testes, estabelecer correlações.

Os mecanicistas foram até aí; porém, de maneira limitada por sua cosmovisão (concepção do mundo) e pelos interesses que então defendiam.

Contudo, a cosmovisão, como aqui temos demonstrado (v. O Processo do Conhecimento, Dez 2011), pode ser alterada.

A superação do modelo mecanicista não se deu com um passo único.  Foi antes, apoiada pelos conceitos vistos no artigo anterior, uma gradual construção erigida sobretudo pelos trabalhos de investigação que envolveram a percepção do tempo (com os geólogos), a escala dos fenômenos e a irreversibilidade (com os físicos), os processos de evolução (com os biólogos), as relações sociais (com os filósofos, sociólogos, economistas e historiadores).

Além dos abalos, houve rupturas.

Um dos pilares desta transformação foi o trabalho de James Hutton (1726-1797, escocês), geólogo, médico, químico, naturalista e agricultor experimental, considerado fundador da geologia moderna.

Hutton criou o conceito de uniformitarianismo, publicado em 1795, que se apoiava em duas idéias:

atualismo geológico – o passado foi moldado por forças que se observam na atualidade, já que as leis da natureza são constantes;

e gradualismo – acontecimentos geológicos são lentos e graduais.

Assim, “o presente é a chave do passado”: a Terra teria sido modelada essencialmente por processos lentos num período muito largo de tempo (o tempo profundo).

Este conceito opunha-se à idéia vigente de catastrofismo, de Georges Cuvier (1769-1832, francês), naturalista que propunha transformações abruptas numa Terra com idade estimada em apenas alguns milhares de anos.  Com base na Bíblia, o arcebispo James Ussher (1581-1656, irlandês) havia calculado, em 1654, que a Terra teria pouco menos do que 6 mil anos (5.658 anos e criada ao anoitecer da véspera do dia 23 de Outubro de 4004 a.C.), uma cosmovisão defendida até hoje pelos criacionistas.

Hutton tornou célebre um promontório rochoso no município de Berwickshire, na costa leste da Escócia, conhecido como Siccar Point.  Nele Hutton identificou uma discordância angular entre estratos

(camadas) de 345 milhões de anos (Ma.) e 425 Ma., tomando-a como prova definitiva de sua teoria uniformitarianista.

Ele ainda adiantou idéias de uniformitarianismo para os seres vivos, antecipando Darwin, e chegou mesmo a propor a compreensão da Terra como um superorganismo vivo, a ser estudado pela via da fisiologia, antecipando a hipótese Gaia de James Lovelock (1919, inglês) e Lynn Margulis (1938-2011, estadunidense), tema a ser tratado em outros artigos (v. artigo Sucessão de Espécies, Nov-Dez 2006).

Alguns meses após a morte de Hutton nascia Charles Lyell (1797-1875, escocês), geólogo, advogado, que viria a torna-se um dos maiores defensores de suas propostas.

Com importantes pesquisas na área conhecida por Estratigrafia (estudo dos estratos rochosos), Lyell publicou de 1830 a 1833 os volumes de sua obra Princípios de Geologia, uma síntese de muitos trabalhos reconhecida como base da formulação da geologia moderna.  O subtítulo “Uma Tentativa em Explicar as Mudanças Formadoras da Superfície da Terra por Referência a Causas ora em Operação” explicitava sua relação com os trabalhos de Hutton.

Lyell também viria a ser grande amigo do jovem Charles Darwin, a quem deu o primeiro volume de sua obra pouco antes da partida deste a bordo da futuramente famosa viagem do Beagle ao redor do mundo (v. O Processo do Conhecimento, Nov-Dez 2012).  Este presente teve efeito imediato sobre Darwin, que o leu em poucos dias e aplicou suas observações já no primeiro porto de parada.

Um dos primeiros grandes cientistas a apoiar a tese evolucionista de Darwin a respeito da origem das espécies, Lyell ainda publicou, em 1863, A Evidência Geológica da Antiguidade do Homem.  Seus trabalhos e os de Thomas Malthus (1766-1834, inglês) tiveram grande influência sobre as pesquisas de Darwin.

É a partir disto que surge outro pilar da ruptura com o modelo mecanicista.

Charles Darwin não criou sua teoria da evolução a partir do nada.  O que havia (e há) de “algo mais e para além” do pensamento mecanicista estava (e está) bem diante de nossos olhos: a diversidade da natureza, das paisagens e dos seres vivos, um livro aberto diante de nós o tempo todo, um registro pormenorizado de uma longa história a ser desvelada e resgatada.

Prosseguindo na trilha aberta pelos que o antecederam, Charles Darwin, como veremos, alargou-a e criou novos caminhos em direção à percepção de uma realidade muito mais complexa.