O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (27)

Artigo 91, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Dez 2013

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O portal que se abria em direção a “algo mais e para além” do modo mecanicista de pensar principiava por uma alteração em nossa percepção do tempo (v. A Percepção do Tempo, Mar-Abr 2006), o que se tornou possível pelos trabalhos de geólogos como James Hutton e Charles Lyell (v. artigo anterior).  Este, o primeiro pilar deste portal.

Definido pelas pesquisas de Sadi Carnot no campo da Física que viria a ser a Termodinâmica, o segundo pilar alterava as noções de escala e de fronteiras, ou seja, tratava da escala dos fenômenos e de sua irreversibilidade.  Dado o pouco tempo de vida de Carnot, ele só foi consolidado pelos trabalhos de Rudolf Clausius (v. O Processo do Conhecimento, Out 2013) várias décadas depois, com o conceito de entropia, criado em 1865, tão importante – e popularmente mal resumido como “tendência ao caos” – que o abordaremos futuramente.

Coube a Charles Darwin erguer o terceiro pilar.

Há milênios a grande variedade de seres vivos e de formas minerais intrigava os pensadores.  E um natural impulso humano buscava não só compreendê-la, mas também organizá-la.  Na Grécia antiga, Aristóteles já indagava: “Devemos nós, por exemplo, começar por discutir cada espécie em separado – homem, leão, boi etc – tomando cada tipo independentemente do resto ou devemos procurar descobrir o que eles têm em comum?

Colecionadores de selos podem organizá-los por cores, tamanhos, datas, imagens representadas; ou ainda países que os emitem.  Observadores da natureza poderiam agrupar os elementos vistos da mesma forma; ou ainda como minerais, plantas, animais.  E cada um destes grupos poderia ainda ser arranjado em subgrupos menores, de acordo com alguma característica escolhida.

Esta atividade organizadora é conhecida em ciência como classificação.  Assim como o conhecimento apoiado unicamente na observação é entendido como conhecimento empírico, a classificação baseada apenas na observação é denominada classificação empírica.

Amostras de rochas diversas poderiam ser classificadas pelo senso comum segundo suas cores, formas, densidades, resistências ao risco etc.  Já os geólogos buscam ir além destes critérios empíricos, fazendo suposições a respeito dos processos de formação destas rochas, o que não pode ser observado diretamente.

O mesmo se deu no campo do estudo da vida; a biologia começou a procurar ir além da mera descrição empírica.

Os antigos gregos acreditavam que os tipos de animais e plantas não passavam de umas poucas centenas.  Aristóteles e Teofrasto agruparam os vegetais em ervas, arbustos e árvores; já os animais foram classificados segundo o tipo de lugar que habitavam, como terra, água e ar.

Passaram-se dois mil anos antes que surgisse uma nova tentativa de classificação.  Elaborada por John Ray (1627-1705, inglês), ela propunha pela primeira vez um critério para a definição do conceito de espécie: seria um grupo de indivíduos semelhantes que têm ancestrais em comum; ou seja, organismos vários, mesmo apresentando pequenas diferenças, poderiam pertencer à mesma espécie desde que tivessem os mesmos ancestrais.  Era o início da articulação do conhecimento empírico com o teórico.  Como os gregos, e todos em sua própria época, John Ray acreditava que “o número de verdadeiras espécies na natureza era fixo, limitado e imutável.”

Quase um século depois, acreditando que o principal objetivo da ciência era encontrar a ordem na natureza, Carl von Linné (1707-1778, sueco), mais conhecido por Lineu, criou um cuidadoso esquema de classificação baseado em Ray.

Para Lineu cada organismo tinha seu lugar especial no esquema da vida; e assim passou a sua reelaborando e atualizando sua classificação.  Uma espécie era constituída por organismos semelhantes e por um

determinado tipo ideal.  Cada organismo era comparado a um tipo padrão e aninhado no mesmo grupo; se discordante, era descartado.

Espécies semelhantes foram reunidas em um grupo maior chamado gênero e Lineu empregou uma nomenclatura latina para denominar espécies e gêneros, de maneira que pudesse ser usada e compreendida em qualquer lugar.  Por exemplo, cães (Canis familiaris) e lobos (Canis lupus) eram do mesmo gênero Canis.

O atual sistema de nomeação de espécies, com muitas atualizações, é baseado na décima edição (1758) de sua obra Systema Naturae.

Lineu viajou e enviou muitos de seus estagiários para distantes lugares a fim de coletarem, descreverem e enviarem exemplares de todas as espécies encontradas.  O número de espécies então descritas crescia rapidamente, mas, embora não pudesse refutar a evidência de que havia espécies extintas, ele acreditava que elas não se modificavam e que o número total fosse fixo.

Porém, como já vimos, as sementes da dúvida felizmente sempre germinaram.  Mesmo entre os gregos havia quem cogitasse que talvez novas formas de vida pudessem ter origem em outros tipos já existentes.

Os fósseis sempre desafiaram os pensadores.  Eles são fruto de uma sequência de acasos, podemos dizer, felizes.

Tudo na natureza, cedo ou tarde, é reciclado.  Organismos quaisquer, quando morrem, tendem a desaparecer sem deixar vestígios; a menos que sejam, por algum processo, preservados.  O ser que ali existia, não mais existe; mas seus restos ou o equivalente a eles podem vir a testemunhar sua existência, sua estrutura, suas relações com o meio.

Quanto mais os pesquisadores viajavam, além de novas espécies desconhecidas dos europeus, mais e mais variados fósseis, muitos deles semelhantes aos organismos conhecidos, já outros bastante distintos, eram encontrados.

Como isto se encaixava no “esquema da vida”?

Darwin, mesmo muito jovem, quando partia em sua memorável viagem a bordo do Beagle, levava uma enorme bagagem cultural de pesquisas e conhecimentos.  E um livro precioso de seu amigo geólogo Charles Lyell.