O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (28)

Artigo 92, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jan 2014

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Charles Darwin não desenvolveu sua teoria sobre a evolução da vida, nosso terceiro pilar, a partir do nada.

Darwin tinha uma formação múltipla: conhecido como naturalista, havia estudado Medicina e Teologia e se iniciado em Geologia por meio da Estratigrafia (estudo das camadas rochosas).  Os anos seguintes à viagem de quase 5 anos do HMS Beagle ao redor do mundo, em que embarcou com pouco menos de 23 anos, reconheceram-no como geólogo e escritor talentoso.

Seu pai, Robert Darwin, era médico e seu avô Erasmus Darwin (1731-1802), médico, era também pesquisador de botânica, poeta e ainda fundador, ao lado de Josiah Wedgwood (avô materno de Charles), da Sociedade Lunar, um clube informal de pensadores e empreendedores.

Erasmus até mesmo antecipara algumas ideias sobre evolução em sua obra Zoonomia, de 1794, embora sem provas, ao afirmar que não éramos um produto acabado, imutável, e sim fruto de um longo e natural “aperfeiçoamento”.

Na expedição do Beagle, Darwin revelou-se um observador meticuloso, como demonstram seus registros e escritos.  Dois terços do tempo viajado ele esteve em terra, coletando amostras, fazendo experiências, fascinado, lendo trabalhos científicos (Charles Lyell enviou-lhe seu segundo livro pouco depois da partida), entrevistando pessoas e sendo envolvido por acontecimentos inesperados.

Os resultados iniciais deste intenso e profundo contato com uma realidade então desconhecida surgiram já mesmo em viagem: muito do que via, auxiliado pelas lentes da Geologia, não se encaixava nos cânones teológicos e mesmo no conhecimento científico então hegemônico.  Em meio ao confronto entre as crenças adquiridas e a realidade vivida, Darwin chegou a adoecer.

Antes dele, o único a propor uma elaborada hipótese evolucionista, em oposição à vigente e arraigada ideia de imutabilidade das espécies, foi Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829, francês), biólogo, em seu trabalho Philosophie Zoologique, publicado em 1809, quando nascia Charles Darwin.

Lamarck argumentava que uma grande mudança ambiental provocaria numa espécie a necessidade de modificar-se, alterando hábitos e depois formas e estruturas. 

Apoiado nesta ideia e em suas observações (que, contudo, não eram cotejadas por qualquer controle experimental), Lamarck sustentava sua hipótese em duas suposições:

- a primeira afirmava que quanto mais usada, mais uma parte de um organismo se desenvolvia; de outra forma, se enfraquecia lentamente, até mesmo ao ponto de desaparecer.  Recebia por isto o nome de lei do uso ou desuso;

- a segunda afirmava que qualquer ser poderia transmitir aos descendentes as características adquiridas segundo o uso ou desuso, sendo esta a lei da herança dos caracteres adquiridos.

Sua hipótese evolucionista era a de que então novas espécies surgiam por evolução como fruto da aquisição ou perda de caracteres.

Assim Lamarck explicava, por exemplo, o longo pescoço das girafas, que costumavam habitar áreas com solo mais seco e de pouco capim e que seriam então obrigadas a se alimentarem das folhas de árvores.  Isto parecia razoável, à época, já que sua primeira suposição mostrava-se válida: partes do corpo podem desenvolver-se mais ou menos, de acordo com o uso ou desuso, como no óbvio caso dos atletas.

Entretanto, sua segunda suposição, a herança de caracteres adquiridos, jamais pode ser verificada pelas incontáveis experiências efetuadas desde então: dentre elas, gerações de camundongos e cães com a cauda cortada mostraram-se incapazes de passar adiante esta característica adquirida.

Embora falho neste aspecto, o trabalho de Lamarck foi importante por chamar a atenção dos pesquisadores para a questão da adaptabilidade dos organismos ao ambiente em que vivem.

Este foi um dos pontos relevantes para Darwin em sua viagem pelo mundo: orientado pelo olhar geológico, indagava-se como teria sido a Terra antes, ao longo das eras, já que estava sempre a se transformar?  Seriam as formas vivas mantidas sempre como as atuais?  Teriam existido outras formas?

A realidade encontrada por Darwin, da exuberante diversidade da fauna e flora brasileiras aos fósseis desenterrados na Patagônia argentina, tudo imerso nas mais variadas feições geológicas, começava a lhe sugerir outra explicação para a origem das espécies.

Em sua autobiografia, Darwin escreveu: “Durante a viagem do Beagle fiquei profundamente impressionado com a descoberta feita nos pampas de grandes animais fósseis, cobertos por uma armadura semelhante à dos tatus atuais; em segundo lugar, com a maneira pela qual animais estreitamente relacionados substituem-se uns aos outros à medida que se segue para o sul do continente; e em terceiro lugar pelo caráter sul-americano da maioria dos seres do Arquipélago das Galápagos e, mais especialmente, pelo modo como eles diferem ligeiramente em cada ilha do grupo; nenhuma das ilhas me pareceu muito antiga do ponto de vista geológico.  Era evidente que fatos como esses, bem como muitos outros, poderiam ser explicados somente na suposição de que as espécies se modificam gradualmente; e este assunto fascinou-me.”

Um ano após seu retorno à Inglaterra, Darwin leu um trabalho de Thomas Malthus (1766-1834, inglês), economista, tratando de demografia (a dinâmica das populações humanas).

A hipótese de Malthus era a de que a população aumentaria muito mais rapidamente do que a quantidade de alimentos que ela poderia produzir.  Este descompasso causaria fome, levando à luta pela vida.

Válida ou não, ela sugeriu a Darwin um processo para a evolução.  Prosseguiu ele: “Em outubro de 1838, quinze meses após ter começado minha pesquisa sistemática, aconteceu-me de ler, para distração, o trabalho de Malthus sobre população e, estando bem preparado para apreciar a luta pela existência que ocorre em todo lugar, como mostraram as longas e contínuas observações dos hábitos dos animais e plantas, repentinamente ocorreu-me que, sob essas circunstâncias, variações favoráveis tenderiam a ser preservadas e as desfavoráveis a ser destruídas.  O resultado disso seria a formação de novas espécies.  Aqui tinha, finalmente, uma teoria pela qual trabalhar; mas estava tão ansioso por evitar as ideias preconcebidas que me propus não escrever, por algum tempo, mesmo o mais breve esquema sobre o assunto.”

O cuidado de Darwin, como veremos, era extremo.