O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (30)

Artigo 94, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mar 2014

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O receio de Darwin em divulgar suas descobertas sobre a origem e a evolução das espécies não era infundado.

Apesar de haver alcançado grande respeitabilidade por suas viagens, pesquisas e publicações, ele previa o impacto que sua principal obra provocaria até mesmo no meio científico.  As reações do poder estabelecido seriam então muito piores, pois vários dogmas viriam a ser abalados.

Lamarck já havia enfrentado forte oposição por conta de suas ideias evolucionistas; e parte delas de fato não se verificava.  A crença nas espécies imutáveis, todas advindas de um Criador, reagia com violência a qualquer outra explicação.

Curiosamente, mesmo tendo viajado por quase 5 anos no HMS Beagle ao redor do mundo, Darwin poderia ter observado o processo de evolução por seleção natural ocorrendo a pouca distância de onde partira, na própria Inglaterra.

Se há cerca de 150 anos atrás alguém passeasse durante o dia nos campos ao redor de Manchester, encontraria repousando sobre os troncos de árvores, então claros e cobertos de líquens, muitas mariposas claras (o líquen é uma combinação simbiótica entre fungos e algas; v. Ambientalismo e Desenvolvimento, Mar 2008).  Embora raras, mas facilmente detectáveis pelo contraste, encontraria ainda algumas mariposas escuras, da mesma espécie Biston betularia.

Manchester teve papel primordial na Revolução Industrial inglesa: ali funcionaram a primeira máquina têxtil a vapor e a primeira ferrovia para passageiros.  Sua industrialização crescente foi rapidamente alterando o aspecto dos campos e das florestas: fuligem e poluição enegreceram os troncos das árvores, eliminando os líquens.

Refazendo o passeio, agora muitas mariposas escuras seriam encontradas, sendo raras as claras.  Os pássaros facilmente se alimentariam das claras e teriam alguma dificuldade para achar as escuras.

Como Lamarck explicaria a mudança de coloração na população das mariposas?  Como Darwin a explicaria?

A hipótese lamarckiana diria que, como o ambiente se modificou, escurecendo as árvores, as mariposas necessitaram adquirir uma cor escura para se ocultarem dos pássaros.  Adquirindo gradativamente esta característica, depois a passaram às gerações seguintes.

A teoria darwinista da seleção natural dá uma explicação diversa: a fuligem mudou o ambiente, tornando-o mais escuro.  As mariposas claras passaram a ser mais facilmente encontradas pelos pássaros do que as escuras, que passaram a contar com esta vantagem em sua sobrevivência; assim, também em sua proliferação.  Seus descendentes escuros mantinham esta vantagem neste meio modificado, já os claros não.

As experiências de seguidores de Darwin, como Henry B.D. Kettlewell, na década de 1950, demonstraram que ele estava com a razão.  Em cerca de 100 anos esta espécie havia sido modificada pela seleção natural.

Para Lamarck, o ambiente causa as transformações; para Darwin, ele as seleciona.

Desta maneira, a hipótese da seleção natural de Darwin é hoje reconhecida como Teoria da Seleção Natural: ela descreve um processo pelo qual a evolução se dá, explica como uma espécie pode se originar de outra anterior e ainda como a diversidade (variedade de formas de vida) foi criada (os fósseis fornecem provas para a evolução).  Ela determinou mudanças na classificação biológica.

Um dos aspectos mais notáveis do trabalho de Darwin, ao lado da paciência e meticulosidade de seu empenho em levantar dados irrefutáveis, é que ele (como quase todos os cientistas de sua época) desconhecia os trabalhos de Mendel e a nascente genética.  Além disto, o estudo das células (citologia) ainda não havia revelado como elas se reproduzem, o estudo dos fósseis (paleontologia) mal começara e a matemática ainda não dispunha de métodos de análise para as questões da evolução.

Sua teoria, uma obra-prima de trabalho dedutivo, teria permanecido ainda por um tempo indefinido em lenta gestação até que Darwin se desse por satisfeito.  Porém, havia quem discordasse deste excesso de zelo.

Embora trabalhasse em sigilo, Darwin contava com a valiosa ajuda de amigos, todos eles pesquisadores, como Charles Lyell, seu grande incentivador, e Joseph Hooker (1817-1911, inglês), jovem botânico e naturalista que o apoiou decididamente.  A eles se juntaram Thomas Huxley (1825-1895, inglês, biólogo) e Asa Gray (1810-1888, estadunidense, botânico), ambos naturalistas.

A profícua troca de conhecimentos entre eles amadurecera também a confiança mútua; e todos insistiam com Darwin para que enfim publicasse seus trabalhos sobre evolução.

Alfred Wallace (1823-1913, galês), naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo (hoje conhecido como o fundador da Biogeografia), era um jovem pesquisador, com quem Darwin eventualmente passara a se corresponder, e Lyell e Hooker eram também seus amigos.   Em 1856, Wallace enviou a Lyell um de seus trabalhos sobre as espécies e sua evolução, para que o avaliasse.

Ao verificar a grande similitude entre o trabalho de Darwin e o de Wallace, que desejava publicá-lo, Lyell, sem revelar a questão, pressionou Darwin a se apressar.  Para ele, dois exímios pesquisadores haviam chegado às mesmas conclusões por caminhos diversos e independentes; mas um deles já trabalhava nisso há 20 anos.

O próprio Wallace encaminhou a Darwin, em 1857, uma consulta sobre evolução da espécie humana e, em 1858, durante uma pesquisa no arquipélago da Malásia, um artigo quase final em que propunha um processo evolutivo baseado em suas pesquisas, solicitando também que o encaminhasse a Lyell.

Embora Wallace não tivesse pedido, Darwin ofereceu-se para enviá-lo a uma revista para publicação. E então seus amigos decidiram que era chegado o momento de intervirem.

Lyell e Hooker, de comum acordo com os autores, fizeram a apresentação conjunta dos trabalhos à Linnean Society de Londres, em Julho de 1858.  Darwin e Wallace apoiavam-se mutuamente.

Escreveram todos, assim, um dos mais belos capítulos da história da ciência, exemplo de cooperação, de honestidade intelectual e de generosidade, espelho da reflexão feita há 500 anos pelo genial Leonardo da Vinci:

Pouco conhecimento faz com que as pessoas se sintam orgulhosas.  Muito conhecimento, que se sintam humildes.  É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o Céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe.”