O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (33)

Artigo 97, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jun 2014

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Erguer este quarto pilar em direção ao que havia para além do modo mecanicista de pensar e agir não era um trabalho simples.

A humanidade, em sua história milenar de relacionamentos com os fenômenos naturais, ao mesmo tempo temerosa e curiosa quanto à origem destes eventos, das coisas, dos seres e, afinal, de sua própria existência, sempre atribuiu esta origem a entes com poderes extraordinários de criação.

Como decorrência desta explicação fantástica para o mundo, viemos a desenvolver a ideia de que em nós há dois seres distintos: um concretamente dedicado a agir sobre a sobrevivência, caçando e construindo; outro voltado aos pensamentos e sonhos.  Um ser material, o corpo; outro ser ideal, espiritual, a alma.  Definia-se assim humanidade.

Após milhares de anos, o meditar sistemático a este respeito, a Filosofia, colocava-se uma questão que considerava essencial: o que determinaria nossa compreensão do mundo?  O pensamento, a ideia?  Ou a matéria, a realidade?

O embate entre fé e razão, em meados do século 19, assumia uma forma sofisticada.

O idealismo filosófico procurava explicar o mundo por meio das ideias, dos conceitos e pelo que entendia como “espírito”.  Assim, o mundo, os seres, as coisas, a existência, seriam produzidos e determinados pelos pensamentos, pelas ideias, pela consciência; se não existíssemos, a realidade também não teria existência.  Com origem nas formas mais primitivas de conhecimento (o sensorial e o imaginado), este era o fundamento do idealismo de então e das religiões.

Já o materialismo, em última instância, esforçava-se por ver o mundo “como ele é”, a partir da realidade material, em oposição ao idealismo, que tentava vê-lo “como deveria ser”, a partir de uma ideia dele ou, em seu pior caso, “como convinha ver”.

A trajetória do materialismo vinha de longe, desde os gregos Anaxágoras (500 a.C.-428 a.C.), Demócrito (460 a.C.-370 a.C.) e Epicuro (341 a.C.-270 a.C.), já aqui citados.

Progrediu entre Robert Grosseteste (1168-1253, inglês), Roger Bacon (1214-1294, inglês) e Duns Scot (1265-1308, escocês, filósofo e teólogo), este mentor de William de Ockham – para quem a Filosofia deveria libertar-se da Teologia.

Aprimorou-se em Francis Bacon (1561-1626, inglês), Thomas Hobbes (1588-1679, inglês) e John Locke (1632-1704, inglês), filósofo ideólogo do liberalismo, para quem os conhecimentos e as ideias têm a sua origem no mundo dos sentidos.

Friedrich Engels considerava a Inglaterra como berço do materialismo moderno, fundamentado, a partir do século 16, em indução, observação, análise, comparação e experimentação, a racionalidade aliada a nossos sentidos naturais.

Mas este era então um materialismo de concepção mecanicista e ainda teológico, encoberto muitas vezes por um autodenominado “agnosticismo” (“a impossibilidade de se conhecer o Criador” ou ainda o “não possuímos meios para provar ou refutar a existência de um ser supremo fora do universo por nós conhecido”), o que Engels viria futuramente a criticar, por mais que os admirasse, como “o materialismo envergonhado” praticado por Thomas Huxley e Charles Darwin.

O materialismo histórico de Engels defendia, como já escrevemos, “uma concepção da história que procura a causa primeira – e o grande motor de todos os acontecimentos históricos importantes – no desenvolvimento econômico da sociedade, na transformação dos modos de produção e troca, na divisão da sociedade em classes que daí resulta e nas lutas destas classes entre si”.

Engels diria, muitos anos depois, em 1876, que “o trabalho criou o Homem”, diferenciando-o dos demais primatas; e as relações envolvidas neste trabalho,

originariamente voltadas à sobrevivência, definiram suas sucessivas estruturas sociais.

O idealismo filosófico, que tão bem atendia aos interesses do capitalismo (o capitalismo liberal era para Hegel o ápice da História), via todas as espécies animais e vegetais como independentes umas das outras, mantendo para elas a concepção de Lineu: “Existem tantas espécies quantas o Ser supremo criou primitivamente".

Engels via isto como pura metafisica, sem apoio na realidade, porque desta forma o metafísico concebe as coisas e os conceitos como “objetos distintos, imutáveis, rígidos, criados uma vez por todas, e os examina um depois do outro e independentemente um do outro".

De maneira oposta, a dialética, para Engels, pondera as coisas e os conceitos “na sua conexão, no seu encadeamento, no seu movimento, no seu aparecimento e no seu desaparecimento".

Certamente o que Engels e Marx mais apreciavam em Darwin e seu trabalho, além do extremo rigor científico e esforço de décadas de pesquisas, era a demonstração de que a natureza tem sua história:

A natureza funciona dialeticamente e não metafisicamente... não se move na eterna unidade de um ciclo perpetuamente repetido, mas percorre uma verdadeira evolução histórica.  Aqui é necessário citar Darwin, em primeiro lugar.  Com sua prova de que toda a natureza orgânica existente, plantas e animais e, entre eles, como é lógico, o homem, é o produto de um processo de desenvolvimento de milhões de anos, Darwin desferiu o maior dos golpes na concepção metafísica da Natureza.

Após responder a Engels, em Dezembro de 1860, a respeito de sua leitura de “Sobre a Origem das Espécies”, de Darwin, que o amigo lhe enviara, Marx escrevia a Ferdinand Lassalle (1825-1864, alemão), jurista, filósofo, ativista político, também seu amigo, em Janeiro de 1861:

A obra de Darwin é notável, e convêm-me como base, do ponto de vista das ciências naturais, à luta de classes na história... Apesar de tudo o que tem de defeituosa, não somente dá o primeiro golpe mortal à “teleologia" nas ciências naturais, como estabelece, de maneira empírica, o sentido racional dessas ultimas."

Em nova carta a Engels, pouco depois, Marx faz uma crítica da sociedade vitoriana:

É notável como Darwin reconhece entre animais e plantas sua sociedade inglesa com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, 'invenções' e a 'luta pela existência' malthusiana. É o 'bellum omnium contra ommnes' (guerra de todos contra todos) de Hobbes, e lembra a Fenomenologia de Hegel onde a sociedade civil é descrita como um 'reino animal e espiritual', enquanto em Darwin o reino animal figura como sociedade civil.