O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (36)

Artigo 100, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Set 2014

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No final no século 19, as conquistas da razão e da ciência, sob o ponto de vista do capitalismo e seus grandes resultados materiais (e ainda, portanto, do modo mecanicista de ver o mundo), davam a falsa sensação de onipotência e de controle sobre a natureza.

Ideias, crenças, práticas e valores que atendiam às conveniências capitalistas eram cultivados e propagados como definitivos: o culto ao individualismo, a supremacia do papel do indivíduo nos destinos do mundo, a lei do mais forte na luta pela vida, o determinismo biológico, a evolução como evidência de superioridade, a supremacia de certas raças, a meritocracia, o domínio da natureza.

Também como consequência, conveniência e necessidade capitalistas, cidades proliferavam e inchavam com o excesso populacional, proporcionando aos capitalistas o necessário “exército de reserva” para o controle dos preços da mão de obra.

A História era tradicionalmente ensinada (e ainda, em geral, o é) como uma enfadonha e inútil sucessão de nomes, datas e fatos, efemérides desconexas sem significado algum senão o de marcos de uma estrada levando a lugar nenhum, um deserto de pleno autodesconhecimento; não exatamente um simples acidente de percurso ou esquecimento, mas sim um modo deliberado de proceder, tendo em vista um certo projeto de sociedade.

Depois dos trabalhos transformadores de Darwin, Engels, Marx e outros pensadores, havia novas e desafiadoras perguntas no ar: a sociedade é obra do homem?  O homem é obra da sociedade?  Qual o futuro da humanidade?

Se Newton, depois de Galileu, havia desbravado as relações entre os corpos no universo e descoberto as leis de uma mecânica celeste, Carnot, e depois Clausius, haviam demonstrado que a física termodinâmica apontava para algo mais complexo e mesmo irreversível nesse pretenso “mecanismo”.

Se Hutton e Lyell haviam ampliado a percepção do tempo para dimensões profundas e não humanas, indicando a antiguidade e a escala dos processos geológicos, Darwin e Wallace haviam aberto caminho para a compreensão da origem das espécies em nosso planeta, sua diversidade, sua antiguidade e as relações entre si e com o ambiente.

Se Engels e Marx haviam demonstrado os fundamentos das relações históricas, políticas e econômicas (e até mesmo culturais, abrindo trabalhos precursores da moderna antropologia – estudo da Humanidade como um todo) no desenvolvimento de nossa espécie, o H. sapiens, cabia agora a Freud abrir as veredas para começarmos a compreender outro infinito: o universo interior da mente humana; e ainda as razões íntimas das relações que são estabelecidas com outros indivíduos e com coletivos, os contatos e conexões estabelecidos entre os universos interior e exterior.

Sigmund Freud (1856-1939), médico neurologista, nascido no então império austríaco, criador do método investigativo e terapêutico que veio a ser conhecido como Psicanálise (em suas próprias palavras, “o trabalho pelo qual trazemos à consciência do doente o psíquico que há recalcado nele”), propiciou-nos, com seu intenso trabalho, o começo da percepção de o quanto o Homem desconhecia a si mesmo.

Uma de suas instigantes reflexões a respeito de certo mal-estar de nossa civilização nos diz:

É curioso como os homens, que tão mal sabem viver isolados, se sentem, no entanto, pesadamente oprimidos pelos sacrifícios que a civilização espera deles a fim de lhes possibilitar que vivam em comum.

.... A civilização é coisa imposta a uma maioria recalcitrante por uma minoria que descobriu como apropriar-se dos meios de poder e coação.

Todos os acontecimentos humanos são levados a efeito, realizados, por humanos, por ações humanas?

Qual o nosso papel nos acontecimentos do cotidiano?

Qual a importância que temos na ordem das coisas?

Qual o papel do indivíduo e dos coletivos, sejam estes grupos ou massas de indivíduos?

O que são as forças históricas, forças econômicas, forças culturais, forças psíquicas interiores?

Além da consciência individual, há uma consciência coletiva?

Há algo de não revelado, de inconsciente?

Em sua obra o Futuro de uma Ilusão, Freud avança sobre a questão do conhecimento e os véus interpostos à percepção da realidade:

Quando já se viveu por muito tempo numa civilização específica e com frequência se tentou descobrir quais foram as suas origens e ao longo de que caminho ela se desenvolveu, fica-se às vezes tentado a voltar o olhar para outra direção e indagar qual o destino que a espera e quais as transformações que está fadada a experimentar.

Logo, porém, se descobre que, desde o início, o valor de uma indagação desse tipo é diminuído por diversos fatores, sobretudo pelo fato de apenas poucas pessoas poderem abranger a atividade humana em toda a sua amplitude.  A maioria das pessoas foi obrigada a restringir-se a somente um ou a alguns dos seus campos.

Entretanto, quanto menos um homem conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro terá de mostrar-se o seu juízo sobre o futuro.

E há ainda uma outra dificuldade: a de que precisamente num juízo desse tipo as expectativas subjetivas do indivíduo desempenham um papel difícil de avaliar, mostrando ser dependentes de fatores puramente pessoais de sua própria experiência, do maior ou menor otimismo da sua atitude para com a vida, tal como lhe foi ditada pelo seu temperamento ou pelo seu sucesso ou fracasso.

Finalmente, faz-se sentir o fato curioso de que, em geral, as pessoas experimentam o seu presente de forma ingênua, por assim dizer, sem serem capazes de fazer uma estimativa sobre o seu conteúdo; têm primeiro de se colocar a uma certa distância dele: isto é, o presente tem de se tornar o passado para que possa produzir pontos de observação a partir dos quais elas julguem o futuro.