O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (37)

Artigo 101, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Out 2014

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Sigmund Freud (1856-1939) graduou-se em medicina, em 1881, já dedicado à fisiologia; resumidamente, esta é o estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, dos processos físico-químicos nas células, nos tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos considerados sadios.

Ao estudar a anatomia e a histologia (forma, estrutura e função dos tecidos vivos) do cérebro humano, observou semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a de répteis, tornando-se aí íntimo dos trabalhos desenvolvidos por Darwin.

O desejo de realizar o casamento com sua noiva Martha Bernays e a necessidade de provimento do lar o levaram a trabalhar no principal hospital de Viena, onde passou por diversos departamentos.

Depois de estudos frustrados sobre os efeitos terapêuticos da cocaína, principal antidepressivo usado à época em hospitais, a que se juntou a morte de um amigo por overdose, Freud licenciou-se por um tempo para trabalhar na França, com Charcot, médico neurologista e psiquiatra que estudava casos de histeria e em seu tratamento empregava a hipnose terapêutica.

Freud pode observar o sucesso deste método nos pacientes tratados por Jean-Martin Charcot (1825-1893, francês), um dos fundadores da moderna neurologia, tendo sido seu aluno nessa estadia.  Propôs então a hipótese de que a origem desta doença seria psicológica, não somática (orgânica).

No retorno ao hospital em Viena, animado com os métodos de Charcot, passou a atender muitas jovens senhoras com sintomas como cegueira parcial, perda de controle motor, paralisia ou alucinações que não eram diagnosticáveis pelos exames comuns.  O tratamento para isto, à época, envolvia massagens, repouso e hipnose.

Nestes estudos iniciais com o uso da hipnose, Freud percebia um caminho para ter acesso interior ao conteúdo psíquico de pacientes nos casos de tratamento de histeria.

Ao final de 1886, casou-se enfim com Marta, ajudado financeiramente por alguns amigos, entre eles Josef Breuer, amigo desde a universidade.

Breuer tornou-se particularmente importante em seu trabalho, pois foi como decorrência de suas discussões de casos clínicos que surgiram as ideias que resultaram em seus primeiros trabalhos e publicações sobre o que viria a ser a psicanálise.

Freud então vai gradativamente abandonando a hipnose em favor de um novo método aplicado pioneiramente no caso de Bertha Pappenheim, que apresentava os sintomas clássicos de histeria.  Este método foi inicialmente chamado de “cura pela fala”, “cura catártica”, sua técnica central, em que o paciente fala livremente com o terapeuta sobre as associações que mentalmente faz com cada sintoma apresentado, de maneira a que, no processo, estes venham a desaparecer.

Freud e Breuer discordavam fortemente num ponto, o que acabou produzindo seu afastamento: Freud nutria a suposição de que memórias ocultas ou reprimidas, que estavam na base dos sintomas de histeria, seriam sempre de natureza sexual.

As novas ideias e trabalhos introduzidos por Freud foram, como soe acontecer, marginalizados pelo mundo médico, em que não encontrava apoio ou repercussão.  Freud dedicou-se então nos anos seguintes, e especialmente a partir do falecimento de seu pai,

a registrar e analisar os próprios sonhos, associando-os a fatos resgatados de sua infância, num processo analítico em que buscava identificar as raízes de suas próprias neuroses.

Este esforço tornou-se a fonte de uma de suas principais obras, A Interpretação dos Sonhos, que mais adiante o levaria a conceber um dos conceitos centrais em seus trabalhos, conhecido como Complexo de Édipo.

Nos fundamentos de sua investigação, como atitude científica, Sigmund Freud realizou um percurso e um trabalho geniais: ao invés de investigar a neurose a partir de um conceito e uma posição de “normalidade”, procurou deter-se sobre o que seria considerado a patologia (o “desvio” da normalidade) e compreendê-la, para então voltar-se em busca do que seria considerado “normal” ou “sadio”.

Era, mais uma vez, um exemplo do embate entre uma visão idealista de realidade e uma conduta científica: o idealismo filosófico projetaria antes de mais nada a imagem do que seria “normal” para a partir dela identificar o que seria considerado patológico.

Como lucidamente nos aponta o Prof. Vladimir Safatle, um dos coordenadores do Laboratório de Estudos em Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, em seu artigo Freud e a Teoria Social:

“...longe de se colocar apenas como uma clínica do sofrimento psíquico, a psicanálise freudiana procurou, desde seu início, ser reconhecida também como teoria das produções culturais para desvendar a maneira com que sujeitos mobilizam sistemas de crenças, afetos, desejos e interesses para legitimar modos de integração a vínculos sociopolíticos.  Freud afirmava que "mesmo a sociologia, que trata do comportamento dos homens em sociedade, não pode ser nada mais que psicologia aplicada.  Em última instância, só há duas ciências, a psicologia, pura e aplicada, e a ciência da natureza".”

Havia também, como veremos, a partir das motivações individuais, muitas implicações sociais.

No dizer de Freud: O selvagem, como o animal, é cruel, mas não tem a maldade do homem civilizado.  A maldade é a vingança do homem contra a sociedade, pelas restrições que ela impõe.  As mais desagradáveis características do homem são geradas por esse ajustamento precário a uma civilização complicada.  É o resultado do conflito entre nossos instintos e nossa cultura.