O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (39)

Artigo 103, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Dez 2014

© 2005-2017 Fabio Ortiz Jr

 

Prosseguindo em sua série de conferências, que foram depois, em 1910, condensadas na obra Cinco Lições de Psicanálise, Freud mostrou que com frequência o chiste era a expressão de uma ofensa ou crítica velada, dada a repressão do autor sobre seu impulso original.

Por tal razão o crítico atira indiretamente a ofensa que estava ruminando, transfigurando-a numa "alusão com desabafo".  É, a nosso ver, devido à mesma constelação que o paciente produz uma ideia de substituição, mais ou menos distorcida, em lugar do elemento esquecido que procuramos.”

Como decorrência de A Interpretação dos Sonhos, de 1899, ele considerava o processo substitutivo de criação das piadas tão importante que lhe havia dedicado um estudo profundo, ao final resultante na obra Os Chistes e sua Relação com o Inconsciente, em 1905.

Freud diferenciava chiste (“gracejo”, em alemão; uma ideia recalcada no inconsciente que força passagem, surgindo pronta na consciência), utilizado para se dizer em tom de brincadeira o que na verdade se deseja, de humor, em que “a produção do prazer humorístico surge de uma economia de gasto em relação ao sentimento”, a que dedicou um texto específico em 1927.

O humor, para ele, “reside claramente no triunfo do narcisismo, na afirmação vitoriosa da invulnerabilidade do ego.  O ego se recusa a ser afligido pelas provocações da realidade, a permitir que seja compelido a sofrer.  Insiste em que não pode ser afetado pelos traumas do mundo externo; demonstra, na verdade, que esses traumas para ele não passam de ocasiões para obter prazer.  Esse último aspecto constitui um elemento inteiramente essencial do humor”.

Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outros), convém dar o nome de "complexo" a um grupo de elementos ideacionais interdependentes, catexizados (concentrados numa representação bem precisa) de energia afetiva.  Vemos assim que partindo da última recordação que o doente ainda possui, em busca de um complexo reprimido, temos toda a probabilidade de desvendá-lo, desde que o doente nos proporcione um número suficiente de associações livres.  Mandamos o doente dizer o que quiser, cônscios de que nada lhe ocorrerá à mente senão aquilo que indiretamente dependa do complexo procurado”.

O tratamento terapêutico era fundamentalmente apoiado pela riqueza de livres associações mentais que o paciente proporcionava ao psicanalista, sempre, de uma forma ou de outra, relacionadas às suas aflições, método que Freud apontou como aperfeiçoado por seu aluno Jung.  Era sobre esse “minério” emocional que o psicanalista se detinha para dele extrair o precioso caminho para a cura.

Ele não o via, contudo, como exclusivo: “Não é o estudo das divagações, quando o paciente se sujeita às regras

psicanalíticas, o único recurso técnico para sondagem do inconsciente.  Ao mesmo escopo servem dois outros processos: a interpretação de sonhos e o estudo dos lapsos e atos casuais...  A interpretação de sonhos é na realidade a estrada real para o conhecimento do inconsciente, a base mais segura da psicanálise.”

A razão disto é hoje óbvia: é durante o sonho que o inconsciente pode talvez livremente manifestar-se, sem que a repressão do consciente o considere tolo, absurdo ou descabido.  A distância aparente entre o “conteúdo manifesto do sonho” (mera lembrança e descrição) e “os pensamentos latentes do sonho” (desejo inconsciente) será tanto maior quanto mais desenvolvida estiver a deformação produzida pela resistência consciente, “as forças defensivas do ego”.

Em suas palavras, “pela análise dos sonhos descobre-se o papel importantíssimo e nunca imaginado que os fatos e impressões da tenra infância exercem no desenvolvimento do homem.  Na vida onírica (sonho ou fantasia) a criança prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis.  Com força irresistível são apresentados os processos de desenvolvimento, repressões, sublimações e formações reativas, de onde saiu, da criança com tão diferentes disposições, o chamado homem normal — esteio e em parte vítima da civilização tão penosamente alcançada.”

Freud reportou-se, a seguir, a um resumo do que denominou lapso ou “ato falho”, aquele fenômeno psíquico corriqueiro, e comum a todas as pessoas, representado por “pequenas falhas a que não se costuma dar importância: o esquecimento de coisas que se sabe, como nomes próprios, lapsos de linguagem na escrita ou na leitura em voz alta, trapalhadas ao executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos,... (e mesmo) atos e gestos inconscientes como cantarolar melodias, brincar com objetos, partes da roupa ou do próprio corpo”.

Porém, esclareceu, “essas coisinhas, os atos falhos, como os sintomáticos e fortuitos, não são assim tão destituídas de valor, como, por uma espécie de acordo tácito, é hábito admitir.  São extraordinariamente significativas e quase sempre de interpretação fácil e segura, tendo-se em vista a situação em que ocorrem; verifica-se que mais uma vez exprimem impulsos e intenções que devem ficar ocultos à própria consciência, ou emanam justamente dos desejos reprimidos e dos complexos que, como já sabemos, são criadores dos sintomas e formadores dos sonhos.  Fazem jus à mesma consideração que os sintomas, e o seu exame, tanto quanto o dos sonhos, pode levar ao descobrimento da parte oculta da mente.  Por elas o homem trai, em regra, os mais íntimos segredos.”

Observou que para o (ou a) psicanalista “não existe nada insignificante, arbitrário ou casual nas manifestações psíquicas”.  Ele (ou ela) “antevê um motivo suficiente em toda parte onde habitualmente ninguém pensa nisso; está até disposto a aceitar causas múltiplas para o mesmo efeito, enquanto nossa necessidade causal (o senso comum), que supomos inata, se satisfaz plenamente com uma única causa psíquica.”

Este último estudo em particular resultou na obra A Psicopatologia da Vida Cotidiana, de 1901, por ele expressamente idealizada e escrita tendo em vista o leitor comum e um material preliminar à introdução nas descobertas da psicanálise.