O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (40)

Artigo 104, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jan 2015

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O último tema abordado por Freud nestas conferências em 1909 era por ele sabidamente delicado, passível de despertar as mais iradas reações – em parte por tratar-se do público norte-americano, tão pudico e moralista, mas – principalmente pela aparente precocidade com que ele se manifesta na vida: a sexualidade humana, despontada já em tenra infância.

Explicou que “o exame psicanalítico relaciona com uma regularidade verdadeiramente surpreendente os sintomas mórbidos a impressões da vida erótica do doente, mostra-nos que os desejos patogênicos são da natureza dos componentes instintivos eróticos; e obriga-nos a admitir que as perturbações do erotismo têm a maior importância entre as influências que levam à moléstia, tanto num como noutro sexo.

...outras excitações mentais... a experiência mostra que elas não têm a mesma importância.  Quando muito, reforçam a ação do elemento sexual, mas nunca podem substituí-lo.

...O modo de proceder dos doentes em nada facilita o reconhecimento da justeza da tese a que estamos aludindo.  Em vez de nos fornecerem prontamente informações sobre a sua vida sexual, procuram por todos os meios ocultá-la...  Não expõem a sua sexualidade francamente, para se resguardarem, como se reinasse um temporal terrível no mundo da sexualidade.  E não deixam de ter razão; o sol e o ar em nosso mundo civilizado não são realmente favoráveis à atividade sexual.  Com efeito, nenhum de nós pode manifestar o seu erotismo francamente à turba.  Quando, porém, seus pacientes tiverem percebido que durante o tratamento devem estar à vontade, se despojarão daquele manto de mentira.

O texto de Freud é aí autoexplicativo:

O trabalho de análise necessário para o esclarecimento completo e cura definitiva de um caso mórbido não se detém nos episódios contemporâneos da doença; retrocede sempre, em qualquer hipótese, até a puberdade e a mais remota infância do doente, para só aí topar as impressões e acontecimentos determinantes da doença ulterior.  Só os fatos da infância explicam a sensibilidade aos traumatismos futuros e só com o descobrimento desses restos de lembranças, quase regularmente olvidados, e com a volta deles à consciência, é que adquirimos o poder de afastar os sintomas.  Chegamos aqui à mesma conclusão do exame de sonhos, isto é, que foram os desejos duradouros e reprimidos da infância que emprestaram à formação dos sintomas a força sem a qual teria decorrido normalmente a reação contra traumatismos posteriores.  Estes potentes desejos da infância hão de ser reconhecidos, porém, em sua absoluta generalidade, como sexuais.

...A criança possui, desde o princípio, o instinto e as atividades sexuais.  Ela os traz consigo para o mundo, e deles provêm, através de uma evolução rica de etapas, a chamada sexualidade normal do adulto.  Não são difíceis de observar as manifestações da atividade sexual infantil; ao contrário, para deixá-las passar despercebidas ou incompreendidas é que é preciso certa arte.

Já antes da puberdade, sob o influxo de educação, certos impulsos são submetidos a repressões extremamente enérgicas, ao mesmo passo que surgem forças mentais — o pejo, a repugnância, a moral — que como sentinelas mantêm as aludidas repressões.  Chegando na puberdade a maré das necessidades sexuais, ela encontra nas mencionadas reações psíquicas diques de resistência que lhe conduzem a corrente pelos caminhos chamados normais e lhe impedem reviver os impulsos reprimidos.

...Um princípio de patologia geral afirma que todo processo evolutivo traz em si os germes de uma disposição patológica e pode ser inibido ou retardado ou desenvolver-se incompletamente.  Isto vale para o tão complicado desenvolvimento da função sexual que nem em todos os indivíduos se desenrola sem incidentes que deixem após si ou anormalidade ou disposições a doenças futuras por meio de uma regressão.  Pode suceder que nem todos os impulsos parciais se sujeitem à soberania da zona genital; o que ficou independente estabelece o que chamamos perversão e pode substituir a finalidade sexual normal pela sua própria.

...Esta série de distúrbios corresponde a entraves diretos no desenvolvimento da função sexual: abrange as perversões e o nada raro infantilismo geral da vida sexual.

A propensão à neurose deve provir por outra maneira de uma perturbação do desenvolvimento sexual.  As neuroses são para as perversões o que o negativo é para o positivo.  Como nas perversões, evidenciam-se nelas os mesmos componentes instintivos que mantêm os complexos e são os formadores de sintomas; mas aqui eles agem do inconsciente, onde puderam firmar-se apesar da repressão sofrida.  A psicanálise nos mostra que a manifestação excessivamente intensa e prematura desses impulsos conduz a uma espécie de fixação parcial — ponto fraco na estrutura da função sexual.  Se o exercício da capacidade genética normal encontra no adulto um obstáculo, rompe-se a repressão da fase do desenvolvimento justamente naquele ponto em que se deu a fixação infantil.

...Vemos que os indivíduos adoecem quando, por obstáculos exteriores ou ausência de adaptação interna lhes falta na realidade a satisfação das necessidades sexuais. Observamos que então se refugiam na moléstia, para com o auxílio dela encontrar uma satisfação substitutiva...  No distanciar da realidade reconhecemos também a tendência principal e ao mesmo tempo o dano capital do estado patológico... Não somente o ego do doente se recusa a desfazer a repressão por meio da qual se esquivou de suas disposições originárias, como também pode o instinto sexual não renunciar à satisfação vicariante enquanto houver dúvida de que a realidade lhe ofereça algo melhor.

A fuga — da realidade insatisfatória para aquilo que, pelos danos biológicos que produz, chamamos doença — não deixa jamais de proporcionar ao doente um prazer imediato; ela se dá pelo caminho da regressão às primeiras fases da vida sexual a que na época própria não faltou satisfação.  Esta regressão mostra-se sob dois aspectos: temporal, porque a libido, na necessidade erótica, volta a fixar-se aos mais remotos estados evolutivos, e formal, porque emprega os meios psíquicos originários e primitivos para manifestação da mesma necessidade.  Sob ambos os aspectos a regressão orienta-se para a infância, restabelecendo um estado infantil da vida sexual.

...Hão de notar que nós, os homens, com as elevadas aspirações de nossa cultura e sob a pressão das íntimas repressões, achamos a realidade de todo insatisfatória e por isso mantemos uma vida de fantasia onde nos comprazemos em compensar as deficiências da realidade, engendrando realizações de desejos.

...O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos no ar.  Quando esse resultado não é atingido, seja por oposição do mundo exterior, seja por fraqueza do indivíduo, este se desprende da realidade, recolhendo-se aonde pode gozar, isto é, ao seu mundo de fantasia, cujo conteúdo, no caso de moléstia, se transforma em sintoma.

As consequências disto para o indivíduo e para a coletividade têm, ao longo destas últimas dezenas de milhares de anos, reunido e acumulado resultados dramáticos; e nefastos.

Como disse Freud, “não vejo mérito algum em se ter vergonha da sexualidade.”