O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (41)

Artigo 105, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Fev 2015

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Uma das primeiras abordagens de Freud sobre o modo de operação de nossa estrutura mental levou-o, como já vimos, a considerar níveis de consciência: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente, tendo assim criado um consistente ponto de observação no estudo dos sintomas psicossomáticos da então chamada histeria.

A imagem do iceberg, com a maior parte de seu corpo submersa e não visível, é útil e clara: o consciente corresponde à parte visível; o inconsciente (a quase totalidade do iceberg), à parte submersa.

Sem descartar esta interpretação, Freud viu-se, entretanto, compelido a aprofundá-la ao analisar o processo da repressão.  Observou aí uma grande oportunidade de conhecer o inconsciente, pois percebia que os seres humanos tendem a nele confinar os sentimentos, pensamentos e experiências desagradáveis ou dolorosos que não conseguem suportar ou superar.  Como estes não podem ser expulsos da mente, são banidos para o inconsciente.

Em sua jornada para desvendar o que nomeava como ‘aparelho psíquico’ humano (a psique), propôs uma sequência de hipóteses, sem que a nova hipótese rejeitasse a anterior.

Sua primeira hipótese considerava o ser humano como um sistema de energia, sendo cada pessoa animada por uma limitada energia psíquica.  Assim, se grande parte da energia é necessária para a realização de um objetivo, ela não estará disponível para outros objetivos; e, ainda, se não se puder dar vazão à energia por um canal, ela terá que se dar por outro.  Recebeu, por isto, o nome de hipótese econômica.

Essa energia, na visão freudiana, vem de duas pulsões inatas do ser humano: a sexual e a de morte, que se opõem ao ideal de sociedade e precisam, portanto, ser controladas por meio da educação, função da sociedade para atenuá-las.  Desta maneira, o não poder dar vazão absoluta (direta) a essa energia cria um estado de tensão interna a ser resolvido, já que as ações humanas são motivadas, em sua origem, pela busca hedonista (o prazer como estilo de vida).

A hipótese seguinte, já apontada acima, era a que buscava localizar as atividades mentais, esse processo de geração e liberação de energia, em partes do ‘aparelho’ ou níveis: consciente (que percebe os fenômenos do entorno em determinado momento), pré-consciente (que, deslocado do que é consciente, só se aperceberá dos fenômenos do entorno se a pessoa decidir-se por lhes dar atenção) e inconsciente (que apenas em condições muito específicas poderá trazer os fenômenos à consciência).  Foi nomeada, assim, hipótese topográfica.

O inconsciente aqui desempenha um importante papel de estabilização da vida cotidiana, a vida consciente, pois não estamos naturalmente preparados para lidarmos com

toda a pressão do ambiente o tempo todo.  Os sonhos são vistos como expressão simbólica dos conteúdos inconscientes.

Freud propôs ainda que o inconsciente é alógico (passível de contradições), atemporal e aespacial (conteúdos de épocas ou espaços diferentes podem estar próximos).  É assim que o conteúdo inconsciente pode afetar a experiência consciente por meio de atos falhos, irracionalidade, emoções inexplicáveis, medo, depressão, sentimento de culpa; sentimentos, sonhos, desejos e motivos inconscientes podem vir a dirigir o comportamento consciente.

Em sua terceira hipótese, examinando mais profundamente como se dava o processo da repressão, Freud identificou enfim três campos funcionais na mente, compondo uma estrutura bem articulada: id, ego, superego, cada um com funções distintas.  Recebeu o nome de hipótese estrutural, a mais elaborada dentre elas.

Ao id está associada a energia psíquica, a libido, constituindo o reservatório das pulsões e dos processos primitivos do pensamento, fonte de toda energia inerente à atividade humana; instintos, impulsos orgânicos e desejos inconscientes estão a ele associados, que opera conforme o princípio do prazer e evita o que é adverso.  O id, plenamente inconsciente, é cego, irracional, exigente e desconhece realidade, inibição, lógica, planos ou valores; é básico na personalidade, sendo inato e hereditário, mas em parte também é adquirido e recalcado.

Já o ego, desenvolvido a partir do id, alcança a consciência, leva em conta o mundo externo de forma a possibilitar que os impulsos se realizem e se constitui por meio das experiências; usa o princípio da realidade, que admite a razão, o planejamento e a espera, que retardam a satisfação das pulsões até que o mundo real lhe possibilite realizá-las com um máximo de prazer e um mínimo de reações adversas.  O ego busca harmonizar os desejos do id com a realidade e, depois, com as exigências do superego, mas grande parte de sua operação é inconsciente.

O superego é para Freud o campo moral da psique humana, representante dos valores morais e éticos da sociedade internalizados, um conjunto de forças inibidoras desenvolvidas sob influência da educação no processo de socialização e que tem por objetivos:

- inibir impulsos contrários às regras por ele ditadas, seja por meio de punição ou sentimento de culpa,

- forçar o ego a se comportar de maneira moral, ainda que irracional, e

- conduzir o indivíduo à perfeição, seja em gestos, pensamentos ou palavras.

É estruturado em dois subsistemas, a saber, o ego ideal, a ditar o bem a ser procurado, e a consciência, a determinar o mal a ser evitado.

Formado depois do ego, no esforço da criança por internalizar os valores recebidos dos pais e da sociedade, a fim de receber amor e afeição, o superego pode vir a operar rusticamente e caracterizar-se pelo pensamento dualista, sem meio-termo, baseado no tudo ou nada, certo ou errado.  Nem sempre é consciente: valores e ideais podem ser despercebidos pelo eu (ego) consciente.  Psicopatas têm id dominante e um superego reduzido, a alteridade (empatia pelo próximo) ausente, desconhecem o remorso e a consciência moral.