O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (42)

Artigo 106, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mar 2015

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Um dos aspectos mais importantes do trabalho de  Freud foi o reconhecimento de duas pulsões humanas antagônicas: a primeira, voltada para a criação e preservação da vida, uma pulsão sexual; a segunda, que aponta para a destruição, negação ou segregação do que vive, uma pulsão de morte.

Recorrendo à exuberante simbologia da mitologia grega, em suas obras Mais Além do Princípio do Prazer (1920) e O Mal-Estar na Civilização (1930),  Freud associou o impulso criativo à imagem de Eros, deus do amor (Cupido, na mitologia romana), e o impulso destrutivo a Tânatos, deus da morte (Letum, para os romanos).

Em suas palavras, “...concluí que, ao lado do instinto para preservar a substância viva e para reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário àquele, buscando dissolver essas unidades e conduzi-las de volta a seu estado primevo e inorgânico.  Isso equivalia a dizer que, assim como Eros, existia também um instinto de morte.  Os fenômenos da vida podiam ser explicados pela ação concorrente, ou mutuamente oposta, desses dois instintos”.

Assim, estas pulsões não se isolam, antes trabalham juntas, como no ato de se alimentar, onde, para que a vida prossiga, algo tem que ser consumido.  E, como ele e Jung observaram, elas não se atêm aos indivíduos, podem ser observadas também nas coletividades, consciente ou inconscientemente, já que “a civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade”.

A simbologia da luta entre Eros e o instinto de morte, prossegue Freud, “foi não só empregada para caracterizar o processo de civilização que a humanidade sofre, mas também vinculada ao desenvolvimento do indivíduo e, além disso, dela se disse que revelou o segredo da vida orgânica em geral.  Acho que não podemos deixar de penetrar nas relações existentes entre esses três processos.  A repetição da mesma fórmula se justifica pela consideração de que tanto o processo da civilização humana quanto o do desenvolvimento do indivíduo são também processos vitais – o que equivale a dizer que devem partilhar a mesma característica mais geral da vida”.

Dialeticamente, nestas pulsões, Eros e Tânatos, o princípio e o fim, é sempre recomeço.  Nada mais  irônico e dramático que a imagem de Eros 'matando' Tânatos.

Em 1931, a Liga das Nações (antecessora da ONU), preocupada com os desdobramentos da Primeira Guerra Mundial, convidou alguns pensadores a trocarem ideias a respeito.  As cartas sob o tema 'Por que a Guerra?', essa nossa suprema estupidez, foram o resultado da breve troca de correspondências entre Albert Einstein e, por indicação deste, Sigmund Freud.

O trabalho de Freud foi inovador em dois campos, erigindo este quinto pilar em nossa jornada pelo conhecimento científico: desenvolveu uma teoria da mente e conduta humanas e também uma técnica terapêutica em seu socorro.  Tratou não só  da psicologia; enveredou também pelo âmbito da sociologia e da antropologia, investigando em profundidade as raízes da infelicidade humana, o

conflito entre instintos e cultura, a maneira como isto se dá na moderna civilização.  Como bem definiu o historiador Peter Gay, a obra de Freud criou uma teoria psicanalítica da política.

No dizer do Prof. Vladimir Safatle, “não se trata de reduzir a dimensão do social ao psicológico.  Na verdade, esse recurso à psicanálise apenas realizava a intuição do sociólogo alemão Max Weber a respeito da necessidade de explicar como a racionalidade dos vínculos sociais depende fundamentalmente da disposição dos sujeitos em adotar certos tipos de conduta.

Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber lembrava como a racionalidade econômica do capitalismo dependia fundamentalmente da disposição dos sujeitos em adotar os tipos de conduta ligados a um modo de ser que remetia à ética protestante do trabalho e da convicção, estranha ao cálculo utilitarista, e cuja gênese deve ser procurada no calvinismo.

Sem essa ética internalizada, os sujeitos nunca desenvolveriam disposições para trabalhar, poupar e acumular do modo que o capitalismo exigia.

No caso de Freud, essa análise das disposições individuais nascia de uma maneira peculiar. ... O que não poderia ser diferente para alguém que acreditava que a conduta patológica expõe, de maneira ampliada, o que está realmente em jogo no processo de formação das condutas sociais gerais.

Freud nunca cansou de lembrar que “um ser humano se torna neurótico por não poder suportar a frustração imposta pela sociedade com seus ideais culturais”, sem que essa impossibilidade o leve ao ponto de negar todo e qualquer interesse por tais ideais.

...Nesse sentido, podemos dizer que o recurso a Freud nos permite compreender que uma crítica social é indissociável da análise dos procedimentos de socialização que visam conformar sujeitos a formas de vida aspirantes a uma validade que não se reduz apenas aos domínios da tradição e do hábito.”

No alerta de Freud, “grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente, ou seja, um compromisso que traga felicidade entre reivindicações individuais e culturais; e um problema que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal compromisso pode ser alcançado por meio de uma determinada formação da civilização ou se o conflito é irreconciliável”.

Em O Futuro de Uma Ilusão, Freud dá-nos a  entender que a juventude atual (e talvez de todas as épocas) não é rebelde, alienada ou descomprometida por acaso: sente-se enganada.