O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (43)

Artigo 107, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Abr 2015

© 2005-2017 Fabio Ortiz Jr

 

A compreensão da importância do trabalho de Sigmund Freud, em nossa incursão pelo processo do conhecimento, repousa na descoberta de nosso universo interior, as forças em ação e, portanto, a maneira como vemos e interagimos com o que nos rodeia.  É sobre o que somos e o que fazemos com aquilo que somos.

"Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais sobre Pedro do que sobre Paulo...”, ensinava Freud, que afirmava existirem “infinitamente mais homens que aceitam a civilização como hipócritas do que homens verdadeira e realmente civilizados, e é lícito até perguntarmo-nos se um certo grau de hipocrisia não será necessário à manutenção e à conservação da civilização, dado o reduzido número de homens nos quais a tendência para a vida civilizada se tornou uma propriedade orgânica”.

Sua obra O Mal Estar na Civilização esclarece:

Caso se exija demais de um homem, produzir-se-á nele uma revolta ou uma neurose, ou ele se tornará infeliz.

O mandamento ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo’ constitui a defesa mais forte contra a agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do superego cultural.

É impossível cumprir esse mandamento; uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor, sem se livrar da dificuldade.  A civilização não presta atenção a tudo isso; ela meramente nos adverte que quanto mais difícil é obedecer ao preceito, mais meritório é proceder assim.

Contudo, todo aquele que, na civilização atual, siga tal preceito, só se coloca em desvantagem frente à pessoa que despreza esse mesmo preceito.

Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade!

A ética ‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros.

Nesse ponto, a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte.

Enquanto, porém, a virtude não for recompensada aqui na Terra, a ética, imagino eu, pregará em vão.

Acho também bastante certo que, nesse sentido, uma mudança real nas relações dos seres humanos com a propriedade seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens éticas; mas o reconhecimento desse fato entre os socialistas foi obscurecido, e tornado inútil para fins práticos, por uma nova e idealista concepção equivocada da natureza humana.

É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação – isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida.

...A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição.

Talvez, precisamente com relação a isso, a época atual mereça um interesse especial.

Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem.

Sabem disso, e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade.

Agora só nos resta esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestes’, o eterno Eros, desdobre suas forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário.

Mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado?

Lembremos nesta altura que, ao iniciarmos esta nossa segunda jornada, em Fevereiro de 2010, dizia-se do absurdo de apenas 10% da população mundial possuírem a mesma riqueza (ou talvez mais) que os demais 90%.  No percurso, escandalizamo-nos com a constatação de que isto “evoluíra” para que apenas 1% detivessem o mesmo que os demais 99% da população.

Decorridos menos de 5 anos, chegamos ao paroxismo inacreditável: apenas 85 indivíduos detêm mais recursos que a metade "de baixo" da humanidade!  Somos mais de 7 bilhões de seres humanos e hoje os 85 indivíduos mais ricos controlam o mundo de mazelas produzido por essa concentração de riqueza e poder mundial.

Em apenas uma região do mundo esta tendência atenuou-se: a América Latina, conduzida em grande parte por governos trabalhistas e progressistas, em que a desigualdade de renda, entre 2002 e 2013, diminuiu.

Na visão de Arnold J. Toynbee (1889-1975, inglês), historiador célebre, “a civilização é um movimento, e não uma condição. Uma viagem, e não o porto de destino.”

Como já dito no início, trata-se do que somos e o que fazemos com o que somos; e, como Freud afirma, “a inteligência é o único meio que possuímos para dominar nossos instintos”.

Depois dos trabalhos de Carnot e Clausius (a termodinâmica e a irreversibilidade dos fenômenos), de Hutton e Lyell (o tempo e a escala dos processos geológicos), de Darwin e Wallace (a origem das espécies, sua diversidade e interdependência) e de Marx e Engels (as relações históricas, políticas e econômicas da Humanidade), este é o quinto pilar em nossa jornada pelo processo do conhecimento e o método científico, a ver o que mais havia para além do modo mecanicista de pensar e praticar o mundo.

Estes cinco pilares sustentam o portal que nos permite indagar para além, para outros limites e limiares: é o ponto de chegada para uma nova partida, desafiadora, que nos aproximará ainda mais da realidade em que somos imersos e de que fazemos parte.

É a perspectiva e o início de ora nossa terceira caminhada, uma jornada pela complexidade.

Como já dissemos no artigo O Compreender (Mai 2009), “um dos maiores valores do conhecimento é o fato dele nos tornar próximos da ação correta, para que percebamos os avisos de incêndio e para que sejamos iluminados não pelo fogo de nossas inconsequências, mas pelo brilho da verdade”.