O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - conhecimento

Artigo 63, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Ago 2011

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Em nossa jornada em direção ao conhecimento, como vimos, na transformação de sinal até a criação de informação há um intenso trabalho humano envolvido: um sinal é convertido em dado pela ação de um observador atento, que o captou; ao agregar valor ao dado (ou dados), comparando-o a outros e gerando um processo de articulação entre eles (contextualização e interpretação), este observador produz o que chamamos de informação, que poderá lhe ser útil para tomada de decisão e início de uma ação.

Retornando ao caso do salvamento pelos rapazes salva-vidas (que propiciou-me continuar vivo e ainda um imenso aprendizado), o sinal percebido por eles imediatamente passou a dado e então, no contexto, em informação útil para decisão e ação imediatas.  A informação modelou-os no sentido de fazer alguma diferença em sua perspectiva ou insight.  Eles é que decidiram que a mensagem recebida constituía informação, pois eles lhe atribuíram um real significado; dados tornaram-se informação porque os seus criadores, os receptores dos sinais, agregaram-lhes significado.

Conhecimento, no dizer de Davenport, é uma “mistura fluida de experiência condensada, valores, informação contextual e insight experimentado, combinação que proporciona uma estrutura [mental] para a avaliação e incorporação de novas experiências e informações”.

O conhecimento se produz em mentes que trabalham.  Ele existe nas pessoas, faz parte da complexidade do ser humano.  Nas organizações tradicionalmente pensa-se em ativos, bens, como algo definível e concreto; entretanto, os ativos do conhecimento são muito mais difíceis de serem reconhecidos e valorizados.

O conhecimento tem origem, é gestado e aplicado na mente dos conhecedores.  Nas organizações costuma estar embutido não em documentos ou repositórios, mas também em rotinas, processos, práticas e normas organizacionais.  Contudo, ele só existe realmente nas pessoas, só se realiza pela ação das pessoas.

Para que informação se transforme em conhecimento, nós seres humanos precisamos fazer todo o trabalho; e estas atividades criadoras de conhecimento se dão em nós seres humanos e entre nós.  Dependendo de como se observa, o conhecimento pode ser visto não só como um processo, mas também como um ativo, um bem.

A transformação de informação em conhecimento se dá de várias maneiras, a mais comum delas sendo a comparação, a criação de correlações (no Latim, “relatìo, relatiónis” tem o significado de “ação de dar em retorno” e ainda de “relatório, discussão, proposta, exposição”.  Vem do verbo latino “reférre”, que é “restituir, trazer de novo, relatar, referir”).

Nunca é demais lembrar que o que alimenta o funcionamento de uma organização é o que os seus participantes sabem (aqui emprego o termo ‘organização’ em amplo sentido, ou seja, qualquer articulação entre pessoas). 

O que as organizações mais desejam é insight (percepção, inspiração), seja na forma de melhores práticas, novas idéias, sinergia (em Grego “sunergía” é “cooperação, assistência”) ou processos de descobertaIsto não se obtém apenas com informação: é alcançável pelo uso efetivo do conhecimento, conhecimento que em muitos casos existe nas organizações, embora esteja inacessível, indisponível ou mesmo negligenciado.

A presunção de que a tecnologia pode substituir o conhecimento humano, ou criar um equivalente para ele, não tem se revelado falsa: considero-a uma rematada estupidez, quando não um exemplo de pura má-fé.

Uma organização é um conjunto de pessoas reunidas para produzir algo e sua capacidade de produzir depende daquilo que ela sabe e do conhecimento subjacente nas rotinas e equipamentos de produção.  O ativo material de uma organização só terá valor real se as pessoas souberem o que fazer com ele.

Se saber fazer define o que uma empresa (ou organização de qualquer natureza) é, então o conhecimento realmente é a organização.  Compreender o papel do conhecimento pode ajudar a responder por que algumas empresas, organizações ou pessoas são sistematicamente bem-sucedidas.

As únicas vantagens sustentáveis de uma organização correspondem a aquilo que ela coletivamente sabe, à eficiência com que ela usa o que sabe e à prontidão com que ela adquire e usa novos conhecimentosUm dos maiores valores do conhecimento é o fato dele nos tornar próximos da ação correta e adequada.

Sem teoria, sem conceituação, sem método conscientemente aplicado, sem crítica, sem democratização ou sem o ferramental adequado, a gestão do conhecimento torna-se na prática, quando muito, gerenciamento de informação.

Isto é claramente apontado por Peter Senge, autor de “A Quinta Disciplina”, quando diz: “Copiar as melhores práticas não é aprender.  A raiz da inovação está na teoria e nos métodos, não na prática Absorver as melhores práticas, como tem estado em moda, não gera aprendizagem real.  A organização que aprende não é uma máquina de ‘clonagem’ das melhores práticas de outros.”

A jornada em direção ao conhecimento produz estados novos em nós, tornamo-nos mais humildes ao longo da caminhada: o conhecimento tem consciência do que não conhece; quanto mais esclarecidos ficamos, mais humildes nos tornamos com relação ao nosso (des) conhecimento.

No artigo Democracia e Utopia (Jan 2009) citamos uma reflexão de Albert Einstein: “A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta a seu tamanho original”.

Einstein nos sugere uma reflexão muito necessária nestes tempos: “Uma pessoa inteligente resolve um problema; um sábio o previne”.