O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (44)

Artigo 108, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mai 2015

© 2005-2017 Fabio Ortiz Jr

 

O Talmude é um dos livros básicos da religião judaica e contém a lei oral, a doutrina, a moral e as tradições dos judeus, constituindo um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, à ética, aos costumes e à história do judaísmo (observemos aqui a contradição dialética de uma ‘lei oral’ escrita).

Como todos os livros ou registros originais das várias religiões humanas, revela um conhecimento por vezes, graças à sua atualidade, surpreendente em relação ao mundo que hoje vivemos.  Em um de seus momentos de sabedoria, reza o Talmude: “Não vemos as coisas como elas são; nós as vemos como somos.”

É fascinante verificar como caminhou o nosso modelo cosmológico, a nossa maneira de conceber o mundo, a vida, o universo, a existência:

- o mundo levado sobre o casco de uma tartaruga,

- o mundo concebido e dirigido por deuses,

- o deus hindu Brahma, condutor do universo, e Vishnu e a serpente Ananta do infinito,

- o gigante chinês Phan Ku, que do ovo cósmico segregou os princípios Yin e Yang,

- a Terra medieval como um disco plano, com os abismos de além-mar,

- a Terra como centro do universo,

- as circunavegações que comprovaram uma Terra esférica,

- o Sol como centro do sistema, o Sol como parte da galáxia, a galáxia como uma entre muitas,

- o universo da física newtoniana (o espaço e o tempo como dimensões distintas, o espaço rígido com referências absolutas),

- o universo da física relativística (o espaço e o tempo como aspectos da dimensão una espaço-tempo, sendo esta distorcida pela presença de matéria),

- o universo estático, fechado, finito, esférico,

- o Big Bang e o universo em expansão,

- a foto da Terra que encantou a humanidade, tirada da missão Apolo,

- não apenas um universo, mas multiversos.

Fazer ciência é um modo de conhecer.

Num sentido amplo, é tão antigo quanto a humanidade; num contexto um tanto mais restrito, começou quando o primeiro homem ou mulher passou a registrar de maneira contínua suas observações e experimentos.

Já num plano atualizado, requer um rigor metodológico, experimental e documental que foi desenvolvido a duras penas nos últimos oito séculos e particularmente nestes derradeiros 300 anos; sua forma atual, definida pelo método científico, tem apenas algumas dezenas de anos.

Entretanto, o embate, já milenar, entre razão e fé permanece irresoluto e espantosamente atual, acirrado pela agonia e reação de um mundo, um modo fundamentalista de ver, conceber e agir, há muito antiquado, oportunista e obsoleto, que, é óbvio, reluta morrer.

Estamos, observado o contexto geral dos últimos acontecimentos no Brasil e no mundo como um todo, no limiar de uma profunda transição: ou superamos nossas inconsequências, decretando o fim de nossa infância, ou nos aniquilamos de vez.

A natureza teve tempo suficiente para desenvolver mecanismos sofisticados de regulação: toda vez que uma espécie cria superpopulações, ela exaure os recursos disponíveis de que se sustenta, o que leva inexoravelmente à sua decadência e, no limite, à extinção.

Estamos, em princípio, subordinados às mesmas regras que limitam a existência das demais espécies; dizermo-nos “superiores” por conta da precária consciência que temos a nosso respeito ou entorno não constitui garantia de que consigamos solucionar os graves problemas que criamos a nós mesmos e às demais espécies.

A vida (a natureza) teve tempo para experimentar inúmeras possibilidades neste planeta.

Ao que parece, nenhum dos processos de sustentação da vida foi descartado pelo caminho: a absorção seletiva dos nutrientes disponíveis no ambiente continua, assim como a fermentação, a fotossíntese e a respiração.

Se um dia foram hegemônicos ou não, todos eles encontraram seu nicho e subsistem, pelo menos até aqui; na verdade, como regra geral, alimentam-se reciprocamente, a tudo reciclando, dado o tempo suficiente.

Assim, mesmo com a escala de desastres (sem precedentes em sua história) que a humanidade atual insiste introduzir e subestimar, é razoável supor que a vida não se extinguirá (seria a nossa arrogância definitiva).

Todas as extinções em massa anteriores, nenhuma delas causada pelo homem, não o conseguiram e provavelmente mesmo a presente não o alcançará, a menos que expulsemos quase toda a água do planeta, a exemplo do que aconteceu naturalmente em Vênus e Marte, como teme e aponta James Lovelock, criador, com Lynn Margulis, da Teoria de Gaia.  Certamente, porém, existe o alto risco de a estarmos empurrando nessa direção.

As breves pinceladas que temos aqui tramado sobre a recente história da Humanidade ilustram nossa até aqui reiterada incapacidade de bem resolvermo-nos.

A cultura e o conhecimento constituem uma longa e minuciosa jornada pelo tempo das experiências e da reflexão para resultarem consolidados e expressos pelos relatos, pelos mitos, pelos ritos.

Costumamos avançar relacionando uma nova experiência a outra que a precedeu, uma baliza, uma referência para comparação.

Relate um conhecimento elaborado a um ouvinte que, mesmo atento, nenhum marco ou fronteira consegue divisar para ali estabelecer uma cabeça de ponte, uma ligação dele com o que lhe está sendo presenteado ou testemunhado; o que você obterá?

Nada, apenas, pois nada terá sido acrescentado ou desenvolvido, porque nada terá sido por ele (re)criado.  Talvez apenas desconforto, pois será como atirá-lo ao vazio, em queda livre.

Em uma travessia, as pessoas em geral precisam de pedras onde pisar, para que não lhes falte o chão; raras possuem o dom de voar.

Neste início de nossa terceira jornada convém relembrar Freud: “Nunca tenha certeza de nada, pois a sabedoria começa com a dúvida.”