O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (51)

Artigo 115, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Dez 2015

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A evolução da distinção entre alquimia e química foi fruto não apenas de uma lenta estruturação de método científico, mas também de descobertas feitas ao acaso; e plena de controvérsias.

Leonardo da Vinci (1452-1519, italiano) já havia cogitado que o ar que respiramos poderia ser composto por uma mistura de dois gases.

O “ar inflamável”, (o hidrogênio) anunciado em 1766 por Cavendish, em On Factitious Air (Sobre Ar Artificial), já havia sido produzido por Robert Boyle em 1671 e, mais de um século antes deste, por Paracelso (1493-1541, suíço), que havia observado também o “ar inerte” (o nitrogênio).

Uma das mais fortes polêmicas deu-se a respeito da “paternidade” da descoberta do oxigênio.

Joseph Priestley, como vimos, havia em 1774 produzido o seu “ar deflogisticado” e, ainda nesse ano, acompanhando Lorde Shelbourne, seu mecenas, em visita a Paris, conheceu Lavoisier em um jantar.

Ao passarem pelos assuntos da Química, Priestley mencionou sua experiência e, por insistência de Lavoisier, contou todos os detalhes sobre suas pesquisas com o “ar deflogisticado”, despertando-lhe vívido interesse.

Antoine Lavoisier (1743-1794), rico, aristocrata, advogado e, durante certo tempo, coletor de impostos para o governo, na verdade interessava-se profundamente por ciência e possuía o que deveria ser à época o melhor laboratório do mundo, com mais de 10 mil peças de tecnologia de precisão, ao contrário de Priestley e de quase todos os químicos de então, que muitas vezes precisavam criar os próprios instrumentos.

Pesava, media, repesava e calculava com precisão antes e depois de cada reação química, pois um dentre seus múltiplos interesses era desvendar o mistério do flogisto, que, proposto por Johann Becher em 1667, havia recebido grande reforço de Georg Ernst Stahl (1659-1734, alemão) em 1703, sendo ainda esta a teoria dominante ao final do século 18.

Pesando substâncias antes e depois de aquecidas, em geral por calcinação, Lavoisier calculava que, se havia o flogisto e ele era liberado, elas deveriam pesar menos depois da queima.  Entretanto, muitas delas, como o estanho, passavam a pesar mais, sugerindo que, ao invés da liberação, havia uma aquisição de algo, capturado provavelmente do ar, restando descobrir o que era então acrescentado.

Repetiu a experiência de Priestley, mas no sentido inverso: aqueceu o mercúrio em um recipiente fechado até obter o pó vermelho da “cal de mercúrio” usada por Priestley e mediu a quantidade de ar absorvida no processo, produto das diferenças de pesos antes e depois da reação; a seguir aqueceu em outro recipiente o pó obtido até este resultar novamente em mercúrio.

Medindo a quantidade de gás liberado, verificou que era a mesma antes absorvida (o que o ajudaria na formulação da lei da conservação das massas, em 1789).  O gás liberado devia ser então o mesmo que fora absorvido, concluindo que este seria um elemento novo,

que nada tinha a ver com o flogisto.  Mais tarde, já em 1777, viria a nomeá-lo oxigênio (em grego, “gerador de ácidos”).

Graças a sua conversa com Priestley, que era um adepto do flogisto, Lavoisier podia desfazer o engano que distraíra a Química por mais de um século: o flogisto não existia.

Além disto, suas experiências enterravam de vez a antiga ideia grega dos quatro elementos fundamentais (terra, ar, fogo, água): ele pode depois (1783) comprovar que a água era composta por dois elementos, dois gases em estado natural, hidrogênio e oxigênio, e a Terra e o ar eram uma mistura, amálgama de diferentes elementos; e o fogo não era um deles.

Lavoisier foi pioneiro de um método científico para mapear rapidamente os elementos e o primeiro cientista a definir com precisão o que era um elemento, uma substância que não podia ser decomposta por meio de uma reação química.

Contudo, ao reivindicar para si a descoberta do oxigênio, apesar do que fizera Priestley e sob a alegação de que fora ele, Lavoisier, a reconhecer a importância e natureza do novo gás, acendeu uma disputa feroz entre Inglaterra, já em plena Revolução Industrial, e França.

Nessa contenda, entretanto, outro fato não era considerado: o oxigênio e o nitrogênio haviam sido descobertos antes, entre 1771 e 1773, por Carl Wilhelm Scheele (1742-1786, sueco), também ele um flogista, que publicou seu livro Chemische Abhandlung von der Luft und dem Feuer (Tratado Químico sobre Ar e Fogo) apenas em 1777.

Assim como nos casos de suas descobertas do cloro, bário e manganês (1774), molibdênio (1778) e tungstênio (1781), Scheele, por não se preocupar em publicá-las rapidamente, não obteve então o devido reconhecimento.

Tanto Lavoisier quanto Priestley, afinal, foram atingidos pelos desdobramentos da Revolução Francesa.

Priestley, clérigo liberal e simpático a ela, foi perseguido na Inglaterra, por temor de sua propagação, e teve sua casa incendiada em 1791, sendo obrigado a exilar-se com a família nos EUA.

Lavoisier, não obstante sua crítica moderada ao antigo regime, sua proposta de reformulação da educação e a tentativa de colaborar com o novo, por intrigas e por haver servido à monarquia deposta, foi executado em 1794, junto com outros 28 coletores de impostos, na Praça da Revolução, o que gerou um profundo lamento, entre outros, do matemático e astrônomo italiano Joseph Lagrange (1736-1813): “Bastou um instante para cortar sua cabeça, mas cem anos não serão suficientes para produzir outra semelhante.”

A lista de Lavoisier, em 1789, tinha 33 elementos ordenados em quatro grupos, um princípio de padrão: gases, não metais, metais e elementos terrosos (com alguns equívocos, como luz e calor).  Tendo desfeito dogmas, como os elementos clássicos gregos e o flogisto, adotando uma abordagem empírica (experimentação e observação) e científica, ele criou um sistema para classificar as descobertas de outros químicos, modificou a linguagem da Química, o vocabulário científico e deu nomes precisos e de fácil universalização às substâncias, aprofundando o caminho aberto por Robert Boyle e revolucionando a Química.

Assim, as mudanças foram profundas; agora a experimentação valorizada podia provar ou refutar a mais radical das ideias e os químicos buscavam novos meios de descobrir mais elementos.

Começava a Química moderna, mas dela não transparecia ainda nenhuma ordem, nenhuma lógica, apenas uma paisagem química onde se distribuíam os elementos ao acaso.

A matéria permanecia impenetrável, evidenciando que novas e poderosas forças seriam necessárias para permitir sua dissociação.