O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (61)

Artigo 125, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Out 2016

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Uma das confusões da química de 1860 residia na falta de um sistema que pudesse, na medição dos pesos dos elementos conhecidos, ser reconhecido por todos os pesquisadores.  Com resultados muito diferentes, dois métodos então se confrontavam.

O primeiro adotava o “peso atômico”, conforme sugerira Dalton (v. O Processo do Conhecimento, Ago 2015), e comparava os pesos relativos de volumes iguais de gases às mesmas condições de pressão e temperatura.  Tomando-se o mais leve de todos, o hidrogênio, como unidade, o oxigênio, por comparação, pesava 16.

O segundo método defendia o conceito de “peso equivalente”, ou seja, media a quantidade relativa de um elemento a reagir quimicamente com uma determinada quantidade de hidrogênio, um equivalente calculável.  Nele, o oxigênio pesava 8.

O fato de uma porção crescente de artigos e livros científicos com frequência sequer mencionarem a que sistemas seus números se referiam, só fazia aumentar a dispersão.  Assim, o denodado esforço de Kekulé, Wurtz e Weltzien, ao convocarem e organizarem o Primeiro Congresso de Química, em Karlsruhe, tinha entre seus objetivos a resolução destas e outras diferenças.

De 3 a 5 de Setembro de 1860, animados, o jovem Dmitriy Mendeleev, seus amigos Borodin, Zinin e mais quatro químicos da Rússia (Sawitsch, Schischkoff, Lesinski, Natanson), junto a cerca de 140 pesquisadores de mais de doze países de cinco continentes, participaram do Congresso de Karlsruhe, que viria a produzir desdobramentos decisivos.

O encontro, que prosseguia inconclusivo (v. O Processo do Conhecimento, Jul 2016), salvou-se no último dia com a intervenção precisa e clarividente de Cannizzaro sobre a distinção entre peso atômico e peso molecular (hoje massa e não “peso”).

Mendeleev, que a tudo observara em arrebatado silêncio, interessou-se em especial pelos frutos da palestra de Cannizzaro.

Uma das questões que ali se resolvia era a controvérsia sobre peso atômico: admitir que gases como hidrogênio (H2) e oxigênio (O2) se apresentam como moléculas de dois átomos (diatômicas) resultava em peso 1 para o hidrogênio e peso 16 para o oxigênio.

Já a reação entre eles para a produção de água (H2O) a partir de volumes iguais de cada um, mostrava que todo o hidrogênio reagia com apenas metade do oxigênio.  Isto induzia o método do peso equivalente a um equívoco, atribuindo peso atômico 8 ao oxigênio.

Tal importância Mendeleev reconheceu no Congresso, que em seu retorno elaborou um relatório de divulgação, publicado nos jornais russos com a ajuda de Voskresensky.

Em suas anotações sobre Cannizzaro podia-se ler: “Lembro vividamente a impressão produzida por seus discursos, que não admitiam qualquer conciliação e pareciam advogar a própria verdade... As ideias de Cannizzaro [eram] as únicas que resistiam à crítica e que representavam o átomo como ‘a menor porção de um elemento que penetra numa molécula ou em seu composto’. Somente esses pesos atômicos reais... podiam fornecer uma base para a generalização.

Sua intenção de estender os estudos no exterior, entretanto, foi frustrada pelo Ministério da Educação, o que o obrigou, contrariado, a voltar a São Petersburgo em Fevereiro de 1861.

Encontrou a capital em efervescência política e agitada por reformas.

O tsar Alexandre II então assinava o manifesto de libertação dos servos, cerca de 22,5 milhões de camponeses (dois meses depois, teria início a Guerra de Secessão nos EUA, por conta da rebelião dos estados escravagistas do Sul), ao passo que a Universidade era temporariamente fechada e o Instituto Pedagógico definitivamente desativado.

De um dia para o outro, Mendeleev viu-se privado de seu cargo, sem recursos e em dificuldades para sobreviver, expressas em suas anotações: “dívidas para costurar casaco e botas, sempre com fome”.

Acrescia ainda a grande responsabilidade de prover a filha Rosa, em Heidelberg, que tivera com a atriz alemã Agnes Feuchtman.

Sem alternativas, procurou e aceitou todo tipo de trabalho afim, como aulas diversas, redação de textos e mais de 20 horas semanais dando palestras de Química em escolas e ainda no Corpo de Engenheiros Ferroviários (Física), na Faculdade de Engenharia (Química e Geografia) e no Corpo de Cadetes de Artilharia, numa atividade intensa.

No retorno à Rússia, Mendeleev logo havia se dado conta de que o ambiente da Química e seu ensino estavam em muito defasados do acelerado desenvolvimento europeu, num isolamento que produzia um atraso desolador; não havia textos atualizados para suas aulas.  Assim, percebeu uma dupla oportunidade: com uma boa escrita científica, poderia também almejar a um prêmio.

Começou imediatamente a escrever um manual sobre química orgânica; e tanto dedicou-se também a ele que conseguiu produzir um livro de cerca de 500 páginas em menos de quatro meses, entre Fevereiro e Junho de 1861, a tempo de se candidatar ao famoso Prêmio Demidov.

Incorporando algumas ideias novas de Mendeleev, o livro revelou-se um sucesso popular, constituindo-se no primeiro manual russo de química orgânica, com sua primeira edição logo esgotada, o que levou a uma segunda em apenas um ano.

Zinin e Voskresensky, químicos orgânicos, apoiaram sua indicação ao prêmio e afinal, já em 1862, ele foi o vencedor.  Com o dinheiro do prêmio, de 1.428 rublos, livrou-se de quase todas as dívidas.

Este alívio relativo o levou, por insistência de sua irmã Olga e um tanto hesitante, a casar-se em Abril com sua amiga Feozva Lescheva, enteada do poeta e contista Pyotr Yershov, que em 1850 fora diretor do ginásio Tobolsk, onde Dmitriy estudara.  Entre 1863 e 1868 o casal teria três filhos, Masha (falecida aos 6 meses), Vladimir e Olga.

Ainda em 1861, terminado seu primeiro livro, logo Mendeleev aceitara o trabalho de editor de uma tradução do livro alemão Tecnologia, de J. R. Wagner.  A tarefa o entusiasmou a ponto de se decidir pela expansão da obra, indo de revisor a autor de capítulos sobre indústria de vidro, amido, açúcar e álcool.

O resultado foi a publicação, em 1862, de uma obra em quatro volumes, conhecida como Enciclopédia Técnica, que suscitaria efeitos importantes em sua carreira de cientista e consultor.  Já durante a escrita, ele havia ajudado o amigo Reichel a otimizar sua fábrica de destilação de madeira, na região de Novgorod, e pouco depois fez o mesmo numa refinaria de petróleo para Kokorev, industrial milionário, no Cáucaso.

Uma das consequências desta intensa exposição foi o reconhecimento de sua qualificação, o que lhe propiciou um cargo docente na Universidade, com a cadeira de Tecnologia; e, mesmo ainda sem o doutorado, foi aceito como professor no Instituto Tecnológico Prático de São Petersburgo, então dirigido por Ilya Tchaikovsky, pai do grande compositor romântico Piotr Ilich Tchaikovsky.  Passou a residir num dos apartamentos comunais do Instituto, onde lecionou, supervisionando o laboratório de Química, e chegou a presidir o Conselho de Graduação.

Fruto de sua perseverança e aplicação, “insistindo no trabalho e pacientemente buscando a verdade científica”, a Mendeleev, com a exceção do falecimento de sua filha Masha, a vida parecia começar a amainar suas agruras.