O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (1)

Artigo 65, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Out 2011

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Nos últimos artigos examinamos como, a partir de sinais, o trabalho humano pode transformá-los sucessivamente em dados, depois estes em informações; a seguir, estas em conhecimentos e estes por fim em sabedoria.

Podemos reconhecer, neste processo, que o número de humanos no domínio de cada etapa vai gradativamente diminuindo, sendo tão escasso ao seu final que nos alimenta a dúvida sobre ser ou não suficiente para o enfrentamento e superação dos terríveis desafios hoje postos a todos nós.

Há na jornada humana várias maneiras de se criar conhecimento ou, mais frequentemente, algo que pareça conhecimento.  Lembremos antes, ainda uma vez, o que demonstramos anteriormente: conhecimento só existe na mente das pessoas e é fruto de trabalho humano (não estou, porém, a afirmar que seja uma exclusividade humana).

Observemos três das maneiras mais comuns de se produzir conhecimento, ainda que não tenhamos aqui a pretensão de esgotar este assunto.

A primeira delas, exercitada desde cedo, quando ainda somos pequenos, apóia-se principalmente na observação auxiliada por alguma dose de experimentação.

Esta forma de contato com a realidade aparente que nos cerca é feita com base em nossos próprios sentidos, nossa percepção do entorno.

Esta prática é denominada empirismo (em Grego, “empeirikós” significa “que se guia pela experiência”).  Isto nos parece, de início, bastante razoável ao nosso senso comum.

A experiência, desta forma, pretende operar como um guia para a previsão, o passado como um guia seguro para o futuro: assim, por exemplo, ao observarmos o sol nascer por muitos dias, ela nos permitiria afirmar que ele nascerá amanhã; ao vermos apenas aves brancas todos os dias, nos sentiríamos encorajados a afirmar que todas as aves são brancas.  Este processo recebe o nome de indução.

O método indutivo pode chegar a algumas conclusões verdadeiras; mas o encontro de apenas uma ave não-branca faz desmoronar o que se acreditava conhecimento, evidenciando a fragilidade do método (ainda que o sol continue a nascer).  Ele pode, na melhor hipótese, servir de início a um processo investigativo.

O problema mais grave com a indução está em sua forma mais primitiva, em geral chamada de intuição: por ela, ao olharmos ao redor, poderíamos pensar que a Terra é chata, estática e é circundada pelo Sol e as estrelas todos os dias.  É assim que podem ser estabelecidos os sistemas de crenças mais estapafúrdios ou retrógrados, quando não maliciosos (como a crença de que o “mercado”, não regulamentado, selvagem, seria capaz de regular a si mesmo e não de produzir miséria, desigualdade, ruína, caos social, como está agora sendo cotidiana e definitivamente demonstrado pela aguda crise em todo o mundo).

Várias vezes aqui abordamos a questão dos sistemas de crenças que adotamos, seja conscientemente ou não, e as dificuldades que eles trazem para nossas vidas, como vimos especialmente nos artigos “A Percepção do Tempo” (Abr 2006), “Educação e Ambientalismo” (Nov 2007), “Desenvolvimento e Sustentabilidade” (Jul 2008), “Democracia e Utopia” (Dez 2008), “Conclusões: O Olhar” (Abr 2009), “Conclusões: O Imaginar” (Ago 2009).

Isto nos leva à segunda maneira mais comum de “produção de conhecimento”: o método da autoridade.

Nele, uma pessoa presume adquirir conhecimento baseada no pretenso conhecimento que alguém lhe apresenta ou impõe, em geral alguém que é visto ou reconhecido em uma posição de mando ou autoridade.  Esta forma é exercida não apenas de pessoa para pessoa, mas também de geração a geração.

A questão inicial a se discutir neste método é a da validade ou não do suposto conhecimento da autoridade: ele pode ser verdadeiro ou não, pode ser correto ou não, pode estar baseado em sua própria intuição, em crenças de outras autoridades e assim por diante de geração a geração.

O método da autoridade pode ser facilmente observado nas escolas que reproduzem um sistema educacional caduco, voltado apenas à manutenção da estrutura de dominação social (“eu sou o mestre, você é o aluno”), pode ser encontrado nas empresas e instâncias de poder público ou privado, governos, partidos políticos (“manda quem pode, obedece quem tem juízo”) ou nas religiões (“o sacerdote é o intermediário da divindade”).

Este método é um grande produtor de crenças, já que parte do princípio de crer em alguém com a propriedade inquestionável de estabelecer aos outros o que é verdadeiro e o que é falso, ou ainda o que é virtuoso e o que é condenável.  Daí surgem variantes do método, como a tenacidade (em que alguém resiste totalmente a modificar o seu “conhecimento” mesmo diante de provas que o contradigam) e o a priori (em que se acredita sem questionamento ou análise, desde que o “conhecimento” lhe pareça algo razoável).

Examinemos uma terceira maneira, um tanto mais elaborada, de se produzir conhecimento.

Diferentemente da indução (onde o exame de uma parte tende a nos levar às afirmações para o todo, generalizações nem sempre corretas), nesta outra maneira elementos devem ser analisados em conjunto para a dedução de uma regra geral.  Grosso modo, como numa investigação criminal à Sherlock Holmes, se tal fato ou evidência observados são verdadeiros, então um outro tal evento ocorre ou deverá ter ocorrido; ao testar esta hipótese buscando verificar este evento, pode-se avançar ou reformular a investigação em busca de mais evidências.  Assim, por exemplo, é possível afirmar que se A é igual a B e se B é igual a C, então A é igual a C.  Este é o método da dedução, o método dedutivo.

Se a indução nos leva, na melhor das hipóteses, a intuir uma tendência, a dedução nos conduz não a certezas absolutas, mas antes a probabilidades, a aproximações da realidade em um caminho mais confiável.  Elas abrem, entretanto, em sucessão, as portas para um maior rigor de método em busca do conhecimento da realidade.

Este método não surgiu da noite para o dia, veio sendo penosamente construído ao longo dos últimos séculos por pensadores e pesquisadores de quase todas as áreas de conhecimento humano.  Hoje de extremo rigor, é conhecido como método científico, que abordaremos nos artigos a seguir.

O médico, romancista, dramaturgo e contista russo Anton Tchekhov (1860-1904) nos diz:

Quando temos sede, parece-nos que poderíamos beber todo um oceano: é a fé; e quando bebemos, bebemos um copo ou dois: é a ciência.”