O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (65)

Artigo 129, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Mar 2017

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Quando iniciamos esta terceira jornada, citamos uma das reflexões do Talmude, livro sagrado da religião judaica, que aponta para o fato de quenão vemos as coisas como elas são; nós as vemos como somos” (v. artigo Mai 2015).

De certa forma, isto poderia ser ilustrado pela lembrança do que havíamos dito, ao final da primeira jornada (v. artigo Conclusões: O Olhar, Abr 2009), sobre a chegada de Cristóvão Colombo ao “novo mundo”, as Américas: “alguns dos povos indígenas encontrados não foram capazes de dar-se conta da aproximação das naus com os visitantes, mesmo estando nas praias para onde estes se dirigiram e aportaram.  As caravelas e seus ocupantes simplesmente não faziam parte do mundo conhecido pelos indígenas, não existiam em sua cultura, não cabiam no seu imaginário Logo, não existiam ao seu olhar”.

As pinceladas que aqui vimos tramando, na reconstrução do conhecimento sobre a natureza da matéria que constitui o universo conhecido, revelaram que até Lavoisier, ao final do século 18, e mesmo pouco depois dele, este esforço de físicos e químicos concentrava-se na identificação e classificação das substâncias compostas, um trabalho voltado à síntese.

na primeira metade do século 19, havia se consolidado a busca pela identificação das substâncias simples, os elementos, numa atividade mais voltada à análiseCom mais de meia centena de elementos conhecidos, a busca intensa por uma classificação geral, que revelasse a organização e a estrutura íntima da matéria, trazendo então alguma previsibilidade, era uma imposição lógica.

Percebamos ou não, em geral a construção do conhecimento sobre algo se dá por comparação, e sucessivas comparações, para que em sua descrição sejam consideradas semelhanças ou oposições a outros objetos de estudo, levando às classificações, o arranjo geral em que os objetos se encaixam e se ordenam.  Fazemos isto o tempo todo.

O desenvolvimento do conhecimento químico não era exceção a esta regra e o francês Gaston Bachelard (1884-1962), filósofo da ciência, o analisa com clareza em sua obra O Pluralismo Coerente da Química Moderna, editada em 1929.

Nela, Bachelard indica que o pioneiro filósofo da ciência Auguste Comte (1798-1857, francês; v. artigos de Mar 2010, Jun 2012, Ago 2014) registrara que a arte das classificações não oferecia à física nenhum recurso de real importância, mas à química sim.

Para Comte, “a química, por sua natureza, tem a esse respeito condições bem diferentes, que se aproximam de certa forma das que a fisiologia pode manifestar completamente Basta assinalar como índice geral a existência das famílias naturais, que hoje em química é admitida unanimemente por todos os pensadores, embora a classificação correspondente a este princípio esteja ainda longe de ser estabelecida convenientemente.  A possibilidade reconhecida de semelhante classificação deve levar necessariamente à do método comparativo... a construção de um sistema natural de classificação química, hoje tão desejado, é impossível sem uma ampla aplicação da arte comparativa...”

Bachelard observa a dialética desta etapa, a aparente transição da síntese para a análise, ondetenta-se compreender o composto pelo simples, mas é para imediatamente caracterizar o simples por seu papel na síntese dos corpos compostos”; e enaltece a importância de Auguste Laurent (1807-1853) e Charles Gerhardt (1816-1856), aqui citados (v. artigo Jul 2016), para quemuma ciência química que se limite à mera descrição dos fenômenos não está cumprindo seu papel.  Laurent quer que os fatos confirmem as ideias, mas é preciso que as ideias imediatamente façam prever novos fatos... a análise de uma substância particular não basta para conhecê-la com exatidão a conheceremos de verdade quando lhe pudermos atribuir um lugar exato no plano orgânico da experiência total, quando tivermos fixado sua gênese e suas qualidades genéticas.”

Seria absoluta, a diversidade dos elementosEra uma questão lógica que se elevava.  Cabia indagar se, a partir de sua gênese, seriam os elementos imutáveis em sua natureza e comportamento.

Em outras palavras, haveria infinitos elementos químicos possíveis?

A mera ordenação crescente por peso atômico, linear, dos então cerca de 60 elementos conhecidos sugeria uma possibilidade perturbadora: se o peso atômico era

importante na definição da natureza e comportamento do elemento, quantos elementos poderiam existir entre, por exemplo, o oxigênio (O) e o flúor (F), de pesos atômicos 16 e 19?  Em tese, infinitosIsto tornaria impossível qualquer classificação.

Bachelard prossegue, lembrando que entãoas substâncias refratárias à análise [os elementos] apresentam-se agora como os elementos de um pluralismo bem definido experimentalmente [em laboratório]. Cumpre então enunciar as propriedades distintivas dos diferentes elementos desse pluralismo.  O problema da diversidade tornou-se, no início do século 19, um problema da classificação das substâncias elementares Mas onde encontrar o princípio [critério organizador] da classificação? ...A maioria dos químicos escolheu, para classificar os elementos, um tipo particular de reação [Fourcroy, acidificação dos óxidos; Thénard, afinidade dos metais com o oxigênio; Berzelius, disposição linear segundo característica elétrica]...  O princípio seguido por Ampère (1816) é mais ambicioso porque pretende traçar um quadro que leve em conta o conjunto das propriedades dos elementos.”

Dumas, em 1828, realizara uma contribuição importante com o conceito de “famílias naturais”; mas as famílias, isoladas, pouco esclareciam.

Evidenciava-se a necessidade de se levar em conta não apenas as características essenciais de cada elemento, mas também as dos compostos que eles formam, para assim estabelecer sua hierarquização e classificação.

Bachelard conclui então que,considerados isoladamente, os pesos atômicos fornecem uma classificação linear.  É acrescentando a ideia de valência (ou, de modo mais obscuro, a ideia de família) que se terá de certo modo uma linha de referência capaz de substituir um alinhamento por um quadro Esquema novo que se revelará, para apreciar as verdadeiras relações das substâncias simples, tão rico de informações quanto o quadro de Gerhardt para as substâncias compostas.  Com as ideias de Mendeleev, a classificação das substâncias ganha assim um novo alcance.”

Como aqui registramos (v. artigo Jun 2016), “desde um século antes, as pesquisas progrediam com rapidez, trazendo a descoberta de muitos novos elementos químicos e relações de combinações entre eles (teorias, leis), como as proporções constantes (Proust), proporções múltiplas e teoria atômica (Dalton), reações dos gases (Gay-Lussac) e mesmo a teoria molecular (Avogadro) e o conceito de valência (Couper e Kekulé)”.

Odling (v. artigo Jan 2017) havia levado em conta as valências e a ordenação por peso atômico, mas os grupos seguiam as valências, não o conceito de família; agarrado ainda à ideia de tríades, não alcançara dali extrair uma regra geral.

De uma forma ou de outra, os que antecederam Mendeleev nesta empreitada deixaram-se limitar por se apegarem em demasia a um conceito central, a que subordinavam as ideias e as descobertas seguintes.
Mendeleev, embora emprestando relevância a três deles (ordenação por peso atômico, valências, famílias) procurava abarcar o todo.

Para além da descoberta, isolamento e descrição de um elemento, Dmitriy Mendeleev estava mais interessado na compreensão do quadro geral, das relações possíveis entre os elementos conhecidos, na busca de uma lógica plausível para sua natureza e seu comportamento.