O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (66)

Artigo 130, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Abr 2017

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Em 1869 Mendeleev dividia seu tempo entre as atividades na Universidade de São Petersburgo, suas pesquisas, a família, consultorias, as visitas à propriedade rural em Tver e à Sociedade Economia Livre da região.

Havia ainda o desafiador trabalho de preparação do segundo volume do novo livro sobre química inorgânica, interrompido por não saber ainda como organizar todos os elementos conhecidos sob um critério lógico satisfatório; e isto o angustiava.

Na verdade, desde o Congresso de 1860 ele, como tantos outros, procurava alguma regularidade no arranjo dos elementos; e, como vimos, nenhum pesquisador, físico ou químico, havia até então alcançado uma proposição coerente e completa.

Mais do que nas propriedades físicas, Mendeleev concentrava-se nas propriedades químicas: além de considerar o peso atômico (massa), avaliava semelhanças e diferenças entre os elementos, suas capacidades de combinação para a formação de compostos, suas valências, suas reatividades.  Havia notado a validade do conceito de família de elementos e a extensão da antiga ideia de tríades, agora em duas e, talvez, em três dimensões Mas avaliar simultaneamente os 63 elementos conhecidos e evitar qualquer ordenamento arbitrário era tarefa gigantesca; e extenuante.

Reconhecendo padrões nas propriedades de três famílias de elementos leves, ao organizá-los segundo seus pesos atômicos, notou um tipo de periodicidade:

a) Li=7; Be=9,4; B=11; C=12; N=14; O=16; F=19

b) Na=23; Mg=24; Al=27,4; Si=28; P=31; S=32; Cl=35,5

c) K=39; Ca=40; Ti=50; V=51

Em suas palavras, "Li, Na, K, Ag referem-se uns aos outros como C, Si, Ti, Sn ou como N, P, V, Sb".  Esse padrão talvez pudesse ser aplicado na organização dos elementos mais pesados.

Analisando demoradamente as valências de alguns elementos na síntese de compostos, observara a notável presença do número oito, uma espécie de remissão à periodicidade por oitavas de Newlands.  Intuía estar num caminho promissor, mas nada emergia claramente desse emaranhado.

Com os dois primeiros capítulos do segundo volume de Os Princípios da Química prontos, no começo de fevereiro de 1869 Mendeleev se debatia testando inúmeros arranjos para os elementos.  No dia 14, cansado, pensava em superar o impasse nesse final de semana para concluir o livro, pois na segunda-feira precisaria tomar o trem para um compromisso com a Sociedade em Tver.  Não havia tempo a perder.

Uma de suas distrações favoritas, especialmente ao viajar de trem, era o uso de um baralho para jogar paciência.  Ocorreu-lhe então a ideia de criar uma série de fichas, como cartas, cada uma delas com os dados mais significativos de um elemento: símbolo, peso atômico, propriedades químicas.  Chegou a dar-lhe o nome de “paciência química”.

Durante dias procurou dispor suas fichas de inúmeras maneiras, esperando dali extrair algum significado profundo.  Ordenou-as por ordem crescente de pesos atômicos, agrupando-as segundo propriedades semelhantes, mesmo estando ciente de que lidava com uma outra dificuldade intrínseca: certamente haveria

ainda vários elementos desconhecidos, a serem descobertos, portanto seubaralho químico era um conjunto incompleto.

Segundo A.A. Inostrantzev, amigo que o visitou, Mendeleev trabalhou sem descanso durante os três dias em que não dormiu.  Na segunda-feira, dia 17, pela manhã, nenhuma solução havia emergido; e sua reunião em Tver seria à tarde.  Mendeleev pressentia estar perto de uma resposta que, contudo, não se revelava.  Por duas vezes, uma pela manhã, outra à tarde, dispensou o cocheiro que o esperava com o trenó que o levaria à estação naquele dia gelado.

Percebeu que poderia abordar uma semelhança com o baralho costumeiro: alinhar as cartas segundo o naipe e em ordem numérica, numa analogia que envolvia propriedades químicas similares e pesos atômicos (massas) crescentes.

Tão absorvido estava pela sensação de iminência, que mais uma noite chegou e a fadiga o venceu.  Sem dar-se conta, adormeceu ali mesmo na mesa; e sonhou.  Em suas próprias palavras:

Vi num sonho uma tabela em que todos os elementos se encaixavam como requerido. Ao despertar, escrevi-a imediatamente numa folha de papel.”

Em seu inconsciente, havia compreendido que os elementos, listados por ordem de pesos atômicos, exibiam suas propriedades numa repetição a intervalos periódicos.

Duas semanas depois, publicava seu célebre artigo Um Sistema Sugerido dos Elementos.

Estava, entretanto, tão profundamente envolvido nas atividades da Sociedade Econômica que, mais tarde, ainda em 1869, no dia do primeiro anúncio de sua Tabela Periódica para a Sociedade Química Russa, por estar em viagem de inspeção a cervejarias e queijarias, pediu ao amigo N. Menshutkin para substituí-lo na apresentação.

Não não vemos as coisas como elas são, vendo-as na verdade como somos: vemos aquilo que estamos preparados para ver.