O Brasil e a Hora da Verdade (8)

Artigo 139, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Fev 2018

© 2005-2018 Fabio Ortiz Jr

 

Nenhuma das potências europeias invasoras dos continentes americanos deixou de se valer de um roteiro básico: tanto Espanha e Portugal, as precursoras, como França, Holanda e Inglaterra guerrearam as populações nativas, utilizaram mão de obra escrava nativa ou importada, extraíram intensivamente as riquezas naturais, instalaram monoculturas extensivas, criaram postos de controle e combate e, finalmente, na medida em que as gerações que se sucediam eram de nascidos nas colônias, passaram a deles cobrar impostos vários e crescentesTudo em benefício desproporcional, quando não exclusivo, das metrópoles, às custas das colônias.

Aos povos nativos as opções impostas eram submeterem-se à escravidão, serem expulsos para cada vez mais longe, serem cooptados e absorvidos ou simplesmente morrerem, quer pela guerra, quer pelas doenças trazidas pelos invasores.  Os escravos importados da África eram destinados a morrerem na travessia (cerca de um quinto) ou morrerem pela exaustão no trabalho, subnutrição ou doenças as sucessivas gerações seguintes, descendentes de colonos e da miscigenação forçada ou consentida, eram submetidas a uma exploração semi-escravista, ou então condenadas a se contentarem com uma possível ascensão pelos interstícios sociais da prestação de serviços, do emprego no comércio ou na administração.

Isto se dava sempre com o arrocho crescente das metrópoles e seus prepostos; quando não eram diretamente as tropas reais ou imperiais a vigiar e punir, a exploração e repressão eram exercidas por grupos ou empresas particulares, como a holandesa Companhia das Índias Ocidentais.

Assim, como é de se esperar entre humanos, sempre houve indignação, resistência e luta.

A violência em nossa história, assunto indigesto mas real (e sempre escamoteado pela história oficial), teve e tem muitas formas, desde os primeiros massacres indígenas, passando pelos motins, pelas rebeliões, insurreições,

revoltas, conjurações e guerras populares.  E ainda, na medida da evolução da complexidade de nossas classes e estamentos sociais, segue até hoje, especialmente no caso brasileiro, disfarçada e naturalizada por mitos engenhosos.

No período estritamente colonial, delimitado pela tardia independência de 1822, após o flagelo dos guaranis pelos bandeirantes, seguido da longa resistência do Quilombo dos Palmares (1580-1710, em Pernambuco) e da Guerra Guaranítica (1753-1757, no sul, com tropas espanholas e portuguesas contra os guaranis), emergem as lutas entendidas como nativistas (defesa dos interesses dos aqui nascidos frente à extrema exploração da metrópole) e separatistas (defesa dos ideais iluministas e da independência da colônia).

Podem ser aqui lembradas, sem maiores detalhes e como nativistas, a Aclamação de Amador Bueno da Ribeira, na Vila de São Paulo (1641), a Revolta de Nosso Pai, em Pernambuco (1666), a Revolta de Beckman, no Maranhão (1684), a Guerra dos Emboabas, em Minas Gerais (1707-1709), a Guerra dos Mascates, em Pernambuco (1710-1711) e a Revolta de Felipe dos Santos, em Vila Rica (1720).

na vertente separatista, que buscava a independência do Brasil, e com forte influência dos acontecimentos que resultaram na Independência dos EUA (Revolução Americana, 1776) e na Revolução Francesa (1789), destacam-se como de maior importância a Inconfidência Mineira (1789), a Conjuração do Rio de Janeiro (1794), a Conjuração Baiana (1798, também conhecida como Revolta dos Alfaiates) e a Revolução Pernambucana (1817), movimentos que receberão a seguir nossa melhor atenção.

Todas elas, inúmeras revoltas indígenas, de escravos, da classe média emergente e de pequenos empreendedores, foram prontamente reprimidas e punidas com rigor, vilania e crueldade pelas mãos implacáveis dos impérios.

Dentre os mitos poderosos incutidos nos corações e mentes brasileiros (e até mesmo acreditado a nosso respeito em outras culturas) desponta o que versa sobre a “cordialidade” nacional, um país e uma nação naturalmente pacíficos, emotivos (talvez daí o “cordial”) e tolerantes, quando não indolentes.

Nada mais falso, não obstante o fato de sermos, em geral, alegres, amistosos, hospitaleiros e ainda otimistas.  E igualmente néscios, porém: profundos desconhecedores da própria origem, da própria história e dos possíveis destinos, somos sobretudo desconhecedores da própria força.

Nossa história de, em grande proporção, invasores europeus, herdada e continuada, é de violência: opressão, preconceito e fúria, baseados desde o início na predação e na escravidão, campeiam e nos governam até hoje solidamente enraizados na ideologia escravagista.  O sistema de exploração implantado no Brasil foi o primeiro a trazer africanos para a escravidão nas Américas, foi o que por mais tempo exerceu esse tráfico e nos tornou o último país a formalmente aboli-la, sem reparação alguma e permitindo sua extensão disfarçada.

A todos nós brasileiros será sempre saudável ter em mente a advertência do notável abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910):

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil... Não basta acabar com a escravidão. É preciso destruir sua obra."

O carnaval de 2018 foi didático: a Paraíso do Tuiuti (campeã popular), demonstrou tudo isto; a Beija-Flor (campeã no ideário Global), o escondeu.

(continua)