O Brasil e a Hora da Verdade (13)

Artigo 144, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Jul 2018

© 2005-2018 Fabio Ortiz Jr

 

A transição entre os séculos 18 e 19 marca um período de extrema turbulência política e viradas sociais em meio às transformações econômicas; não apenas no Brasil colônia, mas sobretudo nos centros de poder europeus.

Assim, para os aqui nascidos, começava a tornar-se evidente que a história do Brasil não era apenas um processo nacional, mas sim mundial; não eram apenas as lutas nas colônias, mas envolvia reinos e nações da Europa, da África, da Ásia e das Américas, um mundo humano globalizado.

Muito resumidamente, e aqui priorizando a essência dos fatos, a revolução industrial inglesa (que, como vimos, era regiamente alimentada pelo ouro brasileiro) se consolidava por uma série de inovações tecnológicas e induzia o mesmo em outros países, que procuravam manter sua competitividade, como a França.

A jovem Revolução Francesa de 1789, iniciada pelas revoltas populares, mas conduzida por parte da burguesia iluminista ascendente ainda com apoio popular contra a monarquia, superava o difícil período de terror fratricida da Primeira República, que ceifara mesmo as cabeças mais luminares, como Antoine Lavoisier (v. O Processo do Conhecimento, Dez 2015), Jean-Paul Marat, Georges Danton, Camille Desmoulins, Maximilien de Robespierre, Louis de Saint-Just e François Babeuf, entre outros.  Entretanto, resultava num permanente vaivém entre as forças burguesas e as populares, impasse que favorecia os ataques das demais monarquias europeias e acabaria  por provocar a entrega do comando militar, por parte da alta burguesia, a um general (tenente à época da Queda da Bastilha, em julho de 1789) que vinha se destacando na defesa francesa, Napoleão Bonaparte.

Numa fulminante ascensão e com o feudalismo sepultado, em 1799 Napoleão já comandava toda a França e seus exércitos contra as forças monarquistas de Espanha, Holanda, Áustria, Prússia e reinos da Itália, além da eterna rival Inglaterra, consolidando o poder e as conquistas da burguesia francesa.  No dia 9 de novembro de 1799 (conhecido como 18 de Brumário do ano VIII no calendário revolucionário francês), junto com o abade Sieyès e Roger Ducos, Napoleão promove um golpe de estado (nos últimos 2 anos a França conhecera 14 golpes) e pouco depois é nomeado Primeiro Cônsul, com amplos poderes executivos e também legislativos.

Em 1801 vários tratados políticos e comerciais são afinal assinados entre os países europeus, incluindo até França e Reino Unido, as maiores potências, o que vem a acenar com um período de relativa paz, em que as monarquias esperavam que a Revolução Francesa se limitasse a seu território original.

Estas expectativas, porém, são frustradas já em 1802, quando Napoleão amplia seu poder por meio de um consulado vitalício, traindo também neste ato um dos maiores valores da Revolução: a abolição do princípio hereditário de poder, tão caro aos monarcas absolutistas que ela combatia.

Ato contínuo, Napoleão inicia o exercício de sua influência nos assuntos internos de estados germânicos e italianos, alguns deles pequenas repúblicas, e ainda em 1802 anexa o Piemonte, a Ilha de Elba e se faz eleger presidente da República Cisalpina, uma espécie de república italiana por ele criada, com o intuito de atrair outras áreas italianas para seu controle.  Contudo, envolve-se numa fracassada guerra de reconquista da antiga colônia de Saint-Domingue (São Domingos, hoje Haiti), grande produtora e açúcar, cuja guerra de libertação, em 1791, ironicamente havia se inspirado na própria Revolução Francesa.  Para as potências europeias, agora, as colônias deixavam de ser apenas

abastecedoras de insumos, produtos e riquezas: tornavam-se geopoliticamente estratégicas nos grandes conflitos que se desenhavam.

Em maio de 1803, a França e o Reino Unido da Grã-Bretanha rompem relações, reiniciando as guerras, que passam a envolver sanções comerciais e bloqueios navais.  Em 1804, Napoleão proclama-se imperador e nomeia parentes para governar seus reinos, dando assim origem a uma nova dinastia, a dos Bonaparte, e sepultando de vez a jovem república revolucionária.

Como desdobramento desta restauração de um governo monárquico absolutista, a expansão política, econômica e militar tornava-se um ato imperativo para uma França em meio à turbulência europeia; assim, o mesmo era válido para as alianças.

Se nas investidas napoleônicas sobre a península italiana a Espanha era uma aliada algo tradicional, pois a dinastia ali reinante desde 1713 era a dos Bourbons, de origem francesa, já Portugal, governada pela dinastia de Bragança desde 1640, procurava se equilibrar numa alegada “neutralidade”, enquanto os reinos da Inglaterra e da Rússia formalizavam uma aliança que contaria ainda com a Áustria, Nápoles e Suécia, numa clara composição que contrapunha dois fortes blocos conflitantes.  Com sua economia combalida, pequena população e então fraco poder militar, Portugal e sua monarquia eram, na verdade e de há muito tempo, controlados por duas forças poderosas: a Inglaterra e os banqueiros holandeses, todos empenhados em prolongar indefinidamente as dívidas e a dependência lusitanas.

Nos embates militares, em outubro de 1805 as forças franco-espanholas são derrotadas no mar pelos britânicos ao largo de Trafalgar, perto de Cádiz, na Andaluzia; já em terra, são vitoriosas contra a Áustria e parcialmente sobre a Rússia.  Em junho de 1806, Napoleão vence na então República Batava, criando o Reino da Holanda, e nomeia seu irmão Luis Bonaparte para o governo; e ainda em outubro desse ano é vitorioso sobre a Prússia.

Em 1807, no entanto, ao se aventurar pela Rússia, sofre bloqueio pelo inverno, com pesadas perdas, e se retira enfraquecido.  Assim, em julho, dá-se o acordo de paz com Rússia, Prússia e Dinamarca e a definição de duas zonas de influência na Europa, uma francesa, outra russa.

Incapaz de invadi-la por conta de seu poderio naval,  para Napoleão e o restante da Europa despontava então a Inglaterra como a única capaz de enfrentá-lo, embora se visse combalida pelos bloqueios e pelas derrotas em suas investidas sobre Montevidéu e Buenos Aires como retaliação à Espanha.  É nessa conjuntura que se decidem os dirigentes britânicos por abolir e combater o tráfico negreiro, a fim de fortalecer sua ordem econômica liberal e de enfraquecer a dos adversários (ou aliados relutantes, como Portugal) que o exploravam.

No continente ou nas colônias, os reinos de Portugal e Espanha nutriam conflitos seculares, ora amenizados, ora acirrados.  A aliança franco-espanhola pressionava pelo abandono da “neutralidade” portuguesa na guerra, mas, ao mesmo tempo, admitia em seus planos, e na recusa lusitana, a conquista e a partilha de Portugal e de suas colônias.  Entretanto, a opressiva presença francesa em território espanhol começava a suscitar temor e oposição crescentes: via-se agora invasores, não aliados.

Rumores de que a Corte Espanhola poderia se refugiar na América, em meio a reviravoltas na família real, começam a despertar motins populares, entre março e maio de 1807, nas cidades de Aranjuez e Madri, em apoio aos monarcas; e, nos meses seguintes, se estendem a outras localidades, até mesmo em Portugal.  A intervenção de Napoleão, nomeando seu irmão, já rei de Nápoles, para o trono espanhol, deflagrou a guerra entre os ex-aliados.  De cidade em cidade, a população espanhola começava a tecer um enorme pesadelo às tropas francesas.

Entretanto, a marcha de Napoleão, ao adentrar a Espanha, movia-se agora em direção a um objetivo final: Portugal, sua família real, reino e colônias.

(continua)