O Rei Está Nu: o Processo do Conhecimento - método científico (3)

Artigo 67, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Dez 2011

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Naquela época do século 15 europeu muitos acontecimentos importantes revelavam o fim de um longo processo e o início de outro, cujos efeitos e desdobramentos vivemos agudamente até hoje.

Apesar de tudo, a interpretação que colocava o Homem e a Terra no centro do universo (geocentrismo) havia criado algum avanço, pois admitia Terra, Sol e Lua como corpos esféricos em movimento (apesar deste modelo cosmológico conceber a Terra fixa ao centro).

Os antigos gregos já admitiam os corpos celestes como esferas: Demócrito (460 a.C.- 370 a.C.) e Epicuro (341 a.C.-270 a.C.) conjecturavam até mesmo sobre a estrutura da matéria, tendo concebido o átomo, que veio a ser cientificamente demonstrado apenas mais de dois milênios depois.

Superavam assim outras concepções (que em algumas culturas ainda permaneceriam por muitos séculos) que imaginavam a Terra como uma semi-esfera conduzida às costas de uma tartaruga (os terremotos eram explicados como decorrentes deste caminhar) ou como um disco plano com terras fixas e mares que terminavam por se derramar por suas bordas (destino que teriam os navegantes que por ali se aventurassem).

Estas visões de mundo (ideologias) criadas pela combinação dos dois métodos de “produção de conhecimento” que já abordamos, o método indutivo e o método da autoridade, ainda se arrastariam até o século 15.  Estado e Igreja, imbricados, formavam um único corpo de ação dominadora que tendia a agravar-se, não obstante o fato de no seio da igreja católica terem existido pensadores como Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1225-1274).

Como a História é tradicionalmente contada pelo ponto de vista dos “vencedores”, esse longo período de 14 séculos foi quase sempre referido como uma era de obscurantismo e bestialidade, onde nove ou dez Cruzadas sucederam-se por dois séculos em busca de alguma “libertação”.

Nada mais falso, porém.  O mundo muçulmano de então, que por 8 séculos (do século 8 ao século 15) dominou grande parte das terras e culturas européias, especialmente o que viriam a ser Espanha e Portugal (península ibérica), havia semeado o desenvolvimento do conhecimento em muitas áreas como a matemática, a astronomia, as artes, a literatura.  A cultura tornara-se fértil para as descobertas de novos

conhecimentos, o que incluía mapas, navegação e ciência.

Bertrand Russel (filósofo galês, v. artigo “Conclusões: O Agir”, Jun 2009) assim escreveu:

"A supremacia do Oriente não era só militar. As ciências, a filosofia, a poesia e as artes, todas floresceram ... no mundo Muçulmano, numa altura em que a Europa se afundava em barbarismos. Os Europeus, com uma insularidade imperdoável, chamam a este período "os anos negros", mas só na Europa Cristã existia, na verdade, a escuridão, com a exceção da Espanha, que era Muçulmana, e possuía uma cultura brilhante."

O historiador Briffault, na obra "The Making of Humanity" (A Criação da Humanidade) nos diz:

"Aquilo a que chamamos "ciência" apareceu na Europa como resultado de um novo espírito de investigação, de novos métodos de investigação, de experimentação e observação, dimensão do desenvolvimento matemático numa forma desconhecida para os gregos. Esse espírito e esses métodos foram introduzidos no mundo europeu pelos árabes muçulmanos".

Assim, não é possível afirmar, sem ferir a história real, que a Idade Média tenha se resumido a peste, feudalismo e cruzadas.  Como nos revela a pesquisadora e professora María Rosa Menocal, em sua obra “O Ornamento do Mundo – como muçulmanos, judeus e cristãos criaram uma cultura de tolerância na Espanha medieval”, a Espanha islâmica (chamada de ‘al-Andalus’ em árabe, donde o nome da região sul do país, Andaluzia) era um lugar luminoso, a vanguarda cultural e científica da Europa, era um espaço raro, talvez único, de convivência pacífica e de intercâmbio criativo entre as três grandes fés monoteístas, islamismo, cristianismo e judaísmo.

Não foi a partir do nada que, ao final do século 15, Portugal e Espanha cristãos passaram a liderar os chamados “descobrimentos marítimos”: mapas, navegadores e caminhos muçulmanos estavam ali disponíveis (foi o caso de Ibn Majid, que serviu a Vasco da Gama como piloto).

Uma nova força se elevava, porém, avassaladora e eivada de disputas pelo poder, como veremos nos próximos artigos.

Desejo a todos um feliz Natal e um novo ano em que possamos continuar a criar um novo mundo, mais solidário, mais responsável, mais próspero e justo.