Sucessão de espécies

Artigo 13, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Nov/Dez 2006

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Que mata bonita, aquela lá no fundo!  Daqui, parece mata antiga, original...”, observei.

Que nada!” me responde o matuto.  “Faz 17 anos era tudo pasto.  O dono tinha emprestado pro irmão, que foi lá e tirou toda a mata, pôs fogo e meteu pasto.  Quando o dono voltou e viu, não deixou mais ninguém entrar nem mexer lá.

Olhei então com admiração ainda maior, quase reverência, pois percebi ali uma beleza profunda, imensa, silenciosa.

Já conhecia o princípio, o conceito, e o aplicava no paciente trabalho de recuperação de meu próprio sítio, um sonho antigo, recém-adquirido.

Quando o comprei, quase todo ele era um pasto ressequido, a terra exaurida pelo pisoteio do gado e pela plantação exaustiva de milho e forragem.  Nenhuma edificação, dois capões de mata a quebrar a monotonia desolada do estrago.  Mas havia água, dois pequenos lagos.

Perfeito!” pensei animado, quando me resolvi a comprá-lo, por estranho que pareça.  “Tudo por fazer!

Lá se foram dois anos de estudos, pesquisas, reuniões e consultas, até que ficasse claro o que eu queria fazer e como o faria.

O plano geral e o projeto foram apresentados ao DEPRN e a licença ambiental foi concedida, acompanhada de elogios: “Quem dera todos fizessem assim...”, tive a honra de ouvir.

Já se vão seis anos e pouco, no total.  Fiz questão de registrar toda a evolução, cada intervenção

documentada e fotografada para comparação e acompanhamento.

O princípio a que me referi é simples, quando compreendido.  Vejamos.

A Terra é o suporte para toda a vida que conhecemos (meus estudos pessoais me levam a conceber a vida como expressão, fruto do planeta, o que me faz concordar com a tese do inglês James Lovelock, a Hipótese Gaia, assunto para outro artigo) e é em sua fina casca, coisa de 20 Km de espessura, que a vida se desenvolve e se mantém.

O que chamamos de “solo” é uma camada muitíssimo mais fina, que dá suporte ao mundo vegetal e microorgânico de que todos dependemos, sem exceção.

Pois assim eu instruí a rapaziada: “aqui a gente roça e deixa.  Roça de novo e deixa, sempre.  Nada de queimada, nada de ‘terra limpa’, nem gado.  Ah, e nada de adubo químico.

Na terra arrasada, os nutrientes estavam bem ali mesmo, porém, ainda imobilizados naquilo que era o resto de antigas rochas decompostas, o “solo”.

Tratava-se de torná-los disponíveis e o princípio é este:  há plantas rústicas capazes de fazer o trabalho pioneiro de ocupação, impossível para plantas mais “evoluídas”.  Estas depois finalmente conseguem se instalar, mobilizando mais nutrientes para outras plantas, “superiores” a elas. E assim por diante.

Chama-se sucessão de espécies, o processo.  É a história da vida na Terra.