Apreensões, U Thant e Kofi Annan

Artigo 12, publicado no Correio da Serra, Santo Antonio do Pinhal, SP, edição de Nov 2006

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Num célebre e ousado discurso em 1969, U Thant (birmanês, viveu de 1909 a 1974, dois mandatos como Secretário Geral da ONU, 1961-71) manifestou toda sua apreensão:

Não desejo parecer excessivamente dramático,  mas pelas informações de que disponho como Secretário Geral, só posso concluir que os membros das Nações Unidas dispõem talvez de dez anos para controlar suas velhas querelas e organizar uma associação mundial para sustar a corrida armamentista, melhorar o ambiente humano, controlar a explosão demográfica e dar às tentativas de desenvolvimento o impulso necessário.  Se tal associação não for formada dentro dos próximos dez anos, então será grande o meu temor de que os problemas que mencionei já tenham assumido proporções a tal ponto estarrecedoras que estarão além de nosso controle.

Quase 40 anos depois, ouvimos a inquietação de Kofi Annan (ganês, nasceu em 1938), atual Secretário Geral da ONU, expressa neste 15 de Novembro ao criticar “a preocupante falta de liderança” no combate ao aquecimento global:

... (peço) que as ações sobre as mudanças climáticas entrem na lista das mais altas prioridades de todos os governos ao redor do mundo.

A mensagem é clara. A mudança climática precisa estar ao lado de preocupações como a pobreza,

os conflitos e a proliferação de armas, que têm tradicionalmente monopolizado as principais atenções da esfera política.

A questão não é mais se há uma mudança no clima, mas se a humanidade vai conseguir mudar rápido o suficiente para responder a esta emergência.  Hoje em dia mesmo cientistas tradicionalmente mais cautelosos já dizem que o aquecimento global está quase chegando a um ponto sem volta; apenas alguns céticos radicais ainda levantam dúvidas sobre os fenômenos de mudança climática.

Eles têm que ser vistos pelo que são: pessoas em descompasso com as tendências atuais e com o próprio tempo.  Gente demais ainda percebe a mudança climática como apenas um problema ambiental, quando (na verdade) trata-se de uma questão de dimensões bem maiores.

É uma ameaça à saúde (a questão climática), já que temperaturas mais altas podem favorecer a disseminação de doenças como a malária e a febre amarela e podem colocar em risco os suprimentos de comida do mundo, destruindo plantações e pastagens.

A mudança climática também é uma ameaça à paz e à segurança. Mudanças nos padrões de chuva, por exemplo, podem aumentar a competição por estes recursos e provocar potenciais tensões e migrações altamente desestabilizadoras.